A escolha de Augusto Aras para a Procuradoria Geral da República, ontem, deixou claro, já nas primeiras horas, que o esmagamento de Sérgio Moro terá, claro, um preço para Jair Bolsonaro.

A reação da corporação do MP – dura e disseminada – e de parte da matilha bolsonarista chegaram a assusta-lo, ao ponto de o levarem a fazer algo raríssimo: tentar justificar seus atos, ontem à noite, em sua live semanal.

“Pessoal que votou em mim, tem pelos menos 20% falando que acabou a esperança dele, que vai votar no (Sérgio) Moro em 2022. Pessoal, atire a primeira pedra quem não cometeu um pecado. Eu tinha que escolher um nome”
“Peço a você, que está esculhambando a gente, você conhece o Aras? Conhece os outros nomes? E, se conhece, é apenas por ter combatido corrupção, mas e as outras questões? Dá uma chance para a gente, meu deus do céu, não vai atirando. Se o pessoal sair atirando em mim sem dar oportunidade do Aras mostrar o seu valor, aí fica ruim a convivência. Eu devo lealdade ao povo, mas não é essa lealdade cega ao povo”

Sim, Bolsonaro piscou. É um general admitindo o descontentamento na tropa. Mas antes de julgar o que isso representa é bom avaliar a imagem que para ela se faz do antigo herói.

Os descontentes olham, desconsolados, o boneco do Super Homem murchar.

Moro recolhe-se ao silêncio, quebrado apenas por uma lacônica mensagem no Twitter, que faz questão de fixar que o o filho não é dele:

Definido o novo Procurador Geral da República, Augusto Aras, por escolha do PR @jairbolsonaro. Todos os desejos de que faça uma bela gestão.

Como diz, na Folha, Reinaldo Azevedo: ” Moro agora exercita o charme do mártir acuado e do profeta traído”.

Talvez, porém, já nem dependa dele mostrar que a vingança tomou conta do espírito morista. Duas semanas depois de Bolsonaro ter dito que se preparava um ataque a “alguém muito próximo dele”, a Polícia Federal fez vazar que o alvo é o deputado Hélio “Bolsonaro”, a quem o presidente chama de Hélio Negão, o adereço étnico que usa em suas aparições públicas.

Moro, porém, paga também o preço de sua necessidade de agarrar-se ao cargo para livrar-se do ostracismo político e, ainda, da “Vaza Jato”. Submeteu-se ao constrangimento de participar da live presidencial, falar brevemente dos vetos à lei de abuso de autoridade e sair assim que, numa combinação evidente, Bolsonaro “liberou” os integrantes da mesa, para não ter de ouvir os comentários sobre a escolha de Aras.

O jornalista Glenn Greenwald, no Twitter, descreve a impressão causada pela cena:

É como se Bolsonaro estivesse conduzindo um novo experimento psicológico sádico no Moro para determinar quanta dignidade uma pessoa está disposta a sacrificar para se apegar ao seu cargo público. Até agora, pelo menos no caso de Moro, a resposta é: tudo!

O ministro precisa se cuidar com o tipo de adjetivo que esta situação costuma merecer em ambiente de porta e botequim, como o deste governo.

Ao despedir-se de Moro, quando este deixou a live para entrar no opróbio, Bolsonaro ironizou: “Cuidado com o bicho papão”. Pois é, sinal que este bicho já não é Moro.

TIJOLAÇO

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