Em nove meses, Bolsonaro pariu mais escuridão e pessimismo. Nenhum fato alvissareiro aconteceu antes e depois do principal acontecimento político do ano até agora – que foram as revelações feita pelo The Intercept Brasil, confirmando a farsa das eleições

Por Alvaro Miranda

Reprodução TV Brasil

O que falta para Bolsonaro renunciar, por Álvaro Miranda


Exercitemos a futurologia não como desejo, mas como reflexão sobre o presente e as perspectivas para o futuro. Afinal, que impacto poderia ter a simples vontade de um jornalista por preferências em relação a esse ou aquele tipo de governo? Entretanto, o exercício de previsões é inerente ao processo cognitivo com suas hipóteses e riscos. Deixemos julgamentos para a “doxa” e tentemos a “episteme”, que procura mais compreender do que sentenciar.

A política se processa entre erros e acertos, indicando ser inevitável, por exemplo, a derrocada de Jair Bolsonaro antes do término do mandato. Se o eleitor sabe ou não votar, isto é, se cometeu ou não um erro, prefiro dizer que voto não é um cheque em branco, mas sim uma aposta institucionalizada. Alguns podem estar pensando: foi mal!

O que parece simples desejo do autor deste texto sinaliza, como conjectura, o inapelável da realidade, com base na materialidade dos acontecimentos e perspectivas. Isso, salvo algum fato ou movimento muito extraordinário fora da curva democrática.

Se milagres já não existem em qualquer dimensão da vida, a não ser na imaginação das pessoas – menos ainda em política. E, mesmo assim, no caso de eventos fortuitos e mesmo planejados para o pior, ditaduras precisam se legitimar perante diferentes setores, e não somente junto a milícias digitais e/ou outras forças truculentas e oportunistas. Se milícias bolsonaristas são criadas, as das forças democráticas também podem se proliferar.

Tudo parece indicar que Bolsonaro não tem e não sabe o que fazer (se é que algum dia teve ou soube) para resolver os problemas mais graves do país, provocando mais oposição entre diferentes setores nacionais e internacionais. Aí vem seu filho todo enigmático querendo subestimar a inteligência do país, dizendo que, pela democracia, o Brasil nunca vai mudar.

Um presidente que diz não entender nada de economia demonstra que nunca esteve talhado para a função de estadista. Se resolveu assumir sua ignorância sobre economia, repetindo o que já dissera em campanha, seus eleitores com mínimo de bom senso (não os boçais e truculentos) podem, enfim, se convencer, pelas próprias palavras dele, por que Bolsonaro fugiu e não enfrentou os demais candidatos nos debates da televisão. E por que também se mostra sempre impaciente, destemperado e inábil em entrevistas coletivas.

Parece que só Bolsonaro não percebeu que a economia não é uma questão só de marketing ou fakenews. Muito menos de milagre. Alguém precisa dizer para ele que a economia derruba qualquer governo, seja de esquerda ou de direita. E, dependendo dos conflitos e contradições, a queda pode ser abrupta, quando menos se espera, sem muitas marolas, como esses desmoronamentos de frágeis casebres em tempestades previstas.

Sabemos também, por outro lado, que, apesar da podridão e do obscurantismo, além dos pronunciamentos toscos para um presidente da República, existe um projeto econômico claro e muito bem definido por detrás de Bolsonaro. Projeto esse cujas consequências estruturais nem ele mesmo talvez dimensione – e que está aí a exigir das forças democráticas ampla articulação para reverter a situação dramática a que o país chegou. Ou vamos esperar que as coisas piorem ainda mais?

Afinal, é evidente a bizarrice contraditória de seu discurso “patriótico-nacionalista” num governo que está desmontando o Estado nacional. Nem Ernesto Geisel, durante a ditadura-civil militar (1964-1985), fez isso. Geisel chegou a peitar os Estados Unidos no acordo nuclear com a Alemanha.

Não se trata aqui também de comparar acontecimentos passados com fatos presentes. As contradições e conflitos ocorrem com outros atores e forças em condições diversas no tempo. O “mundo” é outro, não é o mesmo de 1964. Se o neofascismo vem crescendo mundo afora, a esquerda e outras forças democráticas também. Bolsonaro deve ter reconhecido ligeiramente no íntimo a dimensão do que é ser presidente de uma República Federativa como o Brasil somente agora com a repercussão dos problemas na Amazônia. Sabemos que sua truculência não escondeu certa tremedeira.

Bolsonaro vai cair antes do término do mandato não porque as esquerdas e o PT querem. Seu governo vai se esfarelando porque simplesmente é um barco à deriva, não sabendo que rumo tomar, a não ser tentar responder a sinais de um mercado anárquico. O governo tem agido como uma espécie de robô ou fantoche sendo manipulado por forças poderosas que têm como sócio anfitrião, em conluio, o ministro da Fazenda. As mesmas forças que podem derrubá-lo em convergência com outras.

Em nove meses, Bolsonaro pariu mais escuridão e pessimismo. Nenhum fato alvissareiro aconteceu antes e depois do principal acontecimento político do ano até agora – que foram as revelações feita pelo The Intercept Brasil, confirmando a farsa das eleições. A julgar pelos resultados das pesquisas e pelas crises internas do governo, o pessimismo vai se confirmando para o próprio governo e junto a muitos eleitores arrependidos.

A escuridão só não é escuridão para a TV Globo e outras emissoras, ao procurarem, por exemplo, passar a falsa ideia de que o Brasil esteve numa grande festa no sábado, 7 de setembro, mostrando com mais destaque as paradas militares, algo rotineiro em qualquer governo – em contraste com o tempo dedicado às manifestações estudantis. Estas, sim, novidade num feriado da Independência. A notícia eram os protestos, e não o fato repetitivo e oficial celebrado desde sempre. Mas, a pusilanimidade é irmã do oportunismo golpista.

O (des)governo começou mal sob o signo da corrupção, qual seja, os fatos relacionados ao senador Flavio Bolsonaro e seu ex-assessor Fabrício Queiróz. Isso, sem falar das fakenews “doadas”, durante as eleições, por empresa privada. São fatos que a família Bolsonaro terá que enfrentar na Justiça.

Crises políticas entre os poderes, nos seus altos e baixos, acabam procrastinando o desfecho para diferentes tipos de episódios e oportunidades. Não sabemos o que vai dar, isso é verdade, pois conjunturas políticas são erráticas. Alguns processos até ficam paralisados e aparentemente enterrados. Porém, retornam, em algum momento, à ordem do dia. O que restaria a Bolsonaro no governo? Qual seu projeto no governo, além de ter que blindar sua família contra o que virá pela Justiça? O que resta às forças progressistas e democráticas para barrar o avanço do neofascismo bolsonarista?



GGN

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