Começo estas lembranças sobre 1968 com a reflexão antiga que relaciona a felicidade de cada um de nós ao tempo em que vivemos e à geração a que pertencemos. Os gregos do século V antes de Cristo tinham um vocábulo que expressava bem a eclosão espiritual daquela época: kairos.

A palavra é de difícil tradução, pelo número de ideias que sugere. De modo geral e dentro do que interessa às nossas preocupações kairos significa harmonia, harmonia de todos os tempos juntos e em movimento. Kairos é diferente de Cronos, que nos dá idéia de uma linha contínua: kairos é o tempo circular, dentro da esfera do que existe. É a ampliação do ponto ao infinito, do agora ao eterno.

Os seres humanos quase sempre se sentem inquietos em seu próprio tempo. Na mitologia grega, o destino dos homens se funda com a transgressão de Prometeu, que roubou dos deuses o fogo. O mito, que corresponde ao pecado de Adão, é o da afirmação dos homens, de sua libertação dos cânones divinos. O homem deixa de entregar-se ao arbítrio dos deuses e passa a confiar em si mesmo. Prometeu é o patrono do projeto e da liberdade. Em estreita e enigmática passagem do grande romance de James Joyce, Ulysses - uma reconstrução dublinense da odisseia de Homero - seu personagem Stephen Dedalus diz que History is a nightmare from which I am trying to awake, a história é um pesadelo do qual eu tento em vão despertar.

Ortega y Gasset, aos 28 anos, sugere atuar sobre as circunstâncias. Em seu clássico da juventude, Meditaciones del Quijote, o pensador espanhol redigiu a frase célebre, que é sempre citada pela metade: Yo soy yo y mi circunstancia; sI yo no la salvo a ella, no me salvo yo.

Para “salvar” a circunstância ele aconselha buscar el sentido de lo que nos rodea. Buscar o sentido do que nos rodeia - a circunstância - abre caminho para o encontro entre a esperança e o projeto na ação política.

Cada homem encerra o cosmos inteiro.

O universo, com seus bilhões de galáxias e estrelas, é alguma coisa que ganhamos, quando nascemos, e que perdemos, quando morremos.

A Humanidade é a soma dos seres vivos que têm a consciência da morte. É o preço que pagamos pela inteligência do mundo.

Segundo Engels, só mediante o homem, a natureza toma conhecimento de si mesma. Se me permitem citação bem próxima, minha mulher, ao opor-se ao projeto genocida dos Estados Unidos de redução da natalidade no Terceiro Mundo, mediante a castração dos pobres - expôs em texto publicado pela Folha de S. Paulo na década de 1990 a obviedade esquecida: qualquer ser humano é mais importante do que o Sol, porque o Sol não sabe que existe e qualquer criança sabe que o universo existe.

Há uma citação clássica de Platão, que resume o grande problema dos homens. Ele diz que há duas cidades na cidade (ou seja, dois estados no Estado), a cidade dos ricos e a cidade dos pobres.

O Estado, por mais democrático venha a ser, é normalmente dominado por um grupo, quase sempre econômico, e é essa hegemonia que tem que ser moderada pela ação da resistência.

Esse conflito permanente explica as primaveras prematuras, que são o tema deste texto.

A democracia é um processo que se inicia com Sólon e vai se desenvolvendo, até o seu malogro com a invasão macedônica.

Heródoto considera Clistênio, na passagem do sexto para o quinto século, o criador do sistema democrático, em razão da reforma administrativa e política que descentralizou o poder no espaço ático.

Mas a política passa a ser, em Atenas, também uma construção da filosofia. E entre seus grandes estudiosos se destacou Aristóteles, considerado “O Filósofo” pelo mais importante de seus comentadores, o santo Tomás de Aquino.

Ao prefaciar os livros políticos de Aristóteles, Santo Tomás considera a política uma ciência moral (práxis), que, ao atuar sobre o homem e não sobre as coisas, se distingue das ciências técnicas, que trabalham com a natureza.

O arquiteto ou o ferreiro fazem coisas materiais, acabadas, perfeitas ou imperfeitas, mas a cidade, ou, em nosso léxico, o estado, é alguma coisa que se constrói enquanto nela se pensa.

Não é um ato físico, acabado, mas um processo de natureza moral.

O grande êxito dos gregos em uma aliança militar de suas cidades-estado, com Esparta e Atenas à frente foi a vitória sobre a Pérsia.

A fim de assegurar a defesa comum, criou-se a poderosa Confederação de Delos, que, de acordo com uma de suas cláusulas, só seria rompida mediante a intervenção dos deuses ou dos heróis.

Como o sistema ateniense, democrático, parecia superior ao de Esparta, houve a ruptura entre os dois grandes polos gregos, no momento mais alto da supremacia sobre os persas.

Ao mesmo tempo em que conduziam a guerra, os atenienses estabeleciam seu império sobre o Peloponeso, e as cidades submetidas decidiram rebelar-se, com a ajuda de Esparta.

Com a derrota de Atenas, inicia-se a rápida decadência do sistema democrático grego.

Os espartanos não sabiam como conduzir os atenienses, muito mais civilizados, e instituíram um governo de títeres, logo derrocado.

A polis começou a declinar, por esfacelar-se sua ética, no mesmo ritmo em que crescia a impiedade, ou, seja, a religião se via contestada provavelmente pelo ceticismo que a especulação filosófica promovera.

Poucos decênios depois de seu auge e da derrota diante de Esparta, Atenas foi invadida por Filipe da Macedônia. Logo chegaram os romanos. O poder militar sufocou a grande primavera, que poderia surgir com o aprofundamento do sistema democrático.

Toda a Grécia foi ocupada pelos estrangeiros, que se revezaram durante os vinte e cinco séculos que se seguiram, e o grande projeto democrático se frustrou.

Só no século 19, com o enfraquecimento dos turcos, a Grécia obteve uma autonomia relativa, sob monarquia estrangeira.

E foi preciso esperar pela Segunda Guerra Mundial para que se restaurasse a República, destruída, com o que restara da Confederação de Delos, em 338 a.C.

A Grécia de Péricles, de Sócrates, Aristóteles, Platão, e tantos gênios, foi a maior das primaveras prematuras.

Outra primavera prematura foi a República Romana. É difícil situar exatamente o início de sua decadência. Alguns o localizam no fim do segundo século A.C, com a derrota dos Graco, ou no auge do império de Augusto, cujos sucessores imediatos foram tiranos cruéis, como Tibério e Nero, ou frouxos, como Cláudio.

É melhor lembrar o sonho de libertação de Spartacus. O bravo escravo trácio, ao fugir da escola de gladiadores, lutou e morreu pela liberdade. Se ele houvesse vencido a grande aliança entre os militares, com Pompeu, e os homens de negócios, com Crassus, provavelmente teria substituído o governo dos patrícios pelo governo direto da plebe. A derrota de Spartacus possibilitou, nove anos depois, a ditadura - não declarada - o primeiro triunvirato, de Crassus, Pompeu e César.

Mas, na medida em que o Império decaía, os cristãos, perseguidos e submetidos ao martírio, cresciam. No século 4, essas forças, contrapostas, estavam próximas do equilíbrio, quando Constantino se converteu, e o poder absorveu a fé revolucionária. Nos decênios que se seguiram à morte do Imperador, os cristãos se foram organizando dentro do aparelho do Estado, mas, com Juliano, o apóstata, voltaram a ser duramente perseguidos, sobretudo depois da conversão do sobrinho de Constantino ao paganismo que agonizava. Felizmente, para os cristãos, dois anos depois ele morria. O grande momento para a Igreja foi o de Ambrósio, alto funcionário do Império, que se converte e, em uma semana, é aclamado bispo de Milão pelo povo. Com Ambrósio, a Igreja assume poder político autônomo, que se manterá durante toda a Idade Média. Ambrósio completa a tarefa de Paulo. Paulo havia organizado a Igreja para a clandestinidade e a revolução; Ambrósio a estrutura para o poder.

Em 711, devido a um fato fortuito, os árabes cruzaram o estreito de Gibraltar, sob o comando de Tárik, jovem guerreiro mouro, e iniciaram a invasão do continente, só contida em Poitiers, na França, por Charles Martel, 21 anos depois. Ao refluir para o Sul da Península Ibérica, os muçulmanos construíram a bela civilização da Andaluzia, que manteriam até 1492, quando os reis católicos expulsaram o último dos soberanos islamitas do monumental castelo de Alhambra. Com a ação militar encerraram-se os 771 anos de ocupação da Andaluzia pelos mouros. Nesse mesmo ano, Isabel e Fernando levaram os espanhóis, com as caravelas de Colombo, às Antilhas, no Novo Mundo. Também em 1492, elegia-se papa o espanhol Rodrigo Borgia, que, como Alexandre VI, foi um dos piores pontífices da História.

O Renascimento, que se insinuava havia dois séculos, tomou impulso em 1453, quando os turcos se apossaram de Constantinopla e liquidaram o Império do Oriente, promovendo a fuga de cérebros de Constantinopla para a Itália.

Com ele, começa a Idade Moderna. O movimento, no entanto, não foi só o reencontro com o saber antigo. Como se sabe, a expressão renascimento só foi cunhada mais de três séculos depois, em 1845, por Jules Michelet quando o vocábulo Iluminismo, para designar a revolução intelectual e política do século 18, já se encontrava consagrado.

Na verdade, o Iluminismo foi uma reafirmação do Renascimento, depois da ascensão do pensamento burguês e fundamentalmente inglês do século XVII.

Há duas revoluções políticas contemporâneas de influência recíproca, que, provocadas pelo Iluminismo, marcaram a metade do segundo milênio: Uma delas, a de 1789, na França, foi sangrenta; a outra, não tanto. E há razões ponderáveis para isso. Embora os colonos da Nova Inglaterra tivessem sido beneficiados pela Revolução Inglesa, do século 17.

O sonho primaveril dos Estados Unidos se iniciou em 1620, com a chegada do Mayflower à baía de Plymouth, em Massachusetts. Antes que desembarcassem, os peregrinos se reuniram na cabine de comando e redigiram (por iniciativa de Thomas Bradford) o Mayflower Compact, o compromisso que assumiam para organizar a vida civil em terra.

Tratou-se de algo singular na História: a existência de uma constituição, ou de uma proto-constituição, antes que houvesse uma nação, ou estado.

Durante todo o século, os colonos da Nova Inglaterra foram deixados de lado pela Grã Bretanha, que, de 1625, com a ascensão de Charles I ao trono, a 1689, com a Glorious Revolution, viveu a turbulência política e religiosa, com à guerra civil, a execução de um rei, o próprio Stuart, até a introdução de um monarca estrangeiro, Guilherme de Orange, nascido em Haia.

Desde as primeiras décadas do século XVII as colônias da Nova Inglaterra, aproveitando-se das dificuldades inglesas, começaram a distanciar-se da metrópole e a desenvolver estatutos políticos autônomos. Em janeiro de 1776, Thomas Paine, inglês que emigrara para a América no ano anterior, publicou The Common Sense, propondo a independência. O panfleto correu a Nova Inglaterra como um tufão e 500.000 exemplares foram vendidos imediatamente.

No dia 4 de julho, seis meses depois, os norte-americanos declaravam sua independência e enfrentavam as tropas britânicas. Não houve o terror que ocorreria, treze anos mais tarde, em Paris. Tratava-se de um movimento nacional pela independência, e não uma revolução social contra os privilégios. Em um movimento nacional de emancipação a luta de classes é sempre adiada. As origens remotas e subjetivas da Revolução Francesa estavam no absolutismo consolidado por Richelieu no século anterior. Mas as condições objetivas foram, como sempre, de ordem econômica, com as crises sucessivas, com o declínio e a morte de Luis XV, e a desastrada Regência do Duque de Orleãs. O fato é que a nobreza resistia à ascensão das novas forças políticas, representadas pela burguesia mercantil e pelos banqueiros.

A crise levou à convocação dos Estados Gerais. E foi exatamente nesse encontro de toda a França que surgiu outra primavera. Ela, no plano intelectual, vinha sendo anunciada pelos Iluministas, como Rousseau e Montesquieu, Diderot e D'Alembert, entre tantos outros. Mas os que a fizeram eram menos intelectuais e mais ativistas, mesmo que alguns tenham sido pensadores geniais. Foi um movimento que nasceu da incipiente burguesia contra a desmesurada exploração de uma nobreza ociosa, com o apoio de uma classe média em ascensão, em que havia advogados, médicos, sacerdotes, comerciantes e artesãos. O movimento se perdeu quando chegou a hora da verdade: a Revolução prosseguia em sua meta de igualdade econômica ou perecia, diante da reação.

Foi assim que se chegou a 9 de Thermidor (27 de julho de 1794), com a prisão de Robespierre e sua execução, junto com mais de cem de seus partidários nos dias seguintes. O sonho durara apenas cinco anos, com à abertura dos Estados Gerais e a efervescência revolucionária, e acabava por um golpe, porque os dirigentes não souberam conduzir o processo e se deixaram perder pela luta de facções em busca do poder absoluto.

A Convenção Nacional, titular do poder revolucionário, fora suplantada pelo Comitê de Salvação Pública, e a Municipalidade de Paris passou a exercer o domínio de toda a nação. Os jacobinos e os sans culotte não dispunham de força para prosseguir na estrada radical de uma prematura república socialista.

Houve então o que se podia esperar: o Diretório, logo formado, dependia do braço militar de Napoleão, o grande profiteur do Terror e do Contra-Terror. A Primavera Republicana desembocou no Império napoleônico que iria acabar em Waterloo.

É nesse período que temos novos sonhos. Em 1848, a partir da Sicília, surgem, em toda a Europa, movimentos republicanos. Era a retomada da Revolução de 1789, mas as tentativas se frustraram.

Na França, onde o movimento foi mais radical, estabeleceu-se a segunda república, seguida da insurreição dos trabalhadores, que muitos identificaram como ensaio para a Comuna de Paris, em 1871, 23 anos mais tarde.

O ano de 1848 foi também o ano do Manifesto Comunista, redigido por Marx e Engels. Ansiava-se por duradoura primavera que era, como todas as anteriores, ainda prematura.

Os comunistas pretendiam não apenas o fim da exploração capitalista. Iam mais adiante: defendiam o fim dos estados nacionais que, a seu juízo, eram instrumentos de opressão dos trabalhadores, e a constituição de um poder internacional, conduzido pelos proletários e a sua vanguarda integrada de intelectuais.

A Comuna de Paris foi o momento da grande esperança de Marx. Ele acreditava que o movimento reacenderia os anseios revolucionários europeus e ganharia outras capitais. O momento parecia oportuno, porque a França capitulara diante da Alemanha, e só os trabalhadores de Paris haviam oferecido uma resistência honrada.

O governo de Thiers, constituído logo depois da derrota diante dos alemães, pediu a ajuda dos inimigos, a fim de derrotar a Comuna, que ocupou o poder em Paris entre março e maio de 1871. Vinte e cinco mil rebeldes foram assassinados impiedosamente, depois de tenaz resistência das ruas da grande cidade, entre os dias 21 e 28 de maio, à mais sangrenta semana da História da França.

Marx a eles se referirá como os grandes mártires da classe operária, ao escrever que não há na História exemplo dessa grandeza. Seus mártires se encontram recolhidos no relicário do grande coração da classe operária. A grande definição da audaciosa tentação libertadora é também de Marx: tratara-se de frustrado assalto ao céu.

Marx, morrendo em 1883 aos 65 anos e Engels, em 1895, aos 75, não viveram para ver as suas ideias parcialmente realizadas com a Revolução de Outubro. Quando Marx morreu, Wladimir Ulianov, o futuro líder revolucionário Lênin, tinha 13 anos, e só viria a conhecer os textos revolucionários aos 18. Aos 19, se tornou comunista.

A Revolução Soviética foi a mais importante primavera frustrada do século XX. Não obstante o malogro, foi um dos mais destacados fatos da História. Dois foram os fatores do grande movimento o mal-estar do povo russo com a corte corrompida, entregue à luxúria, submetida a um impostor, Rasputin, que dominava a família real.

Antes que Lênin fundasse o Partido Social Democrata dos Trabalhadores Russos, que se tornaria depois o Partido Comunista, já atuavam anarquistas e revolucionários republicanos contra os Romanov.

Tal como o movimento de Spartacus, que foi vencido por uma coligação entre Crassus e Pompeu, ou seja, entre o dinheiro e a força militar, a Grande Revolução de Outubro enfrentou, desde seu início, a violenta oposição dos poderes estabelecidos, que estimularam a contra-revolução.

Quatorze nações enviaram tropas para ajudar os contra-revolucionários. Derrotados os agressores, os soviéticos tiveram que se confrontar com problemas internos, antes da prova mais dura, o monumental confronto com os nazistas, que levaria à primeira grande e decisiva derrota desses últimos.em Stalingrado, e à sua definitiva derrocada na Batalha de Berlin.

Não é o momento para explicar a gênese política do nacional-socialismo.

Há, do ponto de vista histórico, algumas indicações de que os alemães sempre se sentiram superiores aos outros povos, e a partir dessa certeza partidários da ideia de que só a força faz o direito.

Na Conferência de Haia, em 1907, Ruy Barbosa se distinguiu exatamente por contrapor-se, em aparte memorável, ao representante do kaiser, que estabelecia uma relação direta entre a graça divina, a inteligência, a ética e o poder militar.

Dentro dessa ordem de ideias, os fracos, pessoas e povos, deviam submeter-se aos mais fortes. Hitler não era o agitador ignorante, que criara, nas bebedeiras de uma cervejaria de Munique, uma ideologia perversa mas alguém coerente com a deutsche Weltanschauung, com a visão de mundo, já então histórica, dos germânicos.

A História da 2º. Guerra Mundial é conhecida.

No primeiro momento, as potências ocidentais estimularam o expansionismo oriental de Hitler, como se viu no Acordo de Munique e na indiferença dos franceses e ingleses diante da Guerra Civil Espanhola. Os dirigentes dos países capitalistas e disso há depoimentos evidentes esperavam que os soviéticos e os alemães se aniquilassem mutuamente, o que garantiria a hegemonia do Ocidente.

Mas os processos históricos são dinâmicos, não obedecem aos planos preestabelecidos. Um dos fatores não previstos pelos aliados foi a insurreição dos guerrilheiros de Tito, na Iugoslávia, o que fez os alemães desviarem de sua ofensiva contra os soviéticos grande parte das tropas, a fim de combatê-los.

Isso permitiu aos soviéticos a vitoriosa contraofensiva que começou em Stalingrado, com a morte e a captura de centenas de milhares de soldados alemães.

Outro fator foi a agressão japonesa a Pearl Harbor, em dezembro de 1941 quando a URSS já se encontrava em grande parte ocupada pelos alemães o que levou os americanos a entrar no conflito.

Ainda assim, os aliados só abriram a segunda frente, na Normandia, em junho de 1944, quando os soviéticos, impetuosamente, avançavam contra a Alemanha.

A derrota alemã em maio do ano seguinte, trouxe um momento de alívio e esperança ao mundo. Acreditava-se que se iniciava uma longa era de paz.

Mas não foi assim. Quando ficou claro que os soviéticos que perderam vinte milhões de vidas no conflito sairiam vitoriosos contra os alemães, já se iniciaram os movimentos de reação do Ocidente.

Para fazer frente à possível expansão do pensamento socialista na Europa, os norte-americanos, por iniciativa do general Marshall, que apresentou seu plano em Harvard em 1947 investiram pesadamente na reconstrução do continente.

Eles saiam da guerra sem déficits: ao contrário, a indústria bélica, sustentada pelos tributos especiais e empréstimos voluntários, os bônus de guerra, haviam trazido grande desenvolvimento tecnológico e econômico ao país.

Ainda assim, a ideia de socialismo crescia, e já em 1948, na primeira crise de Berlim, iniciou-se a guerra fria entre as duas maiores potências. Como as idéias precedem os fatos, em 1944, o economista austríaco Friedrich Von Hayek publicou seu livro clássico, Road to Serfdom. Hayek via, no planejamento soviético, como vira na teoria de Keynes, uma ameaça à liberdade dos empreendedores, e lamentava a vitória militar do socialismo.

Sua obra mobilizou a reação conservadora, sobretudo na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde gozava de reputação em alguns meios acadêmicos, entre eles à Universidade de Chicago.
Hayek e von Mises, seu companheiro de Viena, tornaram-se os profetas do neoliberalismo.

Nesse confronto se agrava o mal-estar com o estado do mundo, que leva aos grandes movimentos de protesto e de esperança de 1968.

O socialismo, acossado pela corrida armamentista, não foi capaz de responder à angústia maior do homem, esmagado pela macro estrutura do poder. Os soviéticos haviam cometido um erro, mesmo porque não tinham como agir de outra forma, ao buscar o desenvolvimento industrial pesado ou seja, a construção de poderoso sistema de defesa militar e de importar, naquilo que lhes faltava, a tecnologia ocidental.

Em alguns setores, como o da indústria metalúrgica e da aeronáutica, a sua superioridade era patente. Mas, em outros, faltava-lhes a experiência necessária.

Enquanto se encontravam em guerra, foi fácil a mobilização dos sacrifícios da produção, mas, a partir da paz, os germes do capitalismo ocidental começaram a ruir o espírito do sistema, que era uma quase teologia.

Desaparecida, pela fatalidade ideológica, a geração dos velhos bolcheviques (Khruschev e Brejnev foram os últimos dos que haviam pessoalmente lutado nos anos 30 e 40), os tecnocratas assumiram o poder.

A tecnocracia tem sua própria ideologia, que é a da eficiência, do resultado. A isso se somou o crescente intercâmbio comercial e tecnológico com o Ocidente.
Sem o controle do partido, isto é, da razão teológico-política, os tecnocratas começaram seu vôo próprio. As razões de mercado, pouco a pouco, entraram nas discussões do Gossplan, o Ministério de Planejamento soviético.

Em 1964, o economista soviético Yevsei Libermann, que morreria em 1983, propôs a introdução da idéia da descentralização do planejamento, do lucro das empresas estatais e do bônus, gratificação aos executivos pelo desempenho profissional.

A partir de então, o sistema de produção soviético passou a adotar os módulos do capitalismo ocidental. Durante os três anos seguintes, as ideias de Liberman passaram a ser discutidas e cautelosamente aplicadas nos países do bloco socialista, com mais receptividade na Alemanha Oriental, na Polônia e na Hungria e na Tchecoslováquia onde ganhariam mais força em 1967.

As reformas econômicas foram um dos fatores da Primavera de Praga em 1968, e, de alguma forma para o que ocorreria depois na Europa. Os burocratas clássicos a elas se opunham, criando atritos no partido, dominado pela facção stalinista desde 1948.

Nos tempos antigos, havia o costume de marcar os períodos históricos pela passagem dos cometas. Os anos sessenta, a década que mudou o mundo, se iniciaram com um primeiro, pequeno e efêmero cometa artificial, o Sputnik, lançado ao espaço pelos soviéticos em 1957.

Os anos 60 foram, assim, a década da possibilidade de que os homens pudessem, um dia, libertar-se da prisão planetária, a que se supunha estarem condenados eternamente.

A década se encerrou, em 1969, com a primeira viagem à Lua. Entre o lançamento do primeiro Sputnik e o desembarque lunar, houve uma série de fatos, demonstrando a perplexidade e a insatisfação no mundo inteiro, mas principalmente entre os jovens.

Os negros norte-americanos, nos estados do Sul, onde a discriminação e o segregacionismo eram mais cruéis, começaram a organizar-se. Dois anos antes do lançamento do Sputnik, em dezembro de 1955, uma negra do povo, Rosa Parks, costureira, sem escolaridade maior, negou-se a ceder seu lugar no ônibus a um branco, e foi presa, por violar as leis segregacionistas do Alabama.

Os negros decidiram boicotar o serviço de transporte coletivo, e buscaram o jovem pastor protestante, também negro, mas rico, Martin Luther King, para seu porta-voz.

Assim inicia-se o grande movimento pela igualdade dos direitos civis, sob a liderança de Luther King até sua morte, em 4 de abril de 1968.

No início da década, em abril de 1961, o presidente Kennedy, que estava no poder havia menos de três meses, autorizou a invasão da Baía dos Porcos por exilados cubanos, com armas e equipamentos norte-americanos. O desembarque foi repelido com determinação pelos cubanos, sob a chefia pessoal de Castro e de Guevara.

Embora mantivesse a determinação de eliminar o governo revolucionário cubano, Kennedy promovia os direitos civis nos Estados Unidos, apoiando o movimento negro e adotando medidas avançadas no plano interno. Mas a situação internacional complicava-se com o envolvimento cada vez maior dos Estados Unidos no Vietnã. A morte de Kennedy, em novembro de 1963, continua sendo um mistério até hoje.

Há fortes suspeitas que ele tenha sido morto em uma conspiração de que participaram o chamado “Conselho de Cidadãos de Dallas”, de extrema direita, e os interesses americanos e cubanos preocupados com a informação de que o jovem presidente negociava secretamente um acordo com Havana.

Morto Kennedy, a guerra do Vietnã se intensificando, começa o ano de 1964, dramático os brasileiros. Mas como devemos ir além dos fatos, convém registrar o aparecimento, também em 1964, do livro que se tornou um dos fermentos do que ocorreria quatro anos mais tarde, nas primaveras de 1968: One-dimensional Man. Nele, Herbert Marcuse, ao examinar as estruturas sociais, mostra que o pensamento único, que dominaria o mundo a partir da queda do mundo de Berlim, já estava em vigor. Ele não via diferenças maiores, em 1964, ano, relembremos, que Liberman propôs o lucro ao sistema socialista entre os países do leste e os do ocidente capitalista.

Os dois lados estavam submetidos à ideologia da sociedade industrial contemporânea, que tinha as suas próprias exigências, e convertia as pessoas em instrumentos do capitalismo. Em homens de uma só dimensão, a dimensão de produtor consumidor, em benefício de uma insânia, que é a do egoísmo.

Marcuse atualizava, em seu livro, as críticas sociais contundentes da Escola de Frankfurt, a que pertencia, sobretudo em obras como Dialetik fúr Aufklãârung (A Dialética do Iluminismo) de Max Horkheimer e Theodor Adorno, que alguns traduzem, indevidamente, como Dialética do Esclarecimento o que não esclarece coisa alguma. Aufklãrung é a palavra alemã para traduzir Les temps des Lumiêres, ou seja, O Iluminismo.

Na obra principal da Escola de Frankfurt, Adorno e Horkheimer examinavam aquilo que outro de seus contemporâneos, Lukacs, denominou o apodrecimento da razão: o esfarelamento do ideal iluminista pelo totalitarismo, claro em alguns casos, como no fascismo, e dissimulado nas democracias ocidentais.

Um ponto destacado, e que nos interessa, é o do controle, pelos donos do mundo, da indústria cultural contemporânea.

Em suma, os grilhões de ferro do passado eram substituídos pelo controle da mente, antes pelo cinema hollywwodiano, a serviço do mito e dos interesses norte-americanos. Depois, com a televisão, com suas séries e personagens norte-americanos e seus telejornais pró-norte-americanos. E, agora, pelas redes sociais, com suas fake news a serviço da direita, que, com “especialistas” como Steve Bannon, invadem computadores e celulares para abrir caminho para a eleição de energúmenos como Trump e seus asseclas em vários países do mundo.

Como seus outros companheiros do Instituto de Investigação Social de Frankfurt, Marcuse encontrou asilo nos Estados Unidos ao fugir do nazismo. Em 1964, quando escreveu seu livro nuclear, e depois de lecionar em várias universidades, era professor na pequena, mas renomadíssima Universidade Brandels, em Massachusetts. Em 1968 estava na Califórnia, no campus de San Diego, da Universidade de Berkeley. Com a inigualável liberdade de cátedra dos Estados Unidos, o filósofo, então em seus setenta anos, transformou as aulas em manifestações claramente revolucionárias, convocando os estudantes a assumir a sua responsabilidade diante de uma civilização que erodia. Seus livros anteriores, como “Eros e Civilização”, passaram a empolgar a juventude, juntamente com “O homem unidimensional”. Seu apelo, revolucionário, ecoou primeiro em todos os campi da Universidade da Califórnia e atingiu, em seguida, as universidades da Costa Leste da América do Norte.

Aquela foi uma situação curiosa. As universidades haviam estado fora das grandes revoluções históricas, como as do Renascimento e do Iluminismo, e de seus desdobramentos políticos, como foram os movimentos armados na Inglaterra do século 17 e da França do século 18. Em 1968, e pela primeira vez, as universidades se tornaram os centros da revolução.

Dos Estados Unidos, o movimento chegou à Europa, onde encontra a corrente do Leste.

Na Tchecoslováquia, embora, do ponto de vista da teoria econômica, o movimento se originasse das reflexões de um homem maduro, como Liberman, o estopim emocional do movimento foi o protesto de estudantes da residência estudantil de Strahov, em Praga, ainda em outubro de 1967.

Faltara energia elétrica e calefação na semana que precedia os exames anuais da Universidade de Praga, e os rapazes e moças saíram para a rua, gritando que queriam luz. Eles reclamavam a luz objetiva, para que pudessem estudar. Como estavam próximos do centro do poder, o Castelo de Praga, foram reprimidos com violência pela polícia, que viu na expressão svetlo, luz, uma referência à liberdade de pensamento.

Um deles, filho de membro do comitê central do partido comunista tcheco teve a cabeça quebrada, e o assunto repercutiu politicamente.

O resultado foi o surgimento, dentro do comitê central, de uma corrente renovadora, chefiada por alguns velhos comunistas, sobreviventes das brigadas internacionais da Guerra da Espanha, sob a chefia de um herói da resistência eslovaca contra o nazismo, Alexander Dubcek.

Em janeiro, Dubcek, com o estímulo dos próprios soviéticos, assume o cargo de secretário geral do Partido Comunista, no lugar de Novotny; no fim de março, Novotny, que era o também o presidente da República, é obrigado a renunciar, substituído pelo general Svoboda.

A juventude, embora se movesse, ainda estava tímida em Praga, até agosto, quando chegaram os tanques soviéticos. Nesse momento, e nos meses que se seguiram, as moças e rapazes assumiram o centro das manifestações de resistência contra o invasor. É provável que, assim como a Primavera de Praga influíra no ânimo dos jovens parisienses, os fatos ocorridos em Paris tenham estimulado a ação dos jovens tchecoslovacos.

Embora contidos, os jovens tchecos continuaram atuando, depois da konsolidace (a “consolidação” da vida do país, sob a ocupação soviética e o governo títere de Husak). Em 16 de janeiro de 1969, em protesto contra a ocupação, o estudante Jan Palach, de 21 anos, encharcou suas roupas de gasolina e se queimou, na Praça Venceslau, diante do Museu Nacional de Praga. Palach morreu logo depois no Hospital. Quatro outros estudantes se mataram nas semanas e meses seguintes.

O centro mais importante do movimento de 1968 foi realmente Paris. Várias razões confluíram para que o Quartier Latin se transformasse na capital do inconformismo do mundo, naquelas semanas de maio.

Uma delas era como continua sendo a história mitológica de Paris como Capital do Mundo, com sua crônica de lutas pela liberdade e pela violência nos confrontos.

Dizer que as coisas surgiram espontaneamente é fácil, e não corresponde à verdade. O mal-estar da sociedade, mas, sobretudo, dos mais jovens, era como a pradaria seca, de que falava Mao-Tsé-Tung: bastava uma brasa para incendiá-la. Mas há sempre um fato emocional. Assim como a falta de calefação e de luz levara os estudantes de Strahov às ruas de Praga, uma decisão tomada em março de 1968, pelo reitor da Universidade de Nanterre foi a brasa que os ventos transformariam no incêndio de maio. O reitor proibiu que os alunos do sexo masculino visitassem os alojamentos das moças. E quem organizou o protesto foi o estudante alemão Daniel Cohn-Bendit.

O movimento, em Nanterre, tomou o nome de 22 de março, dia da primeira manifestação naquela universidade da periferia. Pouco a pouco foi crescendo, até ganhar a Rive Gauche e a Sorbonne, em 3 de maio.

Até nisso, o movimento dos estudantes lembrava a Comuna de 1871 que se iniciou em março, para ser severamente reprimida em maio.

Os comunistas, provavelmente temendo uma repressão sangrenta, como fora a de Thiers, contra a comuna, na Semana Trágica de noventa e sete anos antes, agiram com prudência. Os trabalhadores não foram para as barricadas, como em 1871. De Gaulle que se viu obrigado à retirada se reuniu com os altos chefes militares nos quartéis franceses de ocupação em Baden-Baden, na Alemanha, e deles obteve a fidelidade que lhe era necessária.

Por outro lado, o movimento se esvaziara, por falta de adesão da população conservadora de Paris.

Assim foi possível derrotá-lo sem mais confrontos dos que os havidos nas noites de 12 para 13 e de 23 para 24 de maio, quando as barricadas foram erguidas, como ocorrera na antiga Comuna.

Como não eram os trabalhadores que se encontravam na linha de combate, com suas espingardas, mas, sim, estudantes armados de paralepípedos, a repressão não usou armas de fogo, a não ser em dois ou três episódios isolados, felizmente sem mortos. De Gaulle venceu .o desafio. Os estudantes, fatigados, deixaram as ruas. Em abril do ano seguinte, De Gaulle propôs um referendo para continuar no poder e promover as reformas que considerava necessárias.

Foi derrotado e recolheu-se à sua cidade natal, onde morreria no ano seguinte. Seu primeiro ministro, Pompidou, que atuara com cautela, acabou substituindo-o. Os jovens que estavam nas ruas eram, em sua maioria, da classe média, e muitos deles filhos das elites intelectuais e econômicas da França daquele tempo.

Ainda que Paris fosse, naquele ano, novamente a capital do mundo, as razões do mal-estar eram mundiais. O mais sangrento episódio na repressão aos sonhos de 1968 ocorreu na Cidade do México no dia 2 de outubro.

Dominado pelas oligarquias desde o malogro da Revolução de 1910, mediante um partido único, o México só tivera um governo honrado depois de Carranza, o de Lázaro Cárdenas, entre 1934 e 1940, quando o jovem presidente (ele tinha 41 anos) nacionalizou a exploração do petróleo, realizou corajosa reforma agrária e estimulou o sindicalismo dos trabalhadores.

O presidente de turno, em 1968, era Gustavo Diaz Ordaz, aliado incondicional dos norte-americanos e líder da ala direita de seu partido. Os estudantes mexicanos, durante todo o ano e sob a influência direta do que ocorria ao norte, nos próprios Estados Unidos, realizavam manifestações contra o governo e reclamavam mais democracia nas universidades. O centro desses protestos era a Universidade Autônoma Nacional do México uma das mais antigas instituições universitárias da América, existente desde o fim do século 16, anterior, portanto, ao Colégio de Harvard, nos Estados Unidos.

Como as manifestações estavam crescendo no campo universitário, Diaz Ordaz determinou a sua ocupação, com violência, por tropas do Exército, em setembro.

Em protesto, o reitor se demitiu. Com a universidade ocupada, os estudantes foram para as ruas. O governo pediu e obteve a assessoria da CIA e armas próprias para o combate a insurreições urbanas, porque Ordaz estava certo de que o que houvera em Paris iria repetir-se, e de forma muito mais grave, na capital do México.

Os estudantes e trabalhadores convocaram manifestação contra a ocupação da Universidade para a tarde e a noite de 2 de outubro, na Praça das Três Culturas, no bairro de Tlatelolco. A escolha do lugar tinha sua razão simbólica, por representar as raízes indígenas e europeias do povo mexicano. Era terreno sagrado.

Outra razão era a da proximidade dos conjuntos habitacionais populares, bem próximos da praça. As forças militares cercaram a praça por todos os lados, cortaram a iluminação, e helicópteros lançaram as luzes de seus holofotes sobre os manifestantes.

Os militares atiraram de todos os lados, sobre a multidão desarmada, durante 45 minutos.

Ninguém sabe exatamente o número de mortos, mas é quase certo que tenham passado de mil, fora os feridos.

Os corpos foram jogados sobre caminhões de lixo e levados para lugar desconhecido. O governo afirmou que apenas 4 pessoas haviam morrido, e vinte ficado feridas.

Em 1993, 25 anos depois, uma sobrevivente daquele dia, Rosário Castellanos, redigiu o texto da pedra comemorativa colocada na Praça:

Quién? Quiénes? Nadie. Al dia siguiente, nadie. La plaza amaneció barrida. Los periódicos dieron como noticia principal el estado del tiempo. En el cine no hubo ningún cambio. En el programa, ningún anuncio intercalado. Ni un minuto de silencio en el banquete. (Pues prosiguió el banquete).

Rosario Castellanos

2 de octubre de 1993.

Na noite de 13 de Dezembro de 1968 eu me encontrava no restaurante do Hotel Carlton, em Praga. Apesar da presença dos soldados do Pacto de Varsóvia no país, a vida prosseguia. A astúcia dos tchecos possibilitava a continuidade, de forma mais dissimulada, da luta contra a intervenção estrangeira. Isso era mais claro no campo da cultura. Assim, decidiram encenar a peça famosa de Sartre, Les Mouches, que é uma versão atualizada da tragédia de Orestes.

Sartre e Simone se encontravam hospedados no hotel e passaram rapidamente pela mesa em que nos encontrávamos. Éramos três jornalistas estrangeiros. Tad Szulc, do New York Times que, tendo vivido no Rio de Janeiro e em Buenos Aires, falava fluentemente o português e .bem o espanhol. O correspondente de Le Monde na Europa Central, Michel Tatu, e eu.

Mas também ali se encontravam os escritores Carlos Fuentes, do México, e o argentino Julio Cortazar. Não me lembro dos nomes de todos os tchecos presentes, mas um deles era Miroslav Strafelda, que havia vivido no Brasil, como correspondente da CTK, a agência tcheca de notícias, e fora expulso do país pelo governo militar. E também conosco estava a talentosíssima atriz francesa Jeanne Moureau, musa de nossa geração.

Tad e eu comentamos os fatos do dia, no Brasil. O governo editara O AI-5, sob o pretexto de que as Forças Armadas haviam sido ofendidas por um discurso do deputado Márcio Moreira Alves, fechava-se o Congresso que só se abriria, acuado, quase um ano depois.

O Poder Judiciário, com o fim do habeas-corpus e a proibição de examinar os atos soberanos do governo ditatorial, era relegado a um canto do que antes fora uma república.

Ministros do STF eram aposentados compulsoriamente. A censura passava a ser mais severa. O ano de 1968 chegava a seu fim em nosso país. Não havia mais tempo para novos fatos. “Agora vem o Natal”, comentei, e Tad acrescentou: “e, depois, o carnaval”.

O ano se iniciara, politicamente, no Brasil, no dia 28 de março, quando a polícia militar invadiu o Restaurante Estudantil do Calabouço e um tenente atirou à queima roupa contra o peito do estudante Edson Luis de Lima Souto, um rapaz do Pará, de 18 anos, que morreu logo depois.

O episódio comoveu os jovens e também o povo do Rio. Como o governador era homem prudente, o mineiro Francisco Negrão de Lima não houve desdobramentos mais graves.

Os estudantes, no entanto, passaram a organizar-se melhor e a planejar o que deveria ser feito. No dia 26 de junho, sob o comando de Vladmir Palmeira, e a adesão de representantes da Igreja, dos intelectuais, dos artistas e dos trabalhadores, cem mil pessoas marcharam contra a Ditadura no centro do Rio.

Negrão, apesar das resistências, obteve do governo Costa e Silva a aquiescência para que a passeata fosse autorizada. Mandou retirar a polícia das ruas e deixou aos próprios manifestantes a responsabilidade pela manutenção da ordem que foi rigorosamente mantida. Salvo a pichação de uma ou outra parede, não houve qualquer ato de hostilidade dos manifestantes, saudados, do alto dos prédios, com chuva de papel picado.

Os que nos encontrávamos ocasionalmente reunidos naquela noite, no Hotel Carlton, em Praga, não sabíamos o que viria em seguida, mas as perspectivas não eram animadoras.

Não podíamos imaginar que, em nosso país, o terror da Ditadura criasse os centros de tortura do Doi-Codi, que os
empresários de São Paulo se desonrassem ao ponto de financiar a chamada Operação Bandeirantes, criada com o objetivo de eliminar jovens que como em Paris, Praga, na Cidade do México, tentavam resistot ap qie estava acontecendo. Embora a repressão ocorresse no Leste e no Oeste, a América Latina seria o continente dos grandes martírios.

Naqueles anos 70 e 80, teríamos o bispo Dom Romero, de El Salvador abatido junto ao altar, Allende resistindo até a morte em Santiago, os milhares de mortos na Argentina e também muita gente morta no Brasil.

Ao longo desta já cansativa exposição, pretendi demonstrar-lhes que, até os nossos tempos, as primaveras têm sido prematuras.

No embate entre a solidariedade e o egoísmo, o egoísmo tem levado a melhor. Mas se não houvesse os sonhadores, os que insistem nas ideias da igualdade, da liberdade e da fraternidade, o lema revolucionário que os neoliberais tentam sufocar, o homem não teria sobrevivido.

Fui um observador engajado de 1968, que passei em Praga. Só deixaria a então Tchecoslováquia para uma viagem em janeiro de 1969, aos países socialistas vizinhos.

Em 1970 fui transferido pelo Jornal do Brasil, de quem era correspondente em Praga, para Bonn, na então Alemanha Ocidental.

Confesso que não tínhamos, os que  vivemos aquele tempo, como prever a influência dos fatos sobre as quatro décadas seguintes, embora soubéssemos que a reação saberia articular-se, como se articulou. Mas ainda assim, tive a nítida consciência de que estávamos vivendo um tempo histórico. Hoje, podemos fazer o inventário inicial do que obtivemos em 68. O capitalismo não foi vencido e a experiência socialista foi interrompida.

Cinquenta anos depois de 1968, o capitalismo se tornou ainda mais sólido, com a queda do muro de Berlim e a chamada globalização da economia.

Os ícones daquele tempo que não morreram caminham hoje quase anônimos nas ruas que dominaram no passado.

Os que morreram em pleno voo ainda são vistos com admiração por alguns s jovens, mas não por todos eles.

Os hippies daquele tempo, na geração seguinte, se tornaram yuppies.

Vejo que, com todas as derrotas, alguns voltam a mover-se em busca de um sentido para a vida. Houve alguns ganhadores, como os negros e as mulheres. Se não fosse o sacrifício de Luther King, naquele abril de 68, dificilmente um homem como Barack Obama, mulato e filho de mãe solteira, chegaria ao Senado dos Estados Unidos e se tornaria Presidente dos EUA.

Mas houve também perdedores. A ordem de domínio, reanimada pela destruição do sistema socialista, ressuscitou o liberalismo do século 19, e não há sinais de que essa experiência esteja próxima do fim, muito pelo contrário.

A História, embora repita quase sempre os mesmos movimentos, caminha com dificuldade, retida por aqueles que tentam proclamar seu fim e buscam impedir o seu avanço.

A Igreja Católica passa por sua crise maior, desde os três papas que a perverteram na passagem do século 15 para o 16, e que provocaram, com sua corrupção, a Reforma de Lutero: Rodrigo Borja (Alexandre VI, Giuliano della Rovere (Júlio IL, e Giacomo Médici (Leão X).

Também aqui tivemos dois papas empenhados em desviar a Igreja de seus compromissos com o velho cristianismo: o polonês Karol Wojtila (João Paulo II) e o alemão Joseph Ratzinger (Bento 16). O primeiro deles se aliou ao protestante Reagan, e o segundo ao protestante Bush.

Seguidos do papa Francisco, um mestre do pluralismo, do humanismo e da conciliação.

Alguns ainda resistem ao hedonismo e a brutal ideologia do êxito a qualquer custo que domina a sociedade egoísta de nossos dias.

E redescobrem, a cada geração, a solidariedade, que é a única forma de se preservar a espécie humana.

Lembrei, para explicar a rebelião juvenil de 1968, Herbert Marcuse.

Ele foi contemporâneo de um grande mártir da inteligência engajada do século passado, Walter Benjamin.

O excepcional ensaísta, que se matou aos 48 anos, a fim de não cair nas mãos dos nazistas, escreveu uma frase forte quando os Hitler e seus sequazes tomaram o poder em Berlim.

Ela é citada por Marcuse, na última linha de seu One Dimensional Man:

Nur um der Hoffnungslosen willen ist uns die Hoffnung gegeben.

“Somente na causa daqueles que perderam toda a esperança é que à esperança nos é dada”.


Mauro Santayana

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