“O impeachment foi uma construção gigantesca, política e institucional. Até a direita diz que ainda estamos pagando o preço do impeachment. Não seria cabível que uma malandragem contábil gerasse aquilo tudo. O tiro de meta pode e deve ter sido brasileiro. Mas não tenho dúvida de que houve –e há–, nos nossos dias ainda, uma presença americana na orientação, na indução e na definição dos caminhos que o Brasil tem seguido, inclusive no impeachment”.

A avaliação é do jornalista Janio de Freitas em entrevista ao TUTAMÉIA (acompanhe no vídeo acima). Na conversa, ele trata dos rumos da política, dos descalabros do governo Bolsonaro, dos caminhos da esquerda, dos interesses das classes dominantes, de história e de jornalismo. E desabafa:

“É o país que está em jogo, não é um detalhe de uma contabilidade governamental. É a vida do país que está em jogo! É o futuro do país que está sendo jogado aos tubarões diante do mundo inteiro. Estamos sendo escrachados pelo mundo inteiro. Ver os jornais estrangeiros hoje é uma coisa vergonhosa, é muito triste. Eu fico muito triste. Eu fico pensando nos meus filhos. No meu filho, agora só tenho um filho, nos meus netos, nos filhos deles. Que diabo de país será este!”.

E segue: “A rigor, a minha vontade é dizer a eles: ‘Saiam do Brasil, vão embora’. Quatro deles têm dupla nacionalidade. ‘Vão para a Europa, vão embora!’. Eu não posso dizer isso. Não seria direito dizer isso a eles porque eu não sei que destino eles terão no exterior. Não posso assumir esse risco que eles é que viverão. Não posso fazer isso. Mas o meu desejo seria esse”.

Jornalista maior do país, Janio, 87, revolucionou a imprensa nacional em meados do século passado. Como editor, redesenhou publicações, como o “Jornal do Brasil”. Exerceu cargos de direção também no “Correio da Manhã” e na “Última Hora”; atuou em revistas como “Manchete” e “O Cruzeiro”. Como repórter, publicou furos, como o da fraude de empreiteiras na concorrência da ferrovia Norte-Sul, na “Folha”, em 1987, que lhe valeu o Prêmio Esso, um dos tantos que conquistou. Desde 1983 escreve coluna de política na “Folha”.

MECANISMO GIGANTESCO

Na conversa com TUTAMÉIA, na última quinta-feira (29.8), no Rio de Janeiro, Janio lembra: “Em 1964 e um pouco depois, eu tive duas possibilidades de sair do Brasil. Achei que não era o caso de sair. Era o caso de ficar aqui e defender as minhas opiniões, os meus princípios, a minha visão. Eu fiquei; foi uma burrada monumental. O meu nome foi o primeiro nome da lista apresentada pelo Juracy [Magalhães] dos jornalistas que não deviam ser admitidos por aqueles patrões que estavam na mesa. Foi o célebre dia em que o Roberto Marinho disse ao Juracy: ‘Ministro, o senhor cuida dos seus comunistas, que eu cuido dos meus. Os comunistas são os meus melhores funcionários”.

E continua:

“Naquele momento trágico, eu achava que era o caso de ficar. Hoje tenho a sensação de que essa coisa toda, a grandiosidade disso tudo não é brasileira. O alcance que essa coisa teve! Isso envolveu tudo. Não foi uma televisão que entrou no ar com um programa vigarista. Não foi um sequestro entre aspas ou sem. É todo um gigantesco mecanismo. Envolve a Câmara dos Deputados, o Senado, o TCU, o STF, STJ, a Justiça Eleitoral, envolve toda a mídia. Envolve e aproveita muito essa coisa esquisitíssima que foi a Lava Jato. Em havendo milhares de maneiras de combater a corrupção por via judicial, foi escolhida a pior maneira: a maneira sórdida, indecente e imoral. Porque se vale de meios fraudados, fraudulentos com a maior frequência, e destinados _não adianta negarem– foi destinado ao Lula e ao PT, a impedir uma candidatura previamente vitoriosa, antecipadamente vitoriosa. É uma coisa grande demais”.

LOUCURA NACIONAL

Para ele, o que está acontecendo no país é uma “loucura nacional, a partir de uma loucura pessoal, cuja identidade eu nem preciso mencionar. É uma situação muito complexa, sem precedente. Não se vislumbra o desponte de alguma força política, de opinião pública disposta a enfrentar essa situação de total maluquice, de descontrole completo, de imprevisibilidade absoluta. Não vejo como se possa imaginar o desdobramento disso”.

Bolsonaro, na visão de Janio, “não tem o controle de si mesmo, da sua mente. É uma pessoa inculta, ignorante, violenta. Mas nada disso explicaria a total incompatibilidade entre a deseducação com a qual ele se comporta, a irracionalidade com que ele se comporta e o que era esperado de um presidente da República. A incompreensão dele para a função que lhe foi atribuída só se pode compreender como um traço de anormalidade mental, psíquica. Gostaria muito de vê-lo submetido a um exame, a uma perícia psicológica. Acho que temos na Presidência uma pessoa que não se domina, não se controla, não se dá conta sequer do que é esperado dele até como obrigação em termos de conduta pessoal. Nem falo de programa de governo”.


SOBERANIA SUJEITA AOS EUA

Janio trata de militares, da Amazônia, da submissão do governo aos interesses dos EUA:

“Entendimento com os EUA nós todos sabemos o que é. E quem não souber é só pegar um livrinho de história que dali só pode deduzir que entendimento com os EUA significa uma coisa boa para os EUA. Um ganho adicional para os EUA, nunca para aquele que faz um acordo com os EUA. Não há país que possa dizer que teve o seu desenvolvimento ajudado pelos EUA. A história não registra isso. Não há nenhum caso, zero”.

O jornalista lembra que “a ambição dos EUA sobre a Amazônia nunca foi escondida. É perfeitamente lógica a existência dessa ambição. Amazônia tem muito a oferecer. E os EUA conhecem muito mais a Amazônia do que os brasileiros. Entre outros motivos, porque tiveram a simpática colaboração de FHC, que entregou a eles o sistema de vigilância da Amazônia, que não é de vigilância coisíssima nenhuma. É de vigilância, mas é também de conhecimento da Amazônia. E, nesse conhecimento, o que importa é o lado científico, que hoje é a base das ações militares”.

Hoje, segundo ele, que existe é uma “soberania sujeita aos EUA. Logo, não é soberania. É o que tem nos em sido oferecido pelo capitão. As citações à soberania hoje são absolutamente vazias, um mero recurso retórico, de propaganda. Soberania é absolutamente fundamental. É o único caminho de se possa definir a identidade de um país, uma cultura e o papel dele no planeta. Sem ela, quem define são os outros e se segue bovinamente”.

O jornalista discorre sobre esse tema central na história do Brasil. Lembra das ações fundamentais de Getúlio em seu segundo período. Janio ingressou no jornalismo justamente em 1954, ano do suicídio de Vargas. “Deu no que deu por causa da questão da soberania. Não foi pelo fato de o Getúlio ter um irmão que fazia besteira num cassino”.

Vai para Jango e sua tentativa de exercer a soberania. Afirma que Sarney “ficou entre pressões de todos os lados, mas não teve nenhuma tendência entreguista, teve uma visão bastante nacionalista”. Ele aponta na criação do Mercosul um ponto importante que desagradou o poder norte-americano:

“Ali começa. Os americanos foram fortemente opositores. E o Sarney resistiu muito, uma atitude de bravura dele ter levado aquilo adiante. Ali começa uma etapa nova. Entra uma forma de marginalizar os EUA. Os EUA não admitem. Aqui é o quintal da mansão. De lá para cá, os atos e os percursos sofrem certas alterações. Mas o objetivo não deixa de ser o mesmo, que teve na origem o Mercosul”.

Já Collor, para Janio, é “de uma tristeza indescritível, com outra vez a mídia pecando porque agiu em favor dele”. Itamar é apontado como um “nacionalista, que se comportou com dignidade. Com FHC tem o Sivam, uma história crapulosa. Se fosse mais jovem, era uma história em que eu trabalharia. Houve coisas horrorosas”.

Depois, segue, “o governo Lula procura estabelecer uma política externa com raízes de soberania muito claras, muito declaradas e muito praticadas. A Dilma deixou de lado essa pratica, mas não deixou de lado a soberania. Era para ter levado aquela política externa adiante. Ao cair da Dilma, nem a ideia de soberania sobreviveria; foi o que se deu”.

FRAUDES, TRUQUES, MOLECAGENS, VIGARICE

Perguntamos: Que conspiração é essa? Janio: “Para ser coerente eu devo responder em inglês: I don´t know”.

Janio ataca a Lava Jato: agiu com fraudes, com recursos ilegais, com total desrespeito pelos poderes superiores. Pergunta como ninguém dos conselhos superiores “levantou a voz verdadeiramente contra aquilo que era evidente, que um leigo como eu via. Estão comprovados. Todas aquelas coisas que eu apontei estão comprovadas hoje. Não só eu. Fomos muito poucos; estamos hoje comprovados. Se nós que somos leigos e poucos acertamos, será possível que procuradores, os conselhos, os juízes do CNJ, integrantes do STF, STJ não viram? Não viram nenhuma vez essas fraudes, esses truques, essas molecagens? Só os leigos perceberam isso? Houve uma pré intenção nesse silencio, nessa omissão, nessa conivência”.

E o que, então, dizer das instituições brasileiras nesse processo?

“Essa história de que as instituições resistiram muito bem ao impeachment, à Lava Jato é vigarice pura. As instituições não sobreviveram bem, íntegras. E já não eram, porque o processo construtivo não havia sido concluído. Com aquilo, houve muito mais do que arranhões. Foram pedaços gigantescos do processo democrático, da construção democrática que ficaram pelo caminho, jogados ao léu e ao fundo do poço. Cujo destino final não se sabe. O que vai ser daquilo que se perdeu não se sabe. Acharemos? Reencontremos? Não há sinais que sugiram otimismo. O Brasil continua sendo, embora negativamente surpreendente, continua sendo surpreendente”.

MÍDIA PARTÍCIPE

E qual foi o papel da mídia em todo esse processo? “Jornais, TVs, rádios e revistas estiveram em todo esse percurso como agentes de primeiro plano. Em tudo que falamos, a responsabilidade da imprensa, da televisão, do rádio é imensa. Ela foi partícipe. A mídia representa, porque é parte, a opinião da classe dominante. De repente, se abrem brechas efêmeras”.

Para ele, há um “colapso da imprensa escrita, substituída por uma avalanche de insensatez, irresponsabilidade, leviandade que tem ocupado a internet, frequentemente por profissionais de jornalismo ansiosos por dar o furo, dar a opinião. E outros pelo velho carreirismo, que continua sendo um atrativo imenso no jornalismo brasileiro”.

CLASSE DOMINANTE COM MEDO E SEM O CONTROLE

Em vários momentos da entrevista, Janio fala da classe dominante e de seus interesses. Por que houve convergência em torno de Lula no início dos anos 2000 e, agora, uma ruptura?

“A classe dominante surpreendeu-se com o Lula. No final do governo, ele tinha 82% de aprovação. Esses 82% foram uma sirene de alarme, porque eles significavam uma força política capaz de cobrar ao Brasil uma soberania que não interessa a muito país estrangeiro muito poderoso e muito mais experiente em meter a mão nos países alheios e, depois, determinar as coisas como deve ser. A classe dominante é ligada a esses interesses. Ela própria sentiu que aquilo que ela temia poderia vir a acontecer. Voltou a ter medo por causa do êxito de uma outra classe, de um outro segmento político que não era dela. Controle ela não tinha mais. Nada foi feito contra ela, pelo contrário, mas controle ela não tinha mais”.

E segue: “Juntam-se todos os interesses para a retomada do controle quando ainda acontece o pré-sal, que desperta, justificadamente, uma imensa atenção e ambição pelo mundo afora. E o pré-sal é parte nesse jogo todo. Está sendo entregue, assim como a Petrobras, para não se meter a querer controlar o pré-sal. Isso tudo se combina. É um jogo de xadrez”.

SEJAM INCONFORMISTAS, POR FAVOR

Na avalição de Janio, “A esquerda brasileira é muito mal informada e não conhece nada do Brasil”. À desinformação, diz, se soma uma ilusão –a sobre o papel da chamada “burguesia nacional”.

“A esquerda foi se dissolvendo, aceitou a Lava Jato muito bem. O resultado é que a gente não tem esquerda hoje. Não vejo liderança política nem de esquerda nem de direita. A direita precisa menos de líderes políticos porque ela tem uma organicidade que a esquerda não tem em lugar nenhum. A esquerda tem uma imensa necessidade. Não vejo ninguém despontando para liderar. Não sei o que sobrou do Lula. Eu não o vejo capaz de liderar hoje”.

Uma mensagem final?

Fala Janio:

“Aqueles que não se sentem satisfeitos pensem no seguinte: sem inconformismo não se faz absolutamente nada de diferente do que está diante do nosso nariz. E sem transformar o inconformismo em práticas, em posições explicitas, em afirmações e atos também não se sai de nada do que está diante do nosso nariz. Sejam inconformistas, por favor!”.



TUTAMÉIA

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