Macron e secretário-geral da ONU cobram ação contra a crise ambiental que reverbera nas redes sociais. Brasileiro diz que não tem dinheiro para combater o fogo


Região da Amazônia brasileira depois dos incêndios.BRUNO KELLY (REUTERS)




As chamas que devoram a Amazônia brasileira nos últimos dias são as mesmas que alimentam nas redes sociais a indignação contra o presidente Jair Bolsonaro. Enquanto a hashtag #PrayforAmazon (reze pela Amazônia) se tornava trending topic global nesta quarta-feira, e os habitantes das regiões afetadas publicavam imagens dos danos causados pelo fogo, o presidente dizia, sem apresentar provas, que as chamas estavam sendo deliberadamente causadas por integrantes de organizações não governamentais, como vingança pelo corte de recursos decretado pelo Governo. A crise também transcendeu à esfera internacional: o presidente francês, Emmanuel Macron, catalogou os incêndios na Amazônia como “crise internacional” e decidiu incluir o tema na agenda do G7 deste fim de semana. E o secretário-geral da ONU, António Guterres, mostrou sua “profunda preocupação” com a situação. “Em meio à crise climática mundial, não podemos nos permitir mais danos a uma grande fonte de oxigênio e biodiversidade. A Amazônia deve ser protegida”, tuitou o português, máximo dirigente das Nações Unidas.

Bolsonaro reagiu a Macron. Dono de uma retórica radical que não raro lança mão de construções falsas e mentiras para atacar os adversários, o presidente brasileiro usou tom inusualmente sóbrio e duro para acusar Macron de ser "sensacionalista" para "instrumentalizar uma questão interna do Brasil e de outros países amazônicos para ganhos políticos pessoais". "A sugestão do presidente francês, de que assuntos amazônicos sejam discutidos no G7 sem a participação dos países da região, evoca mentalidade colonialista descabida no século XXI", criticou o presidente ultradireitista, que ainda criticou o presidente francês por usar uma foto "falsa" —a imagem usada, de fato, não é da onda de incêndios atuais, segundo a Folha. Bolsonaro, que contesta a medição oficial do desmatamento feita pelo próprio Governo, ainda pediu o uso de "dados objetivos" para discutir a questão.

Antes, o mandatário brasileiro havia usado sua retórica mais usual. Longe de recuar, voltou à carga. “Querem que eu culpe os índios? Que culpe os marcianos? Todo mundo é suspeito, mas os principais suspeitos são as ONGs. É uma indicação muito forte de que essas organizações perderam seus benefícios. É simples”, respondeu, de novo sem apresentar qualquer evidência, quando perguntado sobre a responsabilidade pelos incêndios. O presidente brasileiro sugeriu, além disso, que faltam recursos inclusive para enviar “quarenta homens para combater o fogo”.

Mais de meia centena de organizações não governamentais cerraram fileiras nesta quinta-feira e responderam ao ataque dialético promovido por Bolsonaro. “É uma declaração absolutamente frívola e irresponsável que tem um objetivo muito claro: desviar a atenção do que realmente importa” na hora de tomar medidas que reduzam o desmatamento, declarou Raul do Vale, diretor de Justiça Socioambiental do WWF Brasil, à agência Efe. A Amazon Watch também se manifestou, vinculando a devastação da floresta ao discurso “antiambiental” de Bolsonaro, um ex-capitão do Exército que se mostra partidário de explorar economicamente a Amazônia e reduzir a fiscalização das regras ambientais nas áreas protegidas. “Os agricultores e pecuaristas entendem a mensagem do presidente como uma licença para provocar incêndios intencionais com total impunidade, a fim de expandir fortemente suas operações na floresta”, afirmou Vale.

Além disso, a postura do Governo brasileiro – que já despertou os receios da comunidade internacional – levou o partido Rede Sustentabilidade a apresentar ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de impeachment do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, por crime de responsabilidade na gestão da política ambiental.

Comissão externa e Ministério Público

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, anunciou nesta quarta-feira a criação de uma comissão externa para monitorar os incêndios e destacou a importância de preservar o meio ambiente para manter fortes as exportações e o agronegócio. Já a Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do Ministério Público Federal também informou ter cobrado ao Ministério do Meio Ambiente uma plano de ações concretas para a prevenção de desmatamentos e incêndios na regiãp da Amazônia Legal. A 4CCR pede o demonstrativo do planejamento das ações de fiscalização para 2019, com o seu percentual de execução. Os ofícios foram dirigidos ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles; ao presidente do Ibama, Eduardo Bim; e ao presidente do ICMBio, Homero Cerqueira. O prazo para resposta é de 10 dias úteis, no caso do MMA, e cinco dias úteis, no caso do Ibama e ICMBio.

O Brasil sofre um número recorde de incêndios. Entre janeiro e a segunda-feira passada, seu número cresceu quase 84% em relação ao mesmo período de 2018, o ritmo mais alto desde que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) começou a monitorar o desmatamento através de imagens de satélite, em 2013.

A Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do Ministério Público Federal (4CCR/MPF) enviou nesta quinta-feira (22) ao Ministério do Meio Ambiente (MMA), ao Ibama e ao ICMBio ofício requisitando informações sobre as ações concretas realizadas pelos órgãos para a prevenção de desmatamentos e incêndios na Amazônia Legal. A 4CCR pede o demonstrativo do planejamento das ações de fiscalização para 2019, com o seu percentual de execução. Os ofícios foram dirigidos ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles; ao presidente do Ibama, Eduardo Bim; e ao presidente do ICMBio, Homero Cerqueira. O prazo para resposta é de 10 dias úteis, no caso do MMA, e cinco dias úteis, no caso do Ibama e ICMBio.

Além dos protestos nas redes sociais, os brasileiros começaram a organizar manifestações nesta sexta e neste fim semana em pelo menos oito cidades. A principal, com o lema "Todos pela Amazônia”, está prevista na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. As comunidades brasileiras em Sydney (Austrália) e Barcelona também convocaram protestos.


EL PAÍS Brasil

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