Neste livro, Guerras Híbridas: das Revoluções Coloridas aos Golpes, o analista político russo Andrew Korybko desvenda um novo conceito para explicar as atuais táticas dos EUA para a desestabilização e a derrubada de governos. A guerra híbrida é a combinação de revoluções coloridas e guerras não convencionais como forma de alinhar Estados e sociedades aos interesses da política de segurança e defesa norte-americanas. Partindo do estudo de caso da Síria e da Ucrânia, o autor demonstra um modus operandi que também pode ser facilmente identificado em outros conflitos travados, por exemplo, no Oriente Médio e na América Latina. Nesse sentido, a guerra híbrida é o novo modelo de intervenção político-militar do século XXI.

A guerra híbrida é o emprego do poder através de um conjunto de intervenções de toda ordem preparada sobre um Estado nacional, para exercer um fim fundamentalmente político. Ou qualquer tipo de agressão organizada que procura causar dano a um Estado nacional, buscando desestruturá-lo, transformando-o em um Estado falido, com o fim de apropriar-se de seu território, e/ou de seu imaginário coletivo, e/ou de seus recursos.


Créditos: David Manyva/ONU
Bombardeio em Homs, Síria, em junho de 2012

Pode-se considerar que a guerra híbrida é um conflito no qual todos os agressores exploram todos os modos de guerra, simultaneamente, empregando armas convencionais avançadas, táticas irregulares, tecnologias agressivas, terrorismo e criminalidade, visando desestabilizar a ordem vigente em um Estado nacional.

Para Korybko, a primeira ação da guerra hibrida se processa por um movimento que denomina de revolução colorida. Este movimento se caracteriza por manifestações que se utilizam de resistências não violentas ao governo de um Estado Nacional, pelo menos no que dizem seus militantes. Apresenta-se através de um discurso democratizante, liberalizante, quase anárquico e é apoiada por ONGs, entes do mercado, agências de inteligência externas e mídia.

Essas revoluções apareceram no final do século passado no Leste Europeu, nos países que faziam parte do bloco soviético, e a partir da virada do milênio, aconteceram também nesses espaços já com democracias recentes, buscando a derrubada de governos pró-Rússia e a ascensão de grupos ou partidos políticos pró-EUA. Tais revoluções foram patrocinadas diretamente pelos Estados Unidos, ou contaram com a existência de movimentos de oposição locais ou nacionais.

Acontece que muitas vezes a guerra hibrida encontra o Estado nacional praticamente hibernado em um período de comodidade ou acomodação. Cônscio ou irrefletidamente sabe-se o que precisa ser feito e alterado, mas falta força de vontade ou capacidade de gestão. Então, surge a figura do caos, da desestabilização e a desagregação da máquina do Estado, e como o caos leva à imprevisibilidade, muitas vezes não conseguimos perceber precisamente o que ele nos traz, fazendo com que a dúvida e a insegurança dominem todas as ações e a capacidade de reagir, o que envolve instrumentos de guerra econômico-empresarial e de guerra psicológico-midiática.

O que se busca numa guerra hibrida é a criação do caos no território inimigo. Segundo a teoria do caos: fatores insignificantes, distantes, podem, eventualmente, produzir resultados catastróficos imprevisíveis e absolutamente desconhecidos no futuro. Tais eventos levariam o adversário a se defrontar com desdobramentos imprevisíveis e a perdas dos monopólios de gestão intrínsecos a um Estado nacional.

Da leitura do livro se depreende que a guerra híbrida, para a conquista do poder, pode ser interpretada como a militarização da teoria do caos.

Guerras Híbridas: das Revoluções Coloridas aos Golpes.

Andrew Korybko

São Paulo, Expressão Popular, 2018


Fundação Perseu Abramo

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