Jair Bolsonaro. (foto: Evaristo Sa/AFP)

As últimas medidas de Jair Bolsonaro de ingerência, enfraquecimento e até de desmonte das estruturas de combate à corrupção, apontam para o esvaziamento da Lava Jato. Ao contrário do que achavam seus fiéis seguidores, as decisões do “mito” agora são todas voltadas para abortar a luta contra a corrupção.

Ao se intrometer nas nomeações da Receita Federal, da Polícia Federal, desmontar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e, por fim, preparar o bote final na Procuradoria Geral da República (PGR), Bolsonaro está preparando o enterro da Lava Jato.

Nem a figura de Sérgio Moro, usada como avalista da demagogia e biombo de seu desgoverno, serve mais aos seus planos. Nos últimos dias Bolsonaro desmoralizou o ex-juiz das formas as mais variadas.

Depois de tomar dele o Coaf e passar para Guedes, demitiu Roberto Leonel, homem de confiança de Moro. Logo em seguida, praticamente enterrou o Coaf, trocando seu nome e colocando-o no terceiro escalão do Banco Central.

Não satisfeito, afirmou publicamente na quarta-feira (21) que quem indica nomes para a Polícia Federal é ele, e não Sérgio Moro.

Diante do silêncio constrangedor do ex-juiz, ele prosseguiu. “Agora há uma onda terrível sobre superintendência. Onze foram trocados e ninguém falou nada. Sugiro o cara de um Estado para ir para lá, “está interferindo”. Espera aí. Se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral. Aí é… Não se discute isso aí”, disse Bolsonaro, no Palácio da Alvorada.

Delegados de todo o país repudiaram as intenções e as palavras de Bolsonaro de que vai se intrometer na PF. Edvandir Felix de Paiva, presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), afirmou que “o presidente da República deve se limitar à escolha do diretor-geral da PF”.

“Nós entendemos que a Presidência da República é a autoridade máxima e é óbvio que ele tem um poder de comando muito grande, mas em relação a órgãos de Estado, há uma proteção que ele mesmo, como estadista, deve garantir, inclusive com o apoio da legislação, para que a Polícia Federal fique blindada de qualquer interferência externa”, afirmou.

O episódio da substituição do superintendente da Polícia Federal do Rio de Janeiro, por exigência do Planalto, e com o pretexto de uma suposta falta de produtividade do titular, abriu os olhos da corporação.

A PF do Rio conduz investigações que atingem diretamente Flávio Bolsonaro, como é o caso da Operação Furna da Onça, que desbaratou um esquema de propina na Assembleia Legislativa do Rio e que levou dez parlamentares à prisão.

A operação acabou descobrindo que o gabinete de Flávio era uma tremenda lavanderia de dinheiro público.

Por isso, pela primeira vez um presidente da República atropela a direção da PF e afasta um superintendente. E o nome preferido dele para o cargo era o de Alexandre Saraiva, do Amazonas. Por coincidência, um “amigo” sabe de quem? De Flávio Bolsonaro. A direção-geral da PF obviamente não aceitou a indicação.

Os superintendentes bateram o pé e ameaçaram com uma saída coletiva dos cargos, caso Bolsonaro insistisse em sua indicação. A pressão barrou a troca pretendida.

O fato revelou que o controle da PF do Rio por alguém ligado a Flávio Bolsonaro estava nos planos da “famíglia”. Fazia parte da operação abafa, iniciada com a decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), de paralisar as investigações.

Outra ação para suspender investigações foi a pressão exercida por Brasília sobre a Receita Federal. Primeiro a intromissão para trocar os cargos mais altos, que acabou derrubando o número dois do órgão, o subsecretário-geral, João Paulo Ramos Fachada.

Logo depois veio a estranha pressão, feita também pelo Planalto, para substituir o delegado da alfândega do Porto de Itaguaí, José Alex Nóbrega de Oliveira. A troca seria por um funcionário, também do Amazonas, sem nenhuma experiência de alfândega.

José Alex confidenciou a amigos que a troca poderia beneficiar as milícias que são muito fortes na região e pressionam permanentemente o porto. Ele alertou que é por Itaguaí que entram armas ilegais para o Rio de Janeiro. A denúncia de Alex chamou a atenção da opinião pública.

São notórias as ligações da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro. O miliciano foragido Adriano Nóbrega, integrante do “Escritório do Crime”, estrutura ligada ao extermínio de aluguel das milícias, empregou sua mãe e sua mulher no gabinete de Flávio e foi homenageado por ele com a Medalha Tiradentes, maior comenda do estado.

O vizinho de Bolsonaro no condomínio da Barra da Tijuca, Ronnie Lessa, preso pelo assassinato de Marielle Franco, possuía 117 fuzis novos e desmontados escondido em casa.

A presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), Raquel Kobashi Gallinati, também alertou para os movimentos de Bolsonaro que, para ela, “visam atropelar a PF e esvaziar a luta contra a corrupção”.

“O presidente Jair Bolsonaro vem tentando intimidar instituições como a Receita e a Polícia Federal, que deveriam estar livres de ingerências políticas, interferindo em seus comandos e quebrando todas as promessas de endurecer o combate à corrupção”, afirmou ela.

“É de se estranhar que um governo eleito com a bandeira do combate à corrupção adote medidas que visam enfraquecer instituições que desempenham um papel de excelência”, completou a delegada.


S.C.


Hora do Povo

Faça um comentário

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem