Boris Miranda (@ivanbor)
Da BBC News Mundo na Colômbia


Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionNo início de agosto, o presidente colombiano, Iván Duque (esq.), visitou a China e assinou uma série de acordos comercais

O embarque de mais de 600 toneladas de abacate despachados de um porto colombiano com destino a terras asiáticas será, ainda neste ano, o ponto de partida da nova aliança entre Colômbia e China.


Esse é um dos primeiros entre os vários acordos bilaterais firmados pelos governos dos dois países que começam a sair do papel depois da visita do presidente Iván Duque a Pequim, no início de agosto.

Duque se reuniu com o presidente chinês, Xi Jinping, e com o premiê do país, Li Keqiang (na foto acima).

Os encontros resultaram em acordos que vão desde projetos de energia, construção de rodovias, bolsas de estudo para colombianos, importação e exportação de frutas e verduras, além da possibilidade de repatriar cidadãos colombianos detidos na China por delitos como tráfico de "substâncias controladas".
"É um passo histórico", definiu Duque, ao fazer um balanço de sua visita à China.

Essa não é a primeira vez que China e Colômbia firmam acordos e o país sul-americano não é o único parceiro do gigante asiático na região. Mas, segundo especialistas, o tamanho e o potencial dos novos acordos representam "uma nova era" da relação entre os dois países.

Diferentes analistas destacam que se trata de um movimento audacioso de Pequim. Isso porque a Colômbia, historicamente, mantém uma relação muito próxima com os Estados Unidos e, desde o ano passado, os governos americano e chinês travam uma dura guerra comercial.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionChina vai começar a comprar abacate colombiano ainda este ano

China na Colômbia


Entre 2002 e 2019, a China investiu um total de US$ 240 milhões na Colômbia. A nova aliança envolve cifras muito maiores. Segundo o governo colombiano, apenas os projetos de energia já confirmados giram em torno de US$ 1 bilhão.

Pequim também confirmou que vai financiar US$ 400 milhões uma estrada considerada estratégica por unir Medelin às regiões agrícolas de Antioquia, que fica no noroeste da Colômbia.

E não é apenas abacate que a China vai importar. A partir de 2020, serão enviadas pelo menos 4 milhões de caixas de banana colombiana, além de outros produtos que ainda estão em negociação.

Iván Duque chama o momento de "relançamento" da relação bilateral com a China, que este ano completa 40 anos.

Direito de imagemGETTY IMAGESImage captionA visita de Duque à China foi classificada de 'histórica' pelo governo colombiano

Para David Castrillón, especialista em relações entre Colômbia e China, esta "nova era" está concentrada na parte comercial e ainda não foi estendida a outras esferas, como, por exemplo, o intercâmbio cultural.

"Um aprofundamento econômico foi acertado entre os dois países, embora tenha um alcance limitado. Isso não significa que não seja importante, porque o fato de Iván Duque ter ido à China em seu primeiro ano de mandato (concluído em 7 de agosto) mostra que a China é uma de suas prioridades ", explica o especialista à BBC News Mundo.

Castrillón, que estuda a geopolítica do leste asiático, assinala que "além dos acordos, teremos de aguardar os próximos passos".

"Ainda está tudo muito no ar, mas é um relacionamento com muito potencial e que pode crescer em áreas como turismo e intercâmbio cultural", afirma o pesquisador.

O melhor amigo


Mais de uma vez, os EUA já chamaram a Colômbia de "melhor amigo" na América Latina.

Pesquisadores observam que, desde o início do século passado, a diplomacia colombiana optou por ser próxima à política americana.

Direito de imagemCORTESÍA UNIBÁNImage captionCom a nova parceria, a Colômbia será a segunda maior provedora de bananas para a China

É por isso que este "relançamento" das relações com a China, com investimentos multimilionários e anúncios exultantes por parte do governo colombiano, chamou a atenção de muita gente.

"Esse governo, como os anteriores, demonstrou sua relação preferencial com os EUA, ainda que muitos vizinhos estejam próximos da China há muito tempo. Acredito que a política externa com Washington muda com esses novos acordos e que a base do relacionamento com a China é eminentemente comercial", diz David Castrillón.

Castrillón diz ainda que, por enquanto, tanto Pequim quanto Bogotá sabem quais são os limites dos acordos.

"Acredito que os chineses não esperam que o relacionamento alcance outras dimensões. Eles enxergam os colombianos como sócios comerciais e vice-versa. Não acredito que, no momento, estejam cogitando fazer algo novo", indicou o analista.

Não é apenas o governo de Duque que comemorou os acordos com Pequim. O Unibán, um consórcio privado que reúne produtores de bananas na Colômbia, celebrou o novo mercado que acaba de abrir para o produto.

Quatro milhões de caixas de bananas que a Colômbia vai começar a mandar para a China tornarão o país o segundo maior provedor do gigante asiático, atrás apenas do Equador.

"A China é o primeiro consumidor e produtor de bananas. Além disso, há um consumo maior de bananas de qualidade e esta é a fruta que eles estão importando", afirma o presidente da Unibán, Juan Luis Cardona.

Ele diz ainda que existe "muito potencial para continuar aumentando as exportações à China" e expandir o mercado para vários produtos agrícolas colombianos.

Outro acordo firmado é o tratado de repatriação de prisioneiros do país sul-americano que estão em território chinês.

Em 22 de agosto, a comunidade de parentes dos colombianos detidos na China agradeceu a possibilidade de que seja negociado o retorno dos prisioneiros ao seu país, embora o tratado deva primeiro ser aprovado pelo Congresso em Bogotá.

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