Direito de imagemAFPImage captionPai da Bossa Nova, João Gilberto morreu aos 88 anos


Luis Barrucho
Da BBC News Brasil em Londres

Como repórteres da BBC News Brasil em Londres, eu e meus colegas somos procurados com frequência por jornalistas de outros departamentos para esclarecer dúvidas sobre o nosso país. Tais questionamentos cobrem aspectos dos mais variados: desde política à economia, passando por cultura e sociedade.


Mas nesta semana não soube responder de imediato a uma dessas perguntas.

Havia sido convidado para participar de um programa de rádio em inglês sobre a morte de João Gilberto, o criador da Bossa Nova. Gilberto, que morreu aos 88 anos no último sábado de causas não reveladas, era um dos músicos brasileiros mais conhecidos no mundo - ajudando a estabelecer esse gênero musical como um dos maiores instrumentos de soft power do nosso país, de acordo com especialistas na área. Também foi o primeiro brasileiro a vencer o Álbum do Ano no Grammy, a principal categoria do Oscar da música, em 1964.

"Por que o presidente Jair Bolsonaro não homenageou João Gilberto?", me perguntou, em inglês, o apresentador. "Não está claro", respondi.

Bolsonaro, como foi noticiado pela imprensa brasileira, limitou-se a dizer sobre a morte do cantor: "(Era) Uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?"

Também não decretou luto oficial. A decisão foi comunicada pelo porta-voz do Palácio do Planalto, Otávio Rêgo Barros, em pronunciamento à imprensa. Rêgo Barros disse que Bolsonaro reconhecia a importância de João Gilberto para a música brasileira. "Ele tornou a bossa nova um estilo de música conhecido internacionalmente. O presidente se solidariza com a família e os amigos nesse momento de dor", afirmou.

Coube ao Senado a missão de decretar três dias de luto oficial no Congresso Nacional pela morte de João Gilberto, a partir de um requerimento do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), aprovado de forma simbólica no plenário por unanimidade.

Mas a declaração de Bolsonaro não surpreendeu o apresentador com quem conversei - bem como outros colegas estrangeiros que me procuraram - apenas por ser "econômica".

Diferentemente de outros artistas brasileiros, eles sabiam que João Gilberto não se posicionava politicamente. Sabiam também que ele fugia dos holofotes sempre que podia. Aliás, seu estilo de vida recluso era alvo de curiosidade e rendia muitas histórias entre seus amigos mais próximos.

Por outro lado, Bolsonaro não se furtou a homenagear um artista brasileiro que morreu no mês passado, Tales Volpi, o MC Reaça. "Tinha o sonho de mudar o país e apostou em meu nome por meio de seu grande talento. Será lembrado pelo dom, pela humildade e por seu amor pelo Brasil", escreveu o presidente no Twitter, fazendo referência à música Proibidão Bolsonaro.

Sendo assim, em tese, nada explicaria a falta de homenagem do presidente ao consagrado João Gilberto.

Decidi, então, ir atrás dessa resposta.

'Não esteve à altura'


Procurei o musicólogo Ricardo Cravo Albim, um dos maiores pesquisadores da Música Popular Brasileira (MPB). Ele disse à BBC News Brasil: "O comentário de Bolsonaro foi seco e não esteve à altura da importância de João Gilberto".

Direito de imagemREUTERSImage captionPresidente limitou-se a dizer sobre morte do cantor: "(Era) Uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá ok?"

"Na verdade, achei inadmissível que as esferas municipal, estadual e federal não tenham prestado a devida homenagem a este cantor que foi um dos maiores expoentes de nossa cultura. Não houve uma rua, avenida ou escola batizada em seu nome", acrescentou.

O cantor e compositor Caetano Veloso foi além. Questionado pela BBC News Brasil, ele disse se tratar de "ignorância" de Bolsonaro.

"Fiquei chocado com o tom de desprezo. Mas não surpreso com a ignorância. A morte de João Gilberto, o inventor da bossa nova - o maior lance de soft-power brasileiro - levaria, num quadro político normal, à decretação de luto oficial por parte da Presidência da República. Mas parece que ninguém próximo ao presidente sabia nada sobre a importância de João Gilberto. E assim tivemos de ler aquele 'Tá ok?'", afirmou.

No afã de elucidar a questão, busquei conversar também com pessoas próximas ao presidente, como a deputada federal Joyce Hasselmann (PSL-SP). Ela não retornou às minhas ligações.

Procurada pela BBC News Brasil para comentar o assunto, a Secretaria de Comunicação da Presidência foi mais econômica do que o próprio presidente.

"Prezado Jornalista, o Planalto não comentará."

E a pergunta sobre por que Bolsonaro não homenageou João Gilberto ainda segue sem resposta.




BBC News Brasil

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