Carlos A. Lungarzo

CITAÇÃO de Matheus, 5:9

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus

CITAÇÃO de Albert Einstein

A pior excrescência da vida de manada é o sistema militar, que eu aborreço. Que um homem possa ter prazer em marchar em formação ao ritmo de uma banda é abominável. Ele só recebeu seu grande cérebro por engano; ele só precisava de uma medula espinhal. Esta praga da civilização deve ser abolida com toda a velocidade possível. Heroísmo no comando, violência sem sentido, e todo o repugnante chauvinismo são odiosos.

Albert Einstein:The World as I see It (no original, Mein Weltbild)

https://fs.blog/2014/05/einstein-the-world-as-i-see-it

Em 29 de outubro de 2018, o gentil professor Fernando Haddad publicou um Tweeter em que se referia à vitória (fraudada, porém, vitória do ponto de vista “legal”) do capitão reformado Bolsonaro. Com seu usual estilo bondoso, Haddad deixou claro para o adversário suas boas intenções: “desejo-lhe sucesso”, talvez uma frase impensada, quiçá uma tendência cristã dentro do PT, aquela dos que acham que, no final, todos vão agir com bondade. Ele talvez não percebeu que o sucesso de Bolsonaro será a destruição de 180 milhões de habitantes, incluindo aí quase a metade dos que votaram no próprio Mito, pois nem todo eleitor do miliciano chefe é um neonazista devoto. Uma metade ou mais votou por ignorância, medo, desespero, ressentimento ou, simplesmente, insanidade.

Na quinta-feira houve uma situação algo menos perigosa, mas igualmente preocupante, quando Marcelo Freixo, um corajoso e coerente ativista de direitos humanos pelo qual todos deveríamos ter grande admiração, teve medo de cometer una “leviandade” quando foi colocada no Congresso a proposta de uma interpelação ao general Heleno, o chefe do GSI. Ninguém estava propondo julgar Heleno, caso isso fosse possível num sistema jurídico onde a proporção de corruptos e/ou conservadores ultramontanos é de 10/11. O único que se queria era uma investigação que devia incluir uma conversa oficial com Heleno.

O assunto talvez não teria produzido qualquer resultado, mas nenhum ponto escuro na política deste governo pode deixar de ser explorado. O GSI cuida da “segurança”. É óbvio que toda aeronave usada por um alto funcionário deve ser monitorada detalhadamente para evitar a colocação de explosivos. Se isso não é tarefa do GSI, qual seria então?

Mas, o desinteresse por interpelar Heleno talvez esteja justificado por outro motivo: em seu histórico há coisas bem mais terríveis que ter deixado passar (seja ou não de maneira involuntária) algumas míseras toneladas de cocaína. Isto é algo que sabem muito bem os haitianos. Pena que a voz desse sofrido e agredido povo não seja ouvida em lugar nenhum…

As Missões de Paz

As missões de Paz teriam sido muito úteis se sua aplicação tivesse sido moldada na teoria humanitária e pacifista que criou o primeiro grupo dirigente da ONU. Mas isto era e continua sendo, cada vez mais, pura teoria.

Já começaram mal quando o segundo secretário geral, Dag Hammarskjöld, foi assassinado por uma conspiração em que estiveram envolvidos todos os imperialismos da época. A ONU não é o Brasil: ela continua investigando 56 anos depois. Também um DC-6B, mesmo daquela época, não pode ser comparado a um jatinho de fazendeiro como o que se “acidentou” com o juiz Teori em seu interior. Desde o começo, os velhos e mais novos imperialismos não queriam que a ONU fosse uma real defensora de Paz e a felicidade dos povos.

E tiveram sucesso, por desgraça!

São poucas as missões da paz que tem dado certo. Por sinal, as quatro pequenas missões anteriores feitas em Haiti antes de Minustah cumpriram um objetivo modesto, porém razoável e sem muito conflito: treinar forças policiais para manter a ordem.

Mas, a MINUSTAH deu um perigoso passo além. O objetivo não era separar forças antagónicas pacificamente, nem “frear os bandidos” (como eles chamaram os habitantes marginalizados da enorme favela “Cidade du Soleil”). O objetivo era o mesmo praticado pouco antes em diversos países da América Central e do Caribe, mas que agora precisava apoio de outros países: evitar a volta ao governo do único presidente democrático que Haiti já teve.

Em 2004, a ONU formou uma missão de paz no Haiti, conhecida pela sigla: MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para Estabilização de Haiti).

O Haiti, uma colônia francesa onde a população tinha 90% de escravos africanos, foi o primeiro país a fazer uma revolução nas Américas (que culminou com a independência em 1804) e a única que realmente deu o poder ao povo. O país amargou anos de ditadura e governos autoritários, e acabou sendo ocupado pelos EUA de 1915 a 1934. Desde a saída dos americanos, houve vários governos populares sabotados pela Casa Branca e seus lacaios centro-americanos e dominicanos. Seus líderes foram assassinados após poucas semanas de governo. Finalmente, os americanos encontraram o bom serviçal em 1957: “Doc” Duvalier, chefe da sangrenta dinastia que acabou em 1986.

As forças políticas estavam divididas entre diversos grupos financiados por fontes diferentes dos EUA, algo similar ao que aconteceu em Cuba antes da Revolução, quando partidos, lobbies e máfias se dividiam entre o apoio a diversas correntes dentro da ditadura de Fulgencio Batista. Foi essa divisão dos imperialistas o que deu a vitória ao movimento 26 de julho, pois, a despeito de seu grande apoio popular, este movimento não poderia ter triunfado se o Pentágono tivesse agido como fez uma década depois na Dominicana, com uso simultâneo de blindados, aviação e artilharia.

Nos anos seguintes a 1986, houve em Haiti uma rápida sequência de ditaduras militares que acabou em 1990, quando o sacerdote salesiano Jean-Bertrand Aristide foi eleito como primeiro presidente democrático por 68% dos votos.

O novo presidente foi derrubado em 1991 por um golpe, cujos autores se mantiveram no poder até 1994, quando os EUA deixaram de apoiá-los por causa da dificuldade para controlá-los. Com base na RES/CONS/SEG 940, os golpistas foram derrubados. Em novas eleições em 1996 e 2001, Aristide ganhou novamente.

Finalmente, tropas dominicanas financiadas pelos EUA e a França o derrubaram de maneira definitiva em 2004, e deveu refugiar-se na África, aonde foi levado de maneira compulsória. Os EUA e a França queriam garantir que a “ousadia” democrática naquele povo de ex-escravos não se repetiria e pediram a formação de uma dita “força” de paz.

Esta seria a 5ª missão no pequeno terço da ilha de Santo Domingo, que foi precedida pela UNMIH (1993 a 1996), a UNSMIH (1996 a 1997), a UNTMIH (1997), e a MIPONUH (1997-2000). Apesar dos sucessivos golpes contra e restaurações de Aristide, estas primeiras quatro foram missões bastante tranquilas. Seu formato foi o natural das missões de paz menos conflitivas da ONU.

https://thereaderwiki.com/en/List_of_United_Nations_peacekeeping_missions

Força da Paz ou de Ocupação?

Brasil esteve no comando geral de Nova Missão (a partir de 2004) durante 13 anos e dois meses, salvo num brevíssimo ínterim de janeiro de 2006 e outro em setembro de 2015, cobertos pelo Chile. O general Heleno foi o primeiro comandante, e responsável por contingentes de outros 15 países, dos quais sete foram da América Latina.

Nem todas as atrocidades foram cometidas sob o comando de Heleno, e também nem todos os estragos foram realizados por tropas brasileiras: apenas as principais. Todavia, Brasil era o centro do comendo geral da operação e ninguém pode dizer que menos de 7000 soldados são absolutamente incontroláveis por sua linha de comando, em especial, em casos como massacres, torturas massivas, estupro, chantagem e fuzilamentos massivos.

Com muita visão do futuro, houve vários casos em que a forças brasileiras usaram seu típico estilo Rio de janeiro (na época ainda não se falava dos 80 tiros para matar um músico). Um caso que ficou marcado na mente dos haitianos foi o massacre da Cidade do Sol, uma enorme favela de Porto Príncipe.

O destaque dado a Heleno foi motivado pelo fato de ser o primeiro e, ao que parece, o mais influente dos comandantes gerais, e porque os métodos aplicados pelas tropas brasileiras fizeram empalidecer os abusos praticados por outros grupos que, de qualquer maneira, estavam sob o comando geral do Brasil.

Tanto Carlos Alberto dos Santos Cruz (janeiro de 2007 até abril de 2009), como Floriano Peixoto Vieira Neto (de abril de 2009 até abril de 2010), ministros de Bolsonaro (até que um deles caiu em desgraça no que parece ser uma partição de território), ocuparam em conjunto três anos e dois meses no comando. O caso deles tem outras nuances. Quando seu período acabou já estava a vista um drama que havia mais de 200 anos que o Haiti não sofria: A EPIDEMIA DE CÓLERA.

A Minustah foi acusada de não ter previsto a epidemia de cólera, já que era bem sabido que após a independência de 1804, não havia tropas brancas de controle colonial nem traficantes de escravos (isso foi abolido no Haiti logo após a revolução).

Veja este artigo. Não está escrito por políticos, mas por especialistas médicos.

https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/17/11/11-0958_article

Não ficou dúvida que os portadores do cólera eram membros dos contingentes asiáticos e que o comando geral da ONU (ou seja, o Brasil), tinha a obrigação e a possibilidade de isolar os portadores. Veja este artigo de Le Monde Diplomatique:

https://diplomatique.org.br/onu-introduz-epidemia-de-colera-no-haiti/

Heleno, e os outros ministros “haitianos” de Bolsonaro talvez suspeitavam que estariam contribuindo ao grande ideal de seu futuro chefe (cuja futuro vitória todos eles deviam saber): varrer do planeta os afrodescendentes.

Mas, tudo indica que não terão sucesso!!!

Além disso, fica uma dúvida para o leitor mas investigativo.

  • Por que, tendo sido calculado que cerca de 40.000 civis haitianos morreram em diversos “acidentes”, só faleceram 38 militares da Minustah?
O mal-estar se sentiu desde o começo. Entre mais de 300 documentos, que são apenas uma pequena parte de algo que imagino bem maior (declarações, resoluções, notícias, etc. tanto em francês como em espanhol), não se registra nenhum elogio à Minustah por parte do povo haitiano. São grosseiras mentiras de Itamaraty dizer que o povo haitiano ficou grato… Afinal, quem vai comprovar? Nenhum de nós fala creole.

Há sim, algumas declarações dos EUA, algumas poucas manifestações puramente rituais da própria ONU, e, obviamente, congratulações e parabéns entre os membros da Casa Imperial de Brasília. Mas, isso talvez não seja decisivo.

  • Como disse um ditado espanhol “nunca temas que tu abuela diga críticas sobre tí”. La insatisfação pública foi desde o começo, após o primeiro massacre, em 2005. Por sinal (embora não tenha tempo agora para falar sobre isso), ninguém engoliu a história do “suicídio” do General Urano. Alguns dizem que ele se suicidou por controle remoto, sendo que a arma estava longe do cadáver.
Em 2013, o Senado Haitiano fez uma resolução pedindo a saída da Minustah. O estado de espírito da população se reflete muito bem na digna declaração do senador haitiano que a trouxe pessoalmente ao Brasil, Jean Charles Moise, traduzida literalmente:

“Quando um país mantém tropas em outro, sem que este o queira, estamos diante de uma ocupação. Não existe outra maneira de se chamar isso”… “O que posso dizer aos brasileiros é que suas tropas não podem nos ajudar lá. Queremos a ajuda dos brasileiros, por isso pedimos que o Brasil substitua seus tanques de guerra por tratores agrícolas

Sangue na Cidade do Sol

Este estudo de Brasil de Fato é o melhor que eu já li em qualquer língua sobre a tragédia de Haiti. Recomendo sua leitura e a análise de suas informações.

https://www.brasildefato.com.br/2017/09/01/estupros-colera-e-30-mil-mortos-conheca-o-legado-da-minustah-no-haiti/

Aqui, no entanto, me limitarei copiar o resumo final da excelente reportagem de Vanessa Martina Silva (1/0/2017)

Não esqueça de escutar o Áudio !!!

Esta é a transcrição literal do texto de BRASIL DO FATO.

Observe que as vítimas são conscientes de que o genocídio executado pelos brasileiros (além dos crimes indiretos de tipo biológico) foi um ensaio para os crimes que cometeriam (e continuam cometendo) as tropas brasileiras nas favelas do Rio de Janeiro.

“Numa outra ação muito criticada, soldados brasileiros entraram na favela de Cité Soleil, habitada por 200 mil pessoas, e cometeram o que os haitianos consideram ser um massacre. Pelo menos 27 civis morreram durante a ação, sendo que 20 eram mulheres com menos de 18 anos. Bastia [a narradora haitiana] conta que o episódio é considerado um ensaio para as ações comandadas pelo Exército brasileiro nas favelas do Rio de Janeiro: “Os soldados brasileiros mataram muitas pessoas nas favelas do Haiti. Entendemos, porque o Brasil tem favelas, então eles se preparam para lutar contra os pobres e, para isso, experimentaram essas novas estratégias nas favelas no Haiti”.

Essa relação entre a atuação do Exército brasileiro no Haiti e nas favelas do Rio de Janeiro foram comentadas, recentemente, pelo general Ajax Porto Pinheiro, em entrevista concedida à rádio CBN. Questionado pelo jornalista sobre a possibilidade de aplicar o conhecimento obtido pelos militares na missão da ONU, o general ressaltou que as tropas das Nações Unidas “têm um nível de liberdade que às vezes não se tem no Brasil”. Ele se refere, literalmente, à possibilidade de atirar para matar.”

  • Na Frente destes fatos, um esquema de tráfico de drogas que pode ser talvez muito maior que o imaginado, não têm uma importância tão grande. Afinal, por uma razão ou por outra, a ocupação da Minustah gerou mais de 40.000 mortos e 700.000 doentes.
  • Nem sequer temos a desculpa que se deu em Rwanda, onde o enorme genocídio foi resultado da ação de vários grupos rivais. No Haiti não havia grupos rivais: havia apenas um povo lutando contra um bando de criminosos sádicos, frios, aparelhados, movidos penas pela sede de sangue. Hoje, todos nós somos seu súbditos.
  • O leitor pode ter uma ideia comparativa lendo o livro do General Roméo Dallaire, ex-comandante da UNMIR em Rwanda que tentou suicídio duas vezes, ante a impossibilidade de carregar em sua consciência os crimes da ONU, dos quais ele era realmente inocente. Atualmente, está retirado do exército e é senador no Canada.


Diário Causa Operária

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