BANCADA DO JN ANUNCIA UM PAÍS QUE NÃO EXISTE

por Eliara Santana*, especial para o Viomundo

“Boa noite. O site The Intercept Brasil divulga o primeiro áudio das conversas entre os membros da força-tarefa da Lava Jato e o ex-juiz e atual ministro Sergio Moro. No áudio inédito, o procurador Deltan Dallagnol comemora proibição da entrevista de Lula”.

No dia 9 de julho, esta deveria ter sido a chamada principal do Jornal Nacional, dita com voz grave por William Bonner no comando da bancada do JN.

Afinal, o primeiro áudio das conversas da #VazaJato mostram que procuradores e o então juiz Sergio Moro adotaram procedimentos inadmissíveis no caso do ex-presidente Lula, preso em Curitiba há um ano e três meses.

No entanto, os milhares de brasileiros que assistiram à edição do JN no dia ficaram sabendo que “a temporada de queimadas obriga os agricultores a medidas alternativas”, “o apetite por verbas aumenta e acaba atrasando a votação da reforma da Previdência”, “o governo vai substituir o e-social por um mecanismo mais simples para os empregadores”, “o número de famílias endividadas cresce pelo sexto mês seguido”.

Ah, e ficaram sabendo também que o presidente americano Donald Trump não pode mais bloquear críticos nas redes sociais.

Mas não ficaram sabendo que o procurador Deltan Dallagnol comemorou a decisão do ministro Luís Fux (In Fux we trust) proibindo a entrevista do ex-presidente Lula a Mônica Bergamo, já autorizada pelo ministro Lewandowisk.

Nada de áudio. Nada de exaltação na voz. Nada de surpresa. Acontecimentos normais num país normal.

Simbolicamente e pelo discurso, o JN inaugura uma nova realidade para o país – como já havia feito quando ajudou a preparar o terreno para o impeachment de Dilma Roussef.

Àquela época, por meio de muitas estratégias, consolidou-se a ideia de que havia uma crise econômica sem precedentes (o Brasil tinha 4,8% de desempregados, uma taxa histórica positiva, havia saído do Mapa da Fome da ONU e o consumo batia recordes).

Hoje, o país vive um caos político, tem um presidente que governa pelo Twitter, sérias denúncias contra o ministro Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato, uma economia que caminha para a recessão (se é que já não está nela), mas, para a bancada do JN, tudo está normal.

Na edição de ontem (9/07), vemos as estratégias de reordenamento da realidade em prol de um projeto político – porque é disso que se trata.

Veja agora, no Jornal Nacional.

MATÉRIA 1: votação da Reforma

“A tentativa do governo de garantir apoio na Camara para aprovar a reforma da Previdência acabou retardando a votação, que estava prevista para hoje. A liberação de dinheiro para emendas de parlamentares nos últimos dias aumentou o apetite por verbas”.

Modalização perfeita na descrição dos eventos: está dado um campo democrático saudável, em que o governo é o sujeito que “tenta” garantir “apoio” – não é jamais aquele que precisa comprar votos dada a incapacidade de negociação com o Congresso e a chantagem dos parlamentes.

Não há qualquer menção a crise política ou às dificuldades enfrentadas na negociação. Trata-se de um evento normal.

Assim ocorre que “a liberação de dinheiro aumenta o apetite por verbas”.

Interessante eufemismo (apetite por verbas) para esconder que o governo foi pressionado, e os deputados ameaçaram não votar caso não recebessem o “combinado”.

Ou seja, eufemismo para esconder a vergonhosa compra de votos.

E a matéria, com 9 minutos, segue explicando o trâmite da “liberação de verbas”, mostrando como tudo está dentro da lei e do processo democrático.

Números são citados na referência às emendas parlamentares, mas nada é de fato explicado, muito menos contextualizado. E, na voz da locutora, o deputado Mauro Lopes comemora o fato de “o governo estar pagando promessas”.

Outro deputado, Sóceres Cavalcanti, aparece para dizer que a bancada evangélica vota na reforma por convicção, que não há troca-troca, e não por que o presidente Jair Bolsonaro flexibilizou o que podia em termos de arrecadação para as igrejas. Nenhuma voz em contrário para rebater.

E Bolsonaro aparece para dizer, segundo a locutora, que não está praticando a velha política, pois já havia previsão orçamentária.

“Tudo o que está liberado está no orçamento. Então, eu gostaria de liberar tudo o que está no orçamento… é uma situação normal… nada foi inventado. Não tem conversa escondidinha em lugar nenhum, é tudo à luz da legislação”, diz o presidente.

Novamente, nenhuma voz em contrário. E ele encerra fazendo a ligação com os tempos da “grande corrupção”: “A velha política é aquilo que vocês sabem que se dava no passado. Estamos no mesmo barco, nós, o legislativo”.

E a locutora diz que o presidente afirmou que sempre haverá tempo para corrigir possíveis injustiças no texto da reforma. Problema resolvido, não há o que temer.

A matéria segue, a líder do governo fala, e a locutora expõe mais algumas mudanças, sempre num tom positivo e sem qualquer contextualização ou voz dissonante, sequer qualquer menção a perdas de direitos. O quado da reforma no JN é de algo totalmente positivo.

Às 20h36, Bonner chama a repórter ao vivo da Câmara para ver o andamento da sessão.

Nada de novo, pois a votação não havia começado, a repórter informa que os parlamentares ouvidos estavam otimistas com a aprovação. Há uma fala de Rodrigo Maia, e segue a grade.

MATÉRIA 2: Pesquisa Datafolha

É necessário trazer uma voz de autoridade para dizer que “os brasileiros apoiam a reforma da Previdência”, e esse papel é cumprido pela pesquisa – de outro instituto, não do Ibope, que é ligado à Globo. E assim, a pesquisa “mostra que CRESCEU o apoio à reforma” – caiu o percentual dos que são contra e aumentou o percentual dos que são a favor (isso é mostrado em quadros).

Após a matéria principal e a segunda matéria, segue a grade:

MATÉRIA 3: E-social (dois minutos)

O tom da mudança é positivo – sairemos de um sistema complicado para “um mecanismo mais simples para os empresários”.

A matéria diz que o e-social reúne dados de trabalhadores e que é usado por empregadores domésticos e empresas, e que SEMPRE foi alvo de muitas críticas.

Ou seja, era ruim, será melhorado. Não há mais detalhes, e a matéria aborda ainda a carteira de trabalho digital e a flexibilização para a obtenção de alvará, sempre ressaltando essas medidas como positivas, pela voz do governo, sem qualquer questionamento ao significado dessa flexibilização.

MATÉRIA 4: Total de famílias endividadas (dois minutos)

É a única com um tom mais negativo, mas sem ampliar questionamentos sobre a economia ou sobre política econômica do governo.

É como se o endividamento das famílias fosse obra do “acaso”. Não há ligação com a total falta de política econômica do governo. E, vejam, há sempre algo positivo:

“Mas, pior do que ter dívida, é não conseguir pagar. Como a taxa de juros para pessoa física é a menor desde 2015, alguns brasileiros começam a respirar melhor. Segundo esta economista, o percentual de famílias com contas e dívidas em atraso apresentou em junho a primeira queda do ano”.

A modalização do dito opera com força para transmitir a ideia de que o cenário não é tão ruim.

Não faz sentido dizer que “pior do que ter dívida é não conseguir pagar”. Quem está endividado NÃO CONSEGUE PAGAR SUAS DÍVIDAS. Esse é o ponto ressignificado pela matéria.

E a economista tenta suavizar: “As famílias se endividaram mais, mas não comprometeram muito mais a sua renda com as dívidas, e conseguiram pagar suas dívidas sem ficar na inadimplência”.

Cabe perguntar: como?

Se o desemprego é monstro, a economia está em retração, as famílias se endividaram mais (o que é dito no começo da matéria), o que há de positivo nesse cenário?

O que pode ser tomado como sinal de recuperação?

A grade segue com mais espaço para o governo Bolsonaro (cujo ator principal aparece em vídeos muito bem editados, com cortes cirúrgicos na fala).

MATÉRIA 7/8: Grupo que analisa o pacote anticrime retira do projeto a prisão de condenados após segunda instância.

A primeira e importante observação é que o elemento que antes era referenciado como “pacote anticrime do ministro Sergio Moro” se transforma somente em pacote anticrime.

Ou seja, silenciamento para Moro. Nenhuma menção a ele.

A matéria mostra os debates e uma longa fala indignada do relator, dizendo que o pacote “é uma questão de segurança pública”, e que ele serve para atender os anseios da população de “combate às facções criminosas, combate ao crime hediondo, combate à corrupção”.

Um quadro mostra quem votou a favor e contra e a repórter informa que a decisão do grupo não é definitiva, e pode ser novamente incluída em alguma pauta.

Segundo ela, apesar de o ponto ser polêmico, a prisão após condenação em segunda instância continua válido, como já definido pelo Supremo. Portanto, conclui-se, não há brecha para questionamentos em relação a quem está preso.

Imediatamente na sequência, vem matéria sobre ação positiva da Lava Jato no combate à corrupção, pois é isso o que interessa.

Ou seja, a ideia é de que um trabalho importante está sendo feito, e os vazamentos não interessam diante disso.

A matéria traz a velha imagem do fundo vermelho e do cano por onde escorre dinheiro. O preso da vez é um doleiro, operador do “doleiro dos doleiros”, cujos filhos fizeram delação e se comprometeram a devolver parte do dinheiro.

Na inferência possível, a ação da Lava Jato compensa e garante a devolução de dinheiro aos cofres públicos.

A matéria recupera a estratégia da encenação, mostrando cenas da ação, a prisão, a força-tarefa agindo, todos os valores manipulados, os imóveis comprados, a lavagem de dinheiro, evasão de divisas etc. Matéria com três minutos.

No segundo bloco do jornal, matéria sobre o fim do Fundo Amazônia de combate ao desmatamento mostra um presidente ativo (Bolsonaro) que, segundo a repórter Délis Ortiz, fez uma “visita surpresa” ao ministro do meio ambiente e, juntos, garantiram que a extinção do Fundo está “cada dia mais distante”.

Bolsonaro aparece ao lado do ministro, e a repórter é quem “fala” por ele, informando as questões envolvidas em torno às críticas de alguns países.

Mas é ela também que traz as boas novas, pois informa que o ministro da cooperação econômica e do desenvolvimento da Alemanha esteve com o ministro do meio ambiente e “o alemão saiu da conversa e deu uma entrevista, em tom de otimismo e conciliação”. Além disso, “o ministro alemão disse que quer continuar a parceria com o Brasil”.

Ponto final, não há mais nenhum problema em relação ao meio ambiente e às críticas feitas ao desgovernado e absurdo desmatamento da Amazônica sob o governo Bolsonaro.

Na sequência, matéria informa que a “temporada” de queimadas começou mais cedo este ano.

O problema é sempre “natural”, sazonal, pois há “menos chuvas”.

Nenhuma ligação com aquecimento global e os problemas climáticos gerados pelo desmatamento, entre outros.

Além do mais, os próprios agricultores (agronegócio) já deram início aos “esquemas de prevenção”.

A matéria é tão grande quanto irrelevante – poderia ter ido ao ar ontem ou ir amanhã ou daqui a um mês.

Não é factual e nada traz do ponto de vista da novidade, principalmente num momento político de crise. A matéria tem 6 minutos.

Depois, claro, o boletim do tempo, que de tão demorado traz até um TÚNEL DO TEMPO com frios históricos no Brasil! Entra tudo no JN, menos os vazamentos da Lava Jato

Portanto, quem somente assistiu ao JN na noite passada tem a sensação de que não há problemas, apenas o friozinho já indo embora, as queimadas sazonais e, claro, a reforma da Previdência, que segue curso normal, e os paulistas aproveitando o feriado de 9 de julho.

Tudo emoldurado por um quadro de positividade – mesmo as coisas ruins têm um viés positivo também.

Nem tudo está ruim, não há caos político ou na economia. Não há problemas, há coisas acontecendo, fatos se sucedendo.

Nenhuma menção a Sergio Moro – que já está devidamente silenciado, no melhor estilo fingir que o problema não existe.

Para fechar, um balanço da votação da reforma e a informação de que o Senado aprovou três dias de luto pela morte de João Gilberto.

Boa noite pra você, e até amanhã.

*Eliara Santana é jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.



Viomundo

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