Jair Bolsonaro levou a primeira vaia na edição 2019 da Festa Literária de Paraty nesta quinta-feira (11), durante a mesa que debateu os 90 anos da arquitetura brasileira. Quando a imagem do presidente da República apareceu numa citação a Brasília, surgiram os primeiros gritos de #ForaBolsonaro e #LulaLivre.

No palco, a cantora e compositora Adriana Calcanhoto, o ensaísta, crítico, professor, compositor e arquiteto Guilherme Wisnik e o arquiteto português Nuno Grande passearam nas últimas décadas pelas linhas arquitetônicas do Brasil, mas focaram especialmente na construção de Brasília. O documentário “Brasília, contradições de uma cidade nova”, do cineasta Joaquim Pedro de Andrade foi exibido no telão.

O encontro do trio uniu arquitetura, urbanismo, música, cinema e literatura.

Adriana Calcanhoto intercalava canções entre as explicações de Wisnik e Grande. Os três trabalharam juntos na exposição “Infinito vão: 90 anos de arquitetura brasileira”, montada em Portugal. João Gilberto, Vinícius de Moraes e Gilberto Gil foram alguns dos compositores brasileiros lembrados na voz de Calcanhoto, que leu um texto crítico da escritora Clarice Lispector sobre Brasília. Nesse texto, Clarice não diz nem que gosta nem que não gosta da cidade:

– Essa dicotomia despertada por Brasília sempre foi assim, desde antes da fundação. Tem gente que gosta de Brasília e tem gente que não queria que ela existisse”, lembrou Guilherme Wisnik.

O arquiteto português reverenciou o colega brasileiro Oscar Niemeyer, o arquiteto que projetou a capital federal, entre outros marcos da área, e viveu até 104 anos:

– Lá em Portugal a gente diz que o Brasil tem pouco mais de 200 anos e mais de 100 é desse cara aí”, brincou em referência a Niemeyer.

Adriana Calcanhoto intercalou canções entre o passeio dos debatedores pela arquitetura brasileira (foto: Walter Craveiro)

As manifestações políticas surgiram quando os debatedores se debruçaram sobre uma Brasília mais recente. O momento em que Bolsonaro surgiu no telão, o público reagiu com vaias e gritos de “fora, Bolsonaro” e “Lula Livre”. Guilherme Wisnik também puxou um Lula Livre ao microfone amplificando o coro da plateia. Algumas poucas reações contrárias foram ouvidas.

“Brasília tem dias claros, mas também tem dias como esse”, disse Nuno Grande apontando para a imagem de Jair Bolsonaro na votação da abertura do processo de impeachment contra a então presidenta Dilma Rousseff

Um fato bastante lamentado pelo trio foi o muro de ferro instalado na Esplanada dos Ministérios durante o domingo em que o impeachment foi votado na Câmara dos Deputados:

“O muro construído no dia da votação do impeachment, um dos dias mais tristes da nossa história recente, é o símbolo do país dividido pelo ódio”, afirmou Wisnik.

Da plateia, uma mulher interpelou o arquiteto:

– Impeachment, não. Foi golpe !”

O público aplaudiu mais uma vez.


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