A impressão que fica, após a leitura das profusas mensagens de procuradores da Lava Jato e de diversas outras áreas do Ministério Público, revelada esta madrugada pelo The Intercept revela que os promotores tratavam a ida de Sérgio Moro para o Ministério da Justiça de Jair Bolsonaro como algo que representava uma “traição” – por motivos de ambição e vaidade – de seu chefe, que colocaria em perigo o sentimento de unanimidade ou apoio generalizado, o grande pilar da operação e arma dos apetites da categoria.

Se eu pudesse acrescentar uma fala que resumisse tudo o que se lê nas muitas conversas reveladas, esta seria: “ele não pode fazer isso com a gente”.

A rigor, fica o sentimento de todos eles de que a Lava Jato era uma construção frágil, cheia de truques e ilegalidades, que a atitude de Moro, ao aceitar o cargo que lhe ofereceram, acabaria por revelar a sua precariedade.

Só não assumiram esta posição, assim mesmo com panos quentes, os dois “oficiais de ligação” entre Moro e seu esquadrão de promotores: Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima.

Entre os demais, dentro e fora da Lava Jato, fica claro que a relação entre juiz e acusação não era de autonomia, mas de mando e de submissão. Monique Cheker, uma das promotoras mais desabrida nas falas, é taxativa.

Moro é inquisitivo, só manda para o MP quando quer corroborar suas ideias, decide sem pedido do MP (variasssss vezes) e respeitosamente o MPF do PR sempre tolerou isso pelos ótimos resultados alcançados pela lava jato.

The Intercept segue o caminho que traçou: o primeiro passo é estabelecer, acima de qualquer dúvida razoável, a veracidade dos diálogos que obteve, antes que eles revelem a prova escandalosa da interferência extra e antilegal do juiz.

Há, agora, quase duas dezenas de personagens envolvidos na troca de mensagens e mesmo com a epidemia de amnésia dos “não me lembro se disse isso”, é impossivel que isso não acabe encontrando fontes de confirmação, em meio ao que popularmente se chama de “barata voa” criado pela reportagem.

A atuação política do Ministério Público está escancaradamente estabelecida.

Contra isso, a única estratégia continua sendo colocar sob suspeita de edição o material revelado. Mas, com tantos que se envolvem, é impossível sustentar esta tese.

Moro vai perdendo a escolta.

É um laço, uma rede, lançada em torno do alvo central, que vai se fechar lentamente, como em toda investigação que se preze, confirmando hoje a veracidade do que se revelou ontem.



TIJOLAÇO

Faça um comentário

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem