São dois vídeos, perfazendo quase seis horas de depoimento, que deixo aqui no blog para registro histórico.




O que assistimos ontem foi uma aula magna de jornalismo, ética e liberdade.

As provocações de parlamentares da base governista, os poucos que tiveram a coragem de se manifestar, foram simplesmente pulverizadas.

Por uma dessas ironias da história, o depoimento de Glenn Greenwald, fundador do Intercept, acontecia ao mesmo tempo em que a segunda turma do Supremo Tribunal Federal (STF) julgava dois habeas corpus de Lula, o segundo tratando da suspeição do juiz Sergio Moro.

Mas era ali, na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, que a sociedade brasileira, como um todo, independente de sua preferência partidária, encontrava, enfim, justiça.

Diante de derrotas judiciais, os agentes políticos costumam apelar para o discurso sobre o julgamento da história. No Brasil do Lawfare, da guerra jurídica, pode-se dizer que é um recurso vulgarizado pelo uso excessivo, e que às vezes soa arrogante, como se aquele que o usasse tivesse qualquer controle sobre a história. Ou ainda, como se a história das nossas sociedades fosse um grande exemplo de justiça – não é.

Algumas raras vezes, no entanto, podemos falar de julgamento da história não mais como um recurso retórico, que apelasse a uma justiça futura, incerta e longínqua, e sim como uma presença vibrante e dramática, a empunhar a sua espada bem diante de nós.

Foi, de certa forma, uma boa fortuna da grande imprensa, do governo e de Sergio Moro em particular, que o julgamento de Lula se desse no mesmo dia, porque isso permitiu abafar o que aconteceu na Câmara dos Deputados. As manchetes de hoje não falam no depoimento de Glenn. Os colunistas da grande mídia apenas comentam o julgamento no STF.

E, no entanto, o julgamento no STF foi irrelevante, até porque a decisão mais importante, que tratava da suspeição do juiz Sergio Moro, foi adiada para depois do recesso de julho.

Naturalmente seria extraordinário, para Lula e para todos que lutam pela liberdade do ex-presidente, que ele fosse solto imediatamente, como queria Gilmar Mendes, mas para que esta liberdade seja mais sólida, para que as chances de que não seja uma liberdade frágil, e, sobretudo, para que ela venha acompanhada de uma derrota do principal inimigo de Lula, aquele que o julgou e o prendeu, o atual ministro Sergio Moro, é preciso que o STF leve adiante o julgamento de sua suspeição, o que pode se refletir, inclusive no processo de Atibaia, com que os adversários de Lula contam para mantê-lo preso mesmo se o do triplex for anulado.

(Segundo informações divulgadas nesta quarta, o segundo processo de Lula, o de Atibaia, deve ser julgado nos “próximos meses” pelo TRF4, mais ou menos na mesma época – fim de setembro – em que o ex-presidente terá direito à progressão do regime, para o semi-aberto, embora muitos juristas alegam que ele já teria, hoje, esse mesmo direito).

Para que o julgamento da suspeição de Moro, na segunda turma do STF (ou no plenário, como defende agora o Globo), seja mais denso, é necessário esperar a divulgação de novos materiais da Vaza Jato, e que estes sejam assimilados pela opinião pública.

Na audiência de ontem, Glenn Greenwald não resistiu a sinalizar o que vem pela frente. Em dado momento, ele falou que as novas reportagens irão mostrar uma subserviência tão absoluta de Deltan Dallagnol diante de Sergio Moro, de um procurador perante um juiz, que ele não tinha visto sequer entre um empregado e um patrão.

Em outro momento, logo no início, Glenn disse que sua primeira impressão, ao se deparar com os documentos, foi o sentimento de “choque”. Lembrou que, antes de se tornar o famoso e premiado jornalista, foi advogado constitucionalista nos Estados Unidos, e que conhece a legislação de muitos países; o que viu, explicou, seria um crime em todos os países democráticos que ele conhece, inclusive o Brasil, cuja Constituição ele afirmou já ter lido diversas vezes e que tinha diante de si, como uma Bíblia, enquanto falava aos deputados.


O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, não saiu ileso. Dessa vez podemos falar em julgamento da história, sem medo de estarmos usando vulgar artifício retórico dos derrotados.

Até porque o depoimento de Glenn teve momentos realmente dramáticos, em que o assunto não era mais a reportagem do Intercept, e sim outros ainda mais importantes, se é que isso é possível: o jornalista defendeu, por exemplo, com rara emoção, a liberdade de imprensa. Ah, quantas vezes não vimos, em toda parte, a liberdade de imprensa ser usada como bandeira por todo o tipo de oportunistas? A extrema-direita brasileira, liderada pelo presidente Jair Bolsonaro, não quase arrastou o Brasil para uma guerra com a Venezuela por causa da “liberdade”, que estaria sendo violada naquele país?

Pois bem, ontem, os partidários do senhor Jair Bolsonaro pediam a prisão de Glenn Greenwald, e davam mostras da mais profunda ignorância sobre o que significa, de fato, liberdade de imprensa.

Em todos os aspectos, a situação soava com a ironia magnífica de um clássico da Antiguidade.

Um americano homossexual, de inclinação abertamente progressista, casado com um deputado federal do PSOL, ou seja, a figura que poderíamos imaginar mais oposta, em tudo, ao que representa Jair Bolsonaro, estava ali, na tribuna da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, impondo a primeira grande derrota política do governo.

Glenn explicou que, apesar de ter nascido nos EUA, o seu lar é o Brasil. “O Brasil é meu único lar”, disse.

Não vou usar aspas porque a citação não é textual, mas Glenn falou mais ou menos o seguinte:

Eu me apaixonei primeiro pelo país, por sua cultura, por sua gente. Em seguida, me apaixonei pelo meu marido, com quem sou casado há 15 anos. Hoje temos dois filhos adotivos, que tiramos de um abrigo de Fortaleza. Montei aqui no Brasil uma empresa jornalística que emprega dezenas de brasileiros, quase todos muito jovens. Também montei aqui uma ONG para cuidar de animais abandonados e gerar empregos para pessoas que moram nas ruas, às quais ajudamos, através de assistentes sociais, a tirar seus documentos, abrir contas em banco, enfim, se tornarem cidadãos funcionais. Eu conheço a Constituição brasileira, confio nele. Tenho pretensão de viver aqui para sempre. E não tenho medo de ameaças. Se tivesse, poderia viajar aos EUA e divulgar os documentos de lá, em toda a segurança. Tenho passaporte americano e posso ir para lá quando eu quiser. Mas vou ficar aqui no Brasil.

Bem, o que podemos dizer quanto a isso é simplesmente: obrigado, Glenn! Você, com certeza, é um dos nossos. É um brasileiro, casado com um brasileiro, pai de dois filhos brasileiros, que trabalha numa empresa cheia de brasileiros, pelos quais se sente responsável, chefia uma ONG que trata de animais brasileiros abandonados e emprega brasileiros sem teto. É um brasileiro que conhece, ama e respeita a Constituição brasileira e os valores que estão nela!

Poucos brasileiros são tão brasileiros como você, Glenn!

Quanto a Sergio Moro, o que podemos dizer é: nada como um dia após o outro.




O Cafezinho

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