Por Slavoj Zizek | Tradução: Simone Paz Hernández


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Finalmente, aconteceu — Julian Assange foi retirado da embaixada do Equador e preso. Não foi surpresa: vários sinais já vinham apontando nessa direção.

Há cerca de uma ou duas semanas, o Wikileaks previu a prisão e o ministério equatoriano das Relações Exteriores contestou com o que hoje sabemos que eram mentiras. O recente re-encarceramento de Chelsea Manning (vastamente ignorado pela mídia) foi mais um elemento do jogo. Sua prisão, destinada a forçá-la a divulgar informação sobre ligações com a Wikileaks, faz parte da perseguição que espera por Assange quando (e se) os Estados Unidos o capturarem.

Também havia pistas na longa, calma e bem-orquestrada campanha de difamação, que atingiu seu pior e mais baixo nível alguns meses atrás, com boatos jamais comprovados de que os equatorianos estariam tentando se livrar dele, por causa de seu mau cheiro e de suas roupas sujas.


Na primeira fase dos ataques a Assange, seus ex-amigos e ex-colaboradores foram a público com afirmações de que a Wikileaks havia começado bem, mas que logo teria esbarrado nas desconfianças e obstinações de Assange (sua obsessão anti-Hillary, suas ligações suspeitas com a Rússia, etc). A isso se somaram novas difamações pessoais ainda mais diretas: ele seria paranoico e arrogante, obcecado pelo poder e pelo controle.

Assange, paranoico? Quando se vive de forma permanente num apartamento grampeado de cima a baixo, vítima de constante vigilância dos serviços secretos, quem não seria? Megalomaníaco? Quando o chefe (agora ex-chefe) da CIA diz que a sua prisão é a prioridade, isso não significaria que você é, no mínimo, uma “grande” ameaça para alguns?

Comportando-se como o chefe de uma organização espiã? Mas o Wikileaks é uma organização de espionagem, embora do tipo que serve às sociedades, mantendo-as informadas sobre o que acontece nos bastidores.


Vamos, portanto, à grande questão: por que agora? Creio que um nome explica tudo: Cambridge Analytica — um nome que significa tudo o que é Assange, tudo o que ele combate, e que expõe as ligações entre grandes corporações privadas e agências governamentais.

Lembremos como a obsessão de que a Rússia estivesse interferindo nas eleições dos Estados Unidos virou uma enorme questão. Hoje sabemos que não foram hackers russos (com Assange) que empurraram o povo para Trump. Em vez disso, eles foram impulsados por próprias agências ocidentais de processamento de dados, que se uniram a forças políticas.

Isto não quer dizer que a Rússia e seus aliados sejam inocentes: provavelmente, eles tentaram, sim, influenciar nos resultados — da mesma forma em que os Estados Unidos fazem com outros países (apenas neste caso, dá-se a isso o nome de “apoio à democracia”…). Mas quer dizer que o grande lobo mau que distorce nossa democracia está aqui, e não no Kremlin — e isso é o que Assange estava dizendo o tempo todo.

Porém, onde está, exatamente, este lobo mau? Para compreender todo o alcance de seu controle e manipulação, precisaríamos transitar além do elo entre corporações privadas e partidos políticos (como é o caso da Cambridge Analytica), e partir para a interpenetração de companhias de processamento de dados, tais como o Google ou o Facebook e agências de segurança de Estado.

Não deveríamos nos chocar com a China, mas conosco, que aceitamos as mesmas normas, acreditando que fruimos de plena liberdade e que nossas mídias só nos ajudam a realizar nossos objetivos. Na China, a população está completamente ciente de que é controlada.

A imagem geral que emerge disso tudo, unida ao que também sabemos das ligações entre os mais recentes avanços da biogenética (o conhecimento da trama de conexões do cérebro humano, etc.), nos dá uma visão pertinente e aterrorizante das novas formas de controle social, que fazem o bom e velho totalitarismo do século XX parecer uma máquina de controle primitiva e boba.


A maior conquista do novo complexo cognitivo-militar é que a opressão direta e óbvia não é mais necessária: os indivíduos podem ser muito melhor controlados e orientados na direção desejada, quando continuam a se enxergar como pessoas livres e como agentes autônomos de suas próprias vidas.


Esta é mais uma lição-chave do Wikileaks: nossa falta de liberdade é mais perigosa quando vivenciada como o próprio meio de nossa liberdade. O que poderia ser mais livre do que o incessante fluxo de comunicação que permite que cada indivíduo possa popularizar sua opinião e formar comunidades virtuais por vontade própria?

Em nossas sociedades, permissividade e livre escolha foram elevadas a valores supremos. Por isso, o controle social e a dominação não parecem infringir a liberdade subjetiva. Aparecem (e são sustentadas) como a própria auto-experiência de indivíduos livres. O que pode ser mais livre que nossa navegação irrestrita na rede? É assim que o “fascismo que cheira a democracia” opera hoje.

É por isso que se torna absolutamente imperativo manter as redes digitais longe do controle do capital privado e do poder do Estado, e torná-las totalmente acessíveis ao debate público. Assange tinha razão em seu livro Quando o Google encontrou o Wikileaks (Boitempo Editorial, 2015), misteriosamente ignorado. Para compreender como nossas vidas são monitoradas hoje, e como esse monitoramento é vivenciado como uma liberdade, precisamos focar na sombria relação entre as corporações privadas, que controlam nossos bens, e as agências secretas de Estado.

Agora podemos ver porquê Assange precisou ser silenciado: depois do escândalo da Cambrigde Analytica vir à tona, todos os esforços dos que estão no poder se voltaram a reduzir o caso a um “mau uso” particular, de algumas empresas privadas e partidos políticos. Mas onde se encontram o Estado em si, os aparatos semi-transparentes do chamado “Estado profundo”?

Assange apresentou-se como o espião do povo e para o povo. Ele não está espionando as pessoas para o poder — espiona o poder para a população. É por isso que sua única assistência terá de vir de nós, do povo. Somente nossa pressão e mobilização podem mitigar sua condenação. Constantemente, lemos sobre como o serviço secreto soviético não só punia seus traidores (mesmo se levasse décadas para fazer isso), mas também lutava obstinadamente para libertá-los, quando eram capturados pelo inimigo. Assange não tem nenhum Estado por trás de si, somente nós. Por isso, façamos o que o serviço secreto soviético fazia: lutemos por ele, sem nos importar quanto tempo isto levará!

O Wikileaks é apenas o começo, e nosso lema deveria ser do tipo maoísta: que centenas de Wikileaks floresçam. O pânico e a fúria com a qual aqueles no poder — aqueles que controlam nossos meios digitais — reagiram a Assange, são a prova de que esse movimento toca em feridas sensíveis.

Haverá muitos golpes injustos nessa batalha — nosso lado será acusado de estar sendo enganado pelas mãos do inimigo (como a campanha segundo a qual Assange estava “a serviço de Putin”). Mas devemos nos acostumar com isso e aprender a revidar com paixão, jogando sem piedade um lado contra o outro, para fazer com que todos eles caiam.




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