Foto: Wikimedia Commons



Por Fabio Porta*

Quarenta anos depois da primeira eleição direta do Parlamento Europeu, os 28 países da União Europeia se preparam para eleger os 751 deputados que formarão o grande hemiciclo de Estrasburgo, sede da principal assembléia legislativa do continente, no dia 26 de maio.


Segundo todos os observadores internacionais, as próximas eleições serão “históricas”. Pela primeira vez, de fato, o “sonho europeu” nascido após a Segunda Guerra Mundial e culminando com o nascimento de um único parlamento é fortemente desafiado pelos chamados grupos “soberanistas”.


Este nome refere-se às formações políticas de extrema-direita que atacam a União Europeia em nome de um nacionalismo ressurgente. Isso vem acontecendo em países como Itáliam Hungria, França e Áustria.

Trata-se de um movimento com muitas contradições, nada homogênico, com uma forte dose de euroceticismo, unido por um nível forte de xenofobia, alimentado e crescido nos últimos anos devido às sucessivas ondas de imigrantes que chegam à Europa da África e de países em guerra do Oriente Médio.

Uma direita radical, que tem pouco a ver com a tradicional direita conservadora européia e que, ao contrário, parece ressuscitar os fantasmas da direita autoritária que levou a própria Europa à dramática carnificina da Segunda Guerra Mundial.

Matteo Salvini na Itália, Marine Le Pen na França e Viktor Orban na Hungria são a expressão mais famosa e autoritária dessa tendência; são eles que lideram o ataque “soberanista” à Europa dos 28 países, entre eles a Grã-Bretanha da primeira-ministra Theresa May, que hoje mostra-se incapaz de encontrar uma saída acordada com a UE.


O referendo de três anos atrás, com o qual os britânicos votaram a favor do chamado BREXIT, foi para muitos o primeiro “ato de guerra” de soberania internacional contra o projeto europeu. Um “fio preto” (cor da extrema-direita) parece ligar o BREXIT à eleição subsequente de Donald Trump como presidente dos EUA e ao sucesso de líderes como Salvini na Itália ou Bolsonaro no Brasil. Uma estratégia política internacional que teria como um dos seus pilares a destruição (ou o enfraquecimento) da União Europeia.

Apesar desta imagem pouco promissora, a notícia positiva é que as formações políticas historicamente “europeístas”, os populares (democratas-cristãos) e os socialistas (e social-democratas), devem voltar a ser majoritários no próximo Parlamento Europeu, embora provavelmente não possam conquistar a maioria absoluta dos assentos.


Um papel decisivo (também para evitar a deriva anti-européia) será provavelmente o centro e grupos de centro-direita como liberais e conservadores, ou mesmo os “verdes”, em crescimento significativo graças ao novo impulso ambiental internacional. A soma desses fatores determinará o resultado das eleições, a formação do novo Parlamento e a composição da nova “Comissão Européia”, como o governo europeu costuma ser chamado.

É por isso que as próximas eleições européias representam uma etapa importante, talvez “histórica”: o que está em jogo não é apenas uma estrutura continental, mas um modelo de crescimento económico e – acima de tudo – de democracia.


De um lado, o sonho daqueles que ainda acreditam em uma Europa unida e solidária, uma referência no mundo para aqueles que acreditam nos valores da democracia, da solidariedade e acolhimento, dentro de uma estrutura do Estado de Bem-Estar Social e de uma economia aberta ao mundo; do outro lado está o medo de países e governantes que querem tirar o peso da Europa e concedê-la a Estados individuais, com uma tendência cada vez mais forte de fechamento tanto nos campos econômico e comercial quanto sobre as políticas de integração e migração.

Em Roma, como no resto da Europa, votar-se-á com um olho nos problemas do próprio país e outro no futuro do que ainda é o maior projeto de integração política na história da humanidade; um projeto de paz e esperança nascido após a mais sangrenta de todas as guerras que alguém pudesse questionar, mas que os europeus (e nossa esperança!) saberão como se defender e relançar com seu voto no próximo dia 26 de maio.


*Fabio Porta é secretário do Partido Democrático (PD) Italiano no Brasil, ex-deputado do parlamento italiano (2008-2018)




Revista Fórum

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