Quando Lula fala, Bolsonaro não deveria ficar surdo
Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Na época em que Lula começou a despontar no cenário político brasileiro, ele foi convidado para debater com professores na FFLCH da USP. Na época o convite foi criticado na imprensa por alguns professores, pois o líder operário não tinha qualquer educação formal e o lugar dele não era na Universidade.

Num artigo que, se não estou enganado, foi publicado na Folha de São Paulo, o professor José Arthur Giannotti rebateu os adversários da visita de Lula à FFLCH da USP. Giannotti disse, em apertada síntese, que o problema não estava na formação deficiente de Lula e sim na incapacidade da própria Universidade de produzir lideranças políticas e de compreender como elas estavam surgindo fora dos seus muros. A visita de Lula à USP era indispensável justamente porque comprovaria o fracasso político e científico da academia.

Citei esse artigo do filósofo uspiano que li a várias décadas, e que me marcou profundamente, por causa da entrevista que Lula deu essa semana. Os jornalistas estão dizendo que ela representou um rombo na censura que estava se fechando em torno dele e que ameaçava se expandir em outras direções. Ao que parece eles não foram capazes de compreender sua verdadeira importância.


Mas antes de ir direto ao ponto, peço licença ao leitor para fazer uma pequena modesta digressão sobre o conceito e o critério de verdade a partir da obra de Johannes Hessen. Diz referido autor que:

“A verdade é a concordância do pensamento consigo mesmo. Um juízo é verdadeiro quando está formado em relação com as leis e as normas do pensamento. A verdade significa, deste modo, algo puramente formal; coincide com a correção lógica.”(Teoria do Conhecimento, Prof. Johannes Hessen, Armênio Amado – Editor, 4a. edição, Coimbra, 1968, p. 148)

“O nosso pensamento concorda consigo mesmo somente quando está livre de contradição. O conceito imanente ou idealista traz consigo necessariamente, o considerar a ausência de contradição como critério de verdade. A ausência de contradição é, com efeito, um critério de verdade; não um critério geral válido para todo o conhecimento, mas sim um critério válido somente para uma classe determinada de conhecimento, para uma esfera determinada deste. Torna-se claro qual é esta esfera: é a esfera das ciências formais ou ideais.” (Teoria do Conhecimento, Prof. Johannes Hessen, Armênio Amado – Editor, 4a. edição, Coimbra, 1968, p. 152)

Conhecer a verdade é reconhecer a correção lógica de um raciocínio em que inexiste contradição. A política não é uma ciência formal ou ideal. Todavia, a matéria prima da política é o discurso e a sua análise à luz da teoria de Johannes Hessen é possível pois “…o conhecimento das significações pressupostas num discurso fornece informações muito mais diretamente vinculadas com a compreensão de seu funcionamento.” (Argumentação e Discurso Político, Haquira Osakabe, Kairós Livraria e Editora, 1a. edição, São Paulo, 1979, p. 62)

A eficácia do discurso de Lula é um fato historicamente comprovado (ele chegou à presidência, foi reeleito e fez a sucessora). A eficácia administrativa de Lula também é um fato historicamente inquestionável (durante sua presidência a economia brasileira cresceu de maneira consistente por um período considerável, tanto que o nosso país passou de devedor a credor do FMI). O lugar de Lula na História está garantido.

Isso explica a autoconfiança do líder operário. O poder que ele construiu transcende as barreiras do tempo e do espaço e não pode ser confinado pelas paredes de uma cela. Cela? Não. Lula está numa sala. Numa sala em que ele continua fazendo algo que todos deveriam fazer: ele aproveita o tempo livre para estudar.

O estudo não apenas qualifica os homens para o trabalho, ele os reúne e os distingue dos animais. A civilização não foi construída pelas armas (objetos glorificados pelo novo governo), mas pelo estudo metódico da natureza e pela transmissão do conhecimento acumulado. Lula conhece o Brasil melhor do que ninguém. Ele sabe que os brasileiros têm sede de justiça e não de vingança.

A verdade que o ex-presidente corporifica não é a exclusão pela violência e sim a inclusão pela tolerância. Isso explica porque Lula não aproveitou a entrevista para destilar ódio contra seus inimigos e convocar seus amigos para uma guerra. Quem está em guerra com o Brasil são aqueles que colocaram o “sapo barbudo” na prisão.

Um país que se entrega aos estrangeiros porque prefere excluir uma parcela do seu povo do orçamento não tem futuro. Nesse sentido, a concordância de Lula consigo mesmo justifica sua autoconfiança ao defender o país que o prendeu e lembrar ao “respeitável público” que os EUA só cuidam dos interesses norte-americanos (que são obviamente distintos dos nossos interesses).

O que faz o Brasil funcionar? Lula provou que nosso país funciona quando o Estado se esforça para reduzir a sede de justiça do povo brasileiro. A entrevista dele foi inteiramente construída em torno desta verdade cuja validade não foi demonstrada apenas pela lógica.

Nesse sentido, devemos admitir a hipótese de que Lula considera inevitável o fracasso do projeto político de Jair Bolsonaro. Isso explica porque o ex-presidente o chamou de maluco. Afinal, ao aumentar a sede de justiça da parcela da população que será excluída dos benefício da atividade econômica, Bolsonaro apenas fortalecerá aqueles que estão em condições de representá-la. E quem pode melhor representar aqueles que serão injustiçados pelo Estado e pelo Mercado do que o líder político que foi injustiçado apesar do seu legado positivo?

Jair Bolsonaro disse que Lula não deveria ter falado. O maior problema do novo presidente é outro. Bolsonaro não vai fracassar porque um homem preso injustamente falou. O fracasso dele é inevitável porque ele mesmo é cruel e incapaz de escutar a voz de um povo cuja sede de justiça não poderá ser aplacada com novas injustiças. A fala de Lula tem a virtude de expor indiretamente a contradição profunda de um projeto político que foi capaz de ganhar a eleição, mas já se tornou incapaz de deslocar o poder de uma cela de prisão curitibana para o Palácio do Planalto.

A verdade liberta. Portanto, Lula disse que não se sente preso. A mentira aprisiona. Logo Bolsonaro continuará a se sentir prisioneiro no Palácio do Planalto sempre que ver as palavras de Lula reverberando dentro e fora do país.

Todavia, a impotência de Jair Bolsonaro não foi construída pela voz vibrante e vivificante de Lula. Ele já era impotente antes da entrevista ser realizada e divulgada. Bolsonaro continuará impotente até ser removido do cargo. Isso ocorrerá mais cedo ou mais tarde, pois a contradição que ele representa não é e não pode ser um critério de verdade ainda que a propaganda continue dizendo que o governo está certo em empobrecer a população de diversas formas.

A história provou que José Arthur Giannotti não estava errado quando defendeu a visita do jovem líder operário à FFLCH da USP. Se não cultivasse tanto desprezo pela filosofia, Bolsonaro seria capaz de perceber os problemas que está criando para si próprio.

https://youtu.be/zCzco42kRAg


GGN

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