“Façamos uma greve humana”. Essas palavras do ator Sidney Santiago em uma peça me atravessaram. Dois dias depois, o exército fuzilava com 80 tiros uma família no Rio de Janeiro. Debocharam da esposa que gritava ajuda em prantos. 80 tiros. 80 tiros que atravessaram uma família. Mais 80 tiros pelo deboche. 80 debochadas. É como se fossem nada.

E por que não estamos parados? E por que não estamos em marcha? E por que estamos seguindo a vida, assistindo ao jornal, discutindo o governo que autoriza debochadas. Cotidianas. A cada 23 minutos há um jovem negro assassinado por uma debochada. Reduzidos a nada. Reduzidos a papel de tiro ao alvo. Legítimas defesas debochadas. 80 legítimas defesas debochadas. Um pai de família morto.
Mas não precisava ter família para enxergarmos dignidade. Policial não tem treinamento? Tem. Pra debochar na cabeça. Contra quem eles enxergam apenas o nada.
A segunda temporada de Black Mirror tem um episódio no qual pessoas são treinadas no exército para matar humanos que se tornaram monstros, baratas. E eles têm que matar todas as baratas. Descobrem um chip instalado neles. Não eram baratas. Eram outros humanos lutando para sobreviver. Para fugir de debochadas. A realidade no Brasil é fichinha perto de Black Mirror. A gente mata mais do que a guerra na Síria, do que foi o Afeganistão, do que foi o Iraque. Porque a gente debocha das “baratas”. Barata é aquele inseto que a gente tem pavor, mas mata. E a gente olha para ela depois que mata e ri aliviados porque vencemos… a barata. Os soldados riram do pai de família assassinado. Riram da barata. Debocharam. Reduzido a bicho. Não é homem. Não é pai. Não é gente. Agora, massacra, mata, pisa, debocha.
“Façamos uma greve humana”. Uma greve na qual enquanto não humanizarmos a todos, nada funcionará. Instauremos o caos pela humanidade. O caos pelo humano.
Precisamos retirar os chips, hackear o sistema e fazê-los ver. É preciso de humanidade para este mundo. É preciso humanidade para todos. Façamos uma greve humana, gritava o ator-poeta enquanto atuava como com sangue, cansado e com suor de luta, dos golpes do mundo desumanizado, cansado de sobreviver! Cansado de fugir!

Não queremos mais fugir! Não queremos nos esconder! Não queremos mais ter que ensinar aos nossos filhos desde muito cedo a decorar o RG! Não queremos mais ter medo de correr! Correr, ato humano que parece uma busca por liberdade. E isso a gente não pode. Veja o simbólico disso! Não é possível que você não veja! Não queremos mais viver 24h por 7 dias com medo de morrer!

Eu queria ter condições de escrever um artigo com diversos conceitos, diversas citações bibliográficas, com muitos dados de pesquisas. Mas eu não consigo. 80 deboches me atravessam. 80 deboches me dilaceram. As pessoas não se comovem com dados, não se comovem com aquelas cenas, duras, gravadas, com as provas na cara de mais uma crueldade. Que não é um fato isolado! É isso todo dia, em 80 tiros espaçados, em 80 deboches a conta gotas. Mas que não param!

E eu te pergunto: dá pra seguir como se nada tivesse acontecido? Dá pra falar em “erro”? Em “engano”? 80 erros? Você aguentaria alguém errando 80 vezes? Se enganando 80 vezes na sua vida? 80 deboches. 80 erros debochados. Erros? Dá pra seguir como se nada tivesse acontecido?
E por que não estamos gritando? E por que não estamos marchando? O ator já avisou: façamos a greve. Ou não haverá humanidade para mais ninguém muito em breve.


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