Quando esse humilde blogueiro incursionou pela carreira de repórter, o primeiro passo foi na editoria de Polícia. Área pouco nobre, por isso deixada para os chamados “focas”, os jornalistas iniciantes. Muito mais prestigiosas naqueles momentos da década de 1980 eram as editorias de Economia e Cultura – Economia, pelas discussões mecroeconômicas intermináveis em torno do porquê da hiperinflação; e Cultura, pela explosão criativa em todos os setores artísticos num cenário de abertura política e cultural nos estertores da ditadura militar.
 E lá ficava eu, horas a fio, em delegacias buscando em boletins de ocorrência alguma informação que pudesse render uma boa notícia... ou quem sabe um furo. Pouco provável, numa editoria cujo projeto gráfico do jornal deixava-a nas partes menos nobres e visíveis para os leitores.
Pois quase 40 anos depois, tudo parece ter mudado. Ver primeiras páginas de jornais nas bancas ou a escalada de telejornais dá uma sensação de que esse País virou uma gigantesca delegacia policial. E as mídias seus porta-vozes.

O País virou uma gigantesca delegacia policial

Repare, caro leitor, que a pauta diária da grande mídia consiste em notícias sobre feminicídios, arrastões em ônibus e condomínios, vítimas de balas perdidas, perseguição policial. Pequenas notícias que emolduram o filão noticioso cotidiano da Lava Jato e combate a corrupção: a enésima operação da Lava Jato, polícias federais nas ruas em um show de meganhagem com enormes armas negras reluzentes, toucas ninjas, feições duras, bocas de acento circunflexo e brilhantes óculos escuros.


A meganhagem de todo dia...

Invariavelmente, com um sex appeal: as câmeras procuram sempre alguma policial federal “gata” ou algum policial “hipster” carregando pesadas sacolas com “provas”. Para dar um toque de glamour à marcha moralizadora transversal ao jornalismo da grande mídia: se os indicadores sociais estão caindo, a culpa só pode ser da corrupção de políticos e gestores públicos.
Nas escaladas primeiro vem as notícias dessa gigantesca e agitada delegacia. E depois de saciada a fúria moralizadora, vem a crônica diária da Reforma da Previdência. Nesse jornalismo monofásico, só resta espaço depois para os contos de fadas de empreendedorismo para elevar a moral da patuléia desempregada, que já lavou a alma vendo na TV a faxina nacional dos corruptos, bandidos ou assassinos sendo presos.
Esse show de meganhagem dos últimos anos teve uma função estratégica bem precisa: a guerra híbrida de desestabilização de um governo até o golpe de 2016, liquidação da liderança política de Lula e fragmentação da esquerda para abrir caminho para a eleição do atual governo.
Porém, hoje essa construção semiótica diária do País como uma imensa delegacia policial ganhou um novo papel: ajudar a embaralhar as informações na guerra semiótica criptografada desses primeiros 100 dias de governo Bolsonaro.



O jogo criptografado da Reforma da Previdência

O jogo criptografado chegou ao ápice nessa semana, decisiva para a aprovação da Reforma da Previdência do governo Bolsonaro na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados – o sucesso da reforma é a própria razão desse governo ter sido permitido chegar ao poder: entregar as contas das aposentadorias e fundos de pensão para a banca financeira.
O “dia D” da terça-feira, dia da aprovação da Reforma na CCJ, foi cercado de um preciso sincronismo de eventos: a nova rodada de ataques do vereador Carlos Bolsonaro contra o vice-presidente General Mourão (17 tuites acusando o vice de estar contra o seu pai) e o julgamento da Quinta Turma do STJ sugerindo a redução da pena de Lula no caso do Triplex do Guarujá.
Poucos dias antes desse “Dia D”, o STF autorizou Lula a dar entrevista ao jornal Folha de São Paulo. Isso, seis meses depois do ministro de STF Lewandowski de dado a liminar suspensa por Luiz Fux.
E no dia seguinte à aprovação da Reforma na CCJ, a Polícia Civil dispara uma megaoperação em todo o País para prender mais de três mil procurados pela Justiça – 7.300 policias saíram às ruas à procura de criminosos em 26 estados. Com o tradicional show de meganhagem (mostrando mais policiais armados até os dentes colocando as mãos em meliantes cabisbaixos ou com camisas na cabeça tentando esconder os rostos) os telejornais destacavam que os condenados eram “pedófilos, estupradores, feminicidas e sequestradores” – para criar a sensação de alívio e falsa percepção de segurança.
Essa conjunção astronômica de acontecimentos em torno ou no próprio “Dia D” não foi uma mera coincidência. A estratégia é nitidamente de embaralhamento, diversionismo, prestidigitação. Como um mágico que com uma mão desvia a atenção do distinto público, enquanto a outra tira a carta da manga.
Se não, vejamos:


(a) Wishiful Thinking

Essa estratégia de guerra criptografada é o sentido mais amplo das “caneladas” e dissonâncias criadas entre os alucinados membros do governo e do guru-filósofo-astrólogo Olavo de Carvalho, o “Rasputin” do capitão da reserva e presidente em exercício.
Cria uma falsa esperança numa esquerda que tudo observa com uma passividade bovina. A esperança de que o governo está rachando e vai se autodestruir. De passiva, a esquerda vai fazendo parte do jogo com o seu ingênuo wishiful thinking.

(b) O “day after”

O “day after” da aprovação da Reforma da Previdência é mitigado pelo show midiático da megaoperação da Polícia Civil. Para a também bovina opinião pública, ouvir a expressão “foi aprovada” pela TV significa que parece tudo ter finalmente acabado, enquanto o texto da reforma ainda vai passar por uma comissão especial. O mega show de faxina policial em todo o País desvia a atenção para deixar os telespectadores desatentos para os trâmites que ainda a Reforma deve seguir.

(c) Cuidado com o primeiro de maio! 

Essa necessidade de mitigar ou anestesiar o impacto pós aprovação na CCJ é crucial pela proximidade de um dia simbólico: o primeiro de maio, dia do trabalho. Reforma da previdência tem a ver com o próprio futuro do trabalhador que será pulverizado.
Para a grande mídia, a melhor homenagem aos trabalhadores é mostrar como a cruzada de faxina moral do País está dando certo: mais três mil foram jogados para dentro das cadeias. Não é por menos que uma das atrações do serviço de streaming Globoplay é a série Carcereiros – transformar em um thriller glamoroso o cotidiano nacional de meganhagem.



(d) Lula vira um meme tóxico 

Por que seis meses depois do ministro Luiz Fux ter cassado a liminar de Lewandowski, precisamente AGORA o presidente do STF, Dias Toffoli, derruba a liminar de Fux? Olimpicamente, o jornal O Globo simplesmente ignorou a entrevista dada por Lula, assunto debatido até em veículos internacionais.
Tem sua razão de ser, para além do modus operandi de ignorar a realidade, assim como fez com os movimentos Diretas-Já nos anos 1980: certamente O Globo, sintonizado e fazendo tabelinha nessa guerra semiótica criptografada, sabe que Lula nesse momento representa um “meme tóxico” (“exo-toxic meme”, como conceituam os pesquisadores em memética): um meme que produz fortes reações como ódio ou indignação e induz ao desejo de destruição do oponente.
Além de alimentar o wishiful thinking da esquerda (parece que ainda não caiu a ficha de que Lula é um preso político e sua prisão é perpétua – pelo menos, dentro da atual conjuntura política), as falas de Lula na entrevista só reavivam o ódio das hostes que saíram às ruas e redes sociais para apoiar Bolsonaro.


Acender a chama do ódio de bolsominions arrependidos

Lula falando e redivivo de dentro da prisão, só faz acender a chama do ódio que andava meio apagada em bolsominions envergonhados, arrependidos ou distraídos.
A repentina “liberdade” dada a Lula para falar tem uma função precisa na atual guerra semiótica: reacender a polarização na proximidade da data simbólica do primeiro de maio.
Tudo isso comprova que a esquerda nesse momento tem um adversário bem diferente daquela da antiga ditadura militar. Nos anos 1970 e 1980 as discussões macroeconômicas eram a pauta do dia na grande mídia e de lá surgiram grandes nomes do jornalismo econômico como Joelmir Betting, Luís Nassif e Celso Ming. Havia ainda o horizonte promissor da democracia pós-ditadura e as discussões macro eram sempre em torno de um projeto futuro de país.
Ao contrário, hoje estamos imersos numa guerra híbrida da chantagem de terra arrasada e um cenário complexo de embaralhamento de informações sob o comando obscurantista e regressivo de uma cruzada moralista que transformou o País numa imensa delegacia policial.
Ao invés de qualquer debate de conjuntura política e econômica, o que temos é o show diário de meganhagem: “policiais federais nas ruas!”, é o que se ouve recorrentemente nas escaladas triunfantes dos telejornais. Esse é o populismo de extrema-direita.

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