Acusações do Grande Júri contra Julian Assange. AP

YOLANDA MONGE

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou as acusações apresentadas contra o australiano Julian Assange, detido nesta quinta-feira a pedido de Washington na Embaixada do Equador em Londres, onde se refugiava desde junho de 2012. Assange é acusado de conspiração criminosa para se infiltrar em sistemas do Governo e de ter ajudado a ex-soldado Chelsea Manninga hackear os computadores com informação classificada da Administração norte-americana em 2010. Ele poderia ser condenado a até cinco anos de prisão, embora as autoridades judiciais tenham afirmado que “as atuais sentenças por crimes federais costumam ser inferiores à pena máxima”.


Assange terá que responder na Justiça dos EUA pelo maior vazamento de documentos secretos da história, que deixou expostos os segredos da política exterior do país. Desde que o caso Wikileaks veio à tona, Washington sempre sustentou que Assange devia pagar por seu suposto papel. Esse dia parece ter chegado, mas será preciso esperar até junho, quando a Justiça britânica se pronunciará sobre a extradição.



Na sucessão de declarações feitas desde o início da manhã em Washington, após a notícia da prisão de Assange, o senador democrata Joe Manchin (Virgínia Ocidental) comemorou a captura do fundador do Wikileaks. “Ele é de nossa propriedade, e podemos obter dele os fatos e a verdade. É realmente bom voltar a tê-lo em solo norte-americano”, afirmou.

Nas acusações difundidas pela Justiça, lê-se: “Julian P. Assange, de 47 anos e fundador do Wikileaks, foi detido hoje no Reino Unido conforme o acordo de extradição entre os EUA e o Reino Unido, devido ao seu envolvimento em uma acusação federal por conspiração para se infiltrar em computadores ao concordar em decifrar a senha de um computador do Governo com informação classificada”, como detalhou em nota o Departamento de Justiça.

No final de 2010, o Wikileaks publicou mais de 250.000 mensagens do Departamento de Estado dos EUA, que revelavam episódios inéditos ocorridos nos pontos de maior conflito do mundo, além de eventos e dados de grande relevância que expunham completamente a política exterior norte-americana, seus mecanismos e suas fontes, deixando em evidência suas fraquezas e obsessões. Juntas, essas informações facilitavam a compreensão, por parte dos cidadãos, das circunstâncias em que se desenvolve o lado obscuro das relações internacionais.

Em 2010, o Ministério Público dos EUA tentou construir uma ação judicial contra o australiano para tentar acusá-lo de crime de conspiração pela difusão dos documentos secretos do Departamento de Estado. O foco da investigação era se Assange havia colaborado, de alguma forma, com o então ex-analista militar de Inteligência das Forças Armadas dos EUA Bradley Manning (que depois mudaria sua identidade e passaria a ser Chelsea Manning) na obtenção dos documentos.

Desde que o Wikileaks realizou seus primeiros vazamentos de dados sobre a guerra do Iraque (40.000 arquivos) e a missão no Afeganistão (77.000 arquivos que documentavam 20.000 mortes), os promotores dos EUA estudaram a possibilidade de acusá-lo por crime de violação da Lei sobre Espionagem de 1917, embora sem sucesso.

Conforme a acusação formal, em março de 2010 Assange teria conspirado com Chelsea Manning para ajudá-la a decifrar uma senha armazenada nos computadores do Departamento de Defesa conectadas com a chamada SIPRNet, uma rede do Governo dos EUA utilizada para documentos classificados.

O Departamento de Justiça informou que a analista de inteligência e o fundador do Wikileaks “participaram em discussões em tempo real sobre a transmissão de arquivos classificados de Manning a Assange”.

As discussões também indicam que Assange incentivou “ativamente” Manning a proporcionar mais dados, informou o Departamento de Justiça, lembrando que, em uma oportunidade, Manning disse a Assange que já não tinha mais nada para enviar, ao que ele teria respondido: “Os olhos curiosos nunca se cansam.”

O advogado norte-americano de Assange, Barry Pollack, criticou nesta quinta-feira os EUA por buscar a extradição de “um jornalista estrangeiro” para que enfrente acusações por “publicar informação veraz”, segundo a agência France Presse.

Os tribunais britânicos “deverão resolver o que parece ser um esforço sem precedentes, por parte dos EUA, de obter a extradição de um jornalista estrangeiro para que enfrente acusações por publicar informação veraz”, disse Pollack em um comunicado divulgado na conta do Wikileaks no Twitter.


EL PAÍS Brasil

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