2 + 2 é igual a 4. Essa é a verdade do raciocínio lógica da Matemática. Uma verdade factual. Ou será que não? Por que não, igual a 22? Afinal, não vivemos numa sociedade de liberdade de opinião? Então a Matemática e seus professores são espertalhões autoritários querendo impor seus pontos de vista? Eles estão por trás de uma conspiração para tolher a liberdade cognitiva dos estudantes? Esse é o tema do divertido curta “Alternative Math” ("Matemática Alternativa", 2018), uma comédia com diversas camadas interpretativas, mas que também tem um tom assustador sobre o mundo potencialmente terrível que está à nossa espreita: o ressentimento que produz a onda anti-intelectualismo e irracionalismo da pós-verdade – nas mídias sociais, realidades paralelas e bizarras teorias conspiratórias ganham o mesmo status de verdades científicas sob o álibi da liberdade de opinião. Curta sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.
O espírito do tempo: estamos acompanhando o crescente desprezo pelo intelecto e a erudição. Em um mundo em que a mais moderna tecnologia de comunicação de toda a História (a Internet e as tecnologias computacionais) despejou para o mundo fake news e a pós-verdades, criando realidades alternativas e bolhas virtuais, o anti-intelectualismo converteu-se na própria atmosfera na qual as redes sociais respiram.
Todas as verdades, descobertas e teorias aceitas pela comunidade científica passaram a ser acusadas de conspirações – a Terra é redonda? Uma conspiração da NASA. Teoria Evolucionista? Coisa de cientistas pedantes e ateus, e até suspeitos de radicalismo político. Teoria da Relatividade? Coisa de um judeu suspeito que não gostava de matemática.
Matemática? Pois até a ciência do raciocínio lógico que estuda quantidades, medidas, espaços e estatísticas, talvez a ciência mais exata (ou que, pelo menos, confere credibilidade científica a teses e hipóteses), pode ser questionada na atual onda de barbárie e regressão.
O curta dirigido por David Maddox, Alternative Math (“Matemática Alternativa”, 2018), talvez seja um dos mais inteligentes curtas atuais e também uma incrivelmente sofisticada comédia. Uma alegoria com diversas camadas: a primeira de uma comédia inteligente que funciona com non-sensee a lógica insana do reducto-absurdum. Mas também tem um tom assustador de um mundo potencialmente terrível que está à nossa espreita.
O que acontece quando crenças e o senso comum assumem tal poder que o mais básico conhecimento científico passa a ser questionado? O que acontece quando o direito à liberdade de expressão torna-se um álibi para as ideias mais obscuras e medíocres passarem por cima dos fatos e adquirirem o mesmo status de teses científicas?
E a camada narrativa mais preocupante de Alternative Math é o destino de professores, intelectuais e cientistas nesse autêntico elogio à burrice e ignorância que toma conta da atualidade.





A protagonista do curta é uma veterana professora chamada Mrs. Wells (Allyn Carrell) de uma escola fundamental tentando explicar a um pequeno aluno que 2 + 2 é igual a 4. A criança errou essa questão do teste por achar que o resultado é 22. Fazendo birra, o menino vira as costas e vai embora batendo pé irritado.
No dia seguinte, os pais do garoto vêm conversar com a professora: “como ousa censurar uma criança e restringir a aprendizagem”, acusam os pais que ficam cada vez mais agressivos com a insistência da professora em demonstrar que a lógica e o raciocínio matemático são um fato. Tão birrentos quanto o filho, os pais protestam que para cada pergunta há mais de uma resposta. E pior: os pais acham que a professora é tendenciosa e manipuladora. “Quem é você para dizer o que é certo e errado?”, desafiam os pais.
Depois dessa sequência tensa que termina com uma bofetada da mãe na professora, revela-se uma perversa aliança entre a mídia e administração escolar: ao invés do diretor apoiar a professora, acusa-a de perturbar a criança e os pais – o conselho escolar suspende a professora, mas, depois do escândalo que explode na mídia (denunciando um suposto ataque pessoal de um professor a um aluno), a escola decide despedi-la.
Atrofia da Competência
Ao longo da história a educação de massa surgiu com uma promissora tentativa de democratizar a cultura superior das classes privilegiadas. Mas tudo o que conseguiu foi a formação de uma burocracia educacional e a escola como recrutamento militar ou industrial.
Embora tenha alcançado taxas sem precedentes de educação formal, produziu novas formas de analfabetismo – pessoas cada vez mais incapazes de usar a linguagem com fluência e precisão, fazer deduções lógicas, compreender a História pelo menos em seu aspecto cronológico, além de incapazes de compreender quaisquer textos escritos. A não ser os mais rudimentares em memes ou postagens nas redes sociais – se aparecer um “textão” já é malvisto ...





Mas, por outro lado, são treinadas a trabalhar no capitalismo cognitivo de subempregos e precarização: saber lidar com aplicativos, dispositivos móveis ou plataformas de “bicos” num Uber ou de algum delivery de comida ou supermercado. Não se educa para formar cidadãos exemplares, mas para a futura mão de obra barata, sem direitos ou garantias sociais.
Assim como mostra o curta Alternative Math, o resultado é o que testemunhamos hoje: o ressentimento, por trás de toda desconfiança em relação à intelectualidade e conhecimento. Com a competência atrofiada nos diversos graus do analfabetismo visual, começa a acreditar que tudo está fora do seu alcance.
Política, economia, análise de conjuntura, avaliação de um candidato numa disputa eleitoral ou simplesmente entender o mundo apresentado pelo noticiário torna-se um conhecimento esotérico do qual sentido e propósito lhe escapam.
Ressentido, torna-se alvo fácil de teorias conspiratórias, pós-verdades e as realidades alternativas da Internet – orgulhoso por entender essas narrativas bizarras (terra plana, conspirações de globalistas e LGBTs etc.), por que maniqueístas, brada ser um “conhecimento” tão válido como o científico.
Aliás como intelectuais, cientistas e professores falam uma linguagem igualmente esotérica, o ressentido passa a desconfiar e acreditar em malignas conspirações animando esses sinistros agentes infiltrados em escolas, academias e mídia.





No curta, os pais ressentidos revoltam-se contra a professora e declaram que toda fórmula matemática não passa de um símbolo por convenção: cada um faz a leitura que quiser e cada questão pode ter diversas respostas – é a pós-verdade.
O álibi é a liberdade de opinião, supostamente violentada não só pela professora, mas pela própria lógica matemática.
Um álibi oportunista: a união entre mídia, escola e Justiça é a própria aliança populista que hoje acompanhamos traduzido politicamente – o ressentimento traduzido em populismo de direita, por natureza anti-intelectual e irracionalista.
Mas o divertido e redentor final para a professora protagonista mostra a estratégia ideológica de todo populismo: vende-se para as massas todo esse irracionalismo para alimentar o ressentimento contra a ciência ou a cultura por oportunismo político, enquanto a infraestrutura econômica de exploração ainda é regida pela rígida lógica científico-matemática. Na economia 2 + 2 é realmente 4. E não tem discussão.



Ficha Técnica 

Título: Alternative Math (curta)
Diretor: David Maddox
Roteiro:  David Maddox, Malcolm Morrison
Elenco:  Allyn Carrell, Cole Whitaker, Mykle McCoslin, Bryan Massey
Produção: Ideaman Studios
Distribuição: Youtube

Cinema Secreto: Cinegnose

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