Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Alexandre Andrada

O PARANAENSE ADOLFO SACHSIDA ocupa um cargo estratégico na formulação da política econômica e social do governo. É o atual secretário de política econômica do Ministério da Economia, cargo que tem uma importância crucial na determinação da agenda econômica do país. No início do governo Lula, por exemplo, esse cargo foi ocupado por Marcos Lisboa, que acabou sendo um dos grandes responsáveis pelo desenho do programa Bolsa Família, uma das marcas de nossa política social.

Doutor em Economia pela Universidade de Brasília, Sachsida é funcionário do Ipea desde 1997. Como pesquisador, é dono de um currículo de respeito.

Tais credenciais profissionais e acadêmicas, no entanto, não o impedem de defender ideias econômicas bizarras, nem de ser um admirador e entusiasta do “filósofo de Taubaté” (com a devida vênia dos nativos e amantes desta simpática cidade), o refutador de Albert Einstein, o inclassificável Olavo de Carvalho. Ele defende, por exemplo, que todo brasileiro pague um imposto único anual de R$ 7 mil. Seja esse brasileiro um bilionário ou alguém que vive com um salário mínimo por mês.

Mais: acredita que os direitos trabalhistas são um estorvo para o empresário e principal causa do desemprego no país – e defende seu argumento citando filmes americanos. Culpa os pobres e miseráveis pelo déficit da previdência – afinal, ele recebem um salário mínimo sem terem contribuído para o sistema. E acha que as mulheres devem se aposentar junto com homens, mas pagando mais. Que se dane a jornada doméstica – isso não é problema da previdência.

Carreira política naufragou


Figura conhecida nos círculos conservadores e liberais brasileiros, Sachsida tentou a eleição para deputado distrital em 2014 pelo Democratas. Obteve 3.372 votos, ficou na 105° posição e não se elegeu.


Santinho de campanha para deputado federal de Adolfo Sachsida.
Captura de tela: Site/ Eleições 2014

Aproximou-se, então, de Bolsonaro quando poucos acreditavam que um risível deputado de extrema direita poderia se tornar residente do país. São muitas as afinidades entre Bolsonaro e Sachsida.

Sachsida expressa abertamente sua fé em Olavo de Carvalho. As trocas de gentilezas entre ambos eram frequentes, com direito aos famosos “hangouts” entre o economista e o Rasputin brasileiro. Nas conversas, os dois debatem temas como Escola sem Partido, a ameaça islâmica, os perigos do comunismo e outros tópicos típicos do cardápio de insanidades daquele que Sachsida chama de “professor”.

Em um depoimento, o economista classificou Olavo como “um dos maiores pensadores brasileiros dos últimos 50 anos”.


Trecho do depoimento de Adolfo Sachsida sobre Olavo de Carvalho.
Captura de tela: site Olavo de Carvalho FB

Olavo soube corresponder a tão profunda admiração – pena que o texto em questão tenha sido apagado por Sachsida.


Captura de tela: Facebook/ Olavo de Carvalho

Como Olavo e Bolsonaro, Sachsida também nutre um ódio profundo contra o ex-presidente Lula. Até aqui, nada demais. Afirma que Lula é um “bandido de alta periculosidade” e que “representa riscos claros a [sic] ordem pública”. Até aqui, mais uma vez, nada demais. Segue o jogo.

Mas ele vai além e diz que Lula faria “de tudo (como tem feito) para jogar o país numa guerra civil”. Aqui, creio, ultrapassamos o limite das discordâncias típicas de uma democracia e entramos na arena dos delírios olavistas.

Sachsida também divide com o capitão reformado a compreensão sobre os “probleminhas” ocorridos durante a ditadura militar brasileira. O atual secretário já usou o seriado 24 Horas para racionalizar” a atitude de Geisel, que teria dado sua bênção para que o “abate” de “terroristas” continuasse no Brasil.


Captura de tela: Blog de Rodrigo Constantino, Gazeta do Povo
Que os Deuses não lhe confiem tal decisão. Rezo.

Além de colunista em sites liberais e conservadores, Sachsida também era conhecido por seu canal no YouTube e seu blog pessoal. Em seu blog – que infelizmente foi deletado, assim como quase todo o material que ela havia postado no YouTube –, Sachsida defendia teses, digamos, extravagantes.

Em 2017, causou furor um vídeo seu em que justificaria a diferença de salários entre homens e mulheres dizendo que não tem tanta mulher genial. O suposto vídeo, infelizmente, não está mais entre nós. Outra tese defendida por Sachsida é que se cobrasse um imposto único de igual valor sobre todos os brasileiros. Isso significa que tanto um bilionário, como o performático Luciano Hang, quanto uma dona Maria, ganhadora de um salário mínimo, pagariam todo ano o mesmo valor, a mesma quantia, o mesmo montante de imposto por ano. Dividindo a arrecadação do governo federal no ano passado pela população do país, o valor a ser pago seria de R$ 7 mil.

A monstruosidade em termos de distribuição de renda da implementação de um imposto desse tipo seria inominável. Seria agradável – e módico – para os ricos. Seria, literalmente, a miséria, a fome e a humilhação para os mais de 55 milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. Esses 55 milhões de brasileiros vivem com menos de R$ 406 por mês, o que dá uma renda anual de R$ 4.872. Ou seja, se passassem o ano todo sem gastar literalmente um único centavo, ainda deveriam mais de R$ 2 mil para o governo.

Achou a ideia um completo disparate? Nós também.

Acha que é mentira, que nenhum economista defenderia tal coisa? Achou errado. Neste vídeo, Sachsida defende essa tese sem qualquer pudor. Nos vídeos do YouTube que sobreviveram ao expurgo pós-vitória, Sachsida apresenta seu credo econômico, que tem grande influência sobre as ideias e palavras mal conectadas proferidas por Bolsonaro.

Em uma de suas aulas, intitulada “Modernização da Legislação Trabalhista”, de 2017, Sachsida apresenta sua visão sobre o mercado de trabalho, na teoria e na prática. Defende o que ele chama de “modelo americano” do mercado de trabalho. Sua argumentação se baseia em seriados e filmes americanos:

“Como funciona a economia americana na maior parte dos contratos? Você já viu um filme americano?… Toda vez que a




The Intercept Brasil

Faça um comentário

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem