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Carregando os sarcófagos – capítulo 1

Wilson Luiz Müller

Trajando uma farda verde-fungo-encravado, chinelas de couro de porco nos pés, o capitão acompanhava do alto do convés a chegada dos tripulantes que o acompanhariam na viagem. Estavam todos a bordo, com exceção do pequeno ancião. O capitão movia ansioso o olhar de um lado para outro. Notando que não havia mais movimento de pessoas no pontilhão, ordenou aos serviçais que carregassem para os porões algumas caixas empilhadas no cais. Eram feitas de madeira de lei pesada, fechadas a cadeado. Quatro homens agarraram a maior das caixas e começaram a arrastá-la pontilhão acima, com grande alarido por causa do esforço que tinham de fazer.


Hei! Devagar com isso! gritou o capitão. Assim vão quebrar tudo.

Nisso chegou o pequeno ancião. O capitão abriu um rápido riso ao vê-lo. Em seguida recompôs o semblante para transmitir ao pequeno a solenidade que o momento exigia. Bateu continência, atrapalhando-se um pouco com as chinelas retorcidas pela velhice do couro. Pequeno, apesar da idade, respondeu com uma continência precisa, reta e pontual.

O que são essas caixas? perguntou pequeno. Achei que todos os mantimentos tinham sido carregados ontem.

Coisas do grande Brilhoso Lustrante, nosso ídolo.

O seu, anotou pequeno. Mas tudo isso? Parece uma mudança inteira.

Desde que estou nessa função não consigo avançar na leitura do meu livro de cabeceira. Cada página é uma revelação, tenho medo que lá pela página trinta eu descubra alguma coisa do que tinha naquelas caixas, e daí não vai ter como eu ver isso. Por isso tô levando tudo. Na verdade só a caixa grande é do Lustrante. As outras caixas são as ferramentas de trabalho dele. A viagem vai ser longa e podemos precisar disso em algum momento, ainda mais se eu conseguir avançar na leitura do livro de cabeceira. Essas preciosidades não se consegue comprar mais, foram desenhadas e feitas por encomenda nos bons tempos que, graças a deus, estamos conseguindo trazer de volta.

Pequeno não disse nada, nem se notou qualquer expressão em seu rosto que desse uma pista sobre o que pensava disso. Seus olhos cansados viajaram lentamente pelo convés, avistando o rábula encostado contra a murada no outro lado.

Preparado pequeno? Está indo tudo conforme o planejado. O que está pensando?

Um pouco confuso ainda, respondeu pequeno, com um sorriso grave. Na chegada tinha visto a pintura do nome feita no casco do navio. Ao lado do nome, um símbolo indefinido que lembrava um pouco uma aranha andando para trás; pelo menos foi a imagem que veio à mente do pequeno ancião.

Notei que batizaram o navio, disse pequeno. Não me lembro onde discutimos isso de pintar um nome e um símbolo no navio. Nau abasalão. Por que esse nome?

Isso daí, pequeno, a gente não queria encher a paciência de ocês que tinham outras coisas para cuidar. Ficamos uns três mês batendo cabeça, o tempo todo, sem brincadeira. Eu querendo uma coisa, o eremita do monturo falando coisa com coisa, a profetiza da mirta invocando as coisas do alto, meus pimpolho dando pitaco, mas valeu a pena, deu nisso daí, que é um resumo desse trabalho todo de três mês. O eremita do monturo queria que o nosso navio representasse a força e a glória do passado. Por isso é nau e não navio. Porque nau representa a glória do passado. E é força também. Queremos incentivar a virilidade de novo, os homens tem que fazer força e gastar energia para não ficar pensando bobagem. E assim já damos trabalho para os remadores, aqui tem comida garantida e não precisam ficar mendigando por aí. A gente podia ter comprado um navio moderno, mas como ocê vai controlar um negócio desses? Precisa contratar um monte de técnico, e daí já viu, não vai sobrar pra ninguém. E aqui só precisa a turma pra fazer força e um grupo de capataz bom de gogó pra se revezar. Então a nau resolveu essa questão do passado. Mas tinha que apontar o futuro também. Como a gente ia fazer isso com essas coisas que arrastam tão forte o passado? Aí veio a inspiração da profetiza da mirta. O futuro a deus pertence, ela disse. Então a nau, e nós como donos da nau, simboliza a trindade do tempo: passado, presente e futuro tudo junto numa coisa só. Entendeu?

Mais ou menos. Mas onde entra o nome da nau abasalão?

O nome abasalão me veio como um raio de iluminação no meio de um sonho. De noite eu tinha orado muito para achar uma solução para esse problema complexo. Te lembra que a gente tava há meses quebrando a cabeça para achar um símbolo para ligar as coisas do alto com as coisas de baixo, o passado ao futuro, essa coisarada toda. Daí me veio em sonho a jumenta falando com balaão.

Jumenta falando com balaão? Pequeno franziu o sobrolho (ele era do tempo em que as pessoas franziam o sobrolho), estava tendo dificuldades para acompanhar o raciocínio do capitão.

Sim, a jumenta, ou a mula, dependendo da tradução. Pequeno, ocê tem que se inteirar mais com isso, tem que ler o livro. A jumenta se deitou no caminho do feiticeiro balaão, que era um tipo de comunista daquele tempo, para impedir que ele fosse amaldiçoar o povo de deus, que era o povo judeu. O maldito bateu nela e aí ela falou com ele. Disse que não era para ele, balaão, amaldiçoar o povo. Percebe, deus falou pela boca da mula.

Até aqui entendi. Mas como foram de balaão a abasalão?

Daí eu pensei, isso é a ligadura que a gente tava procurando com o alto. Se a jumenta falou em nome de deus isso desmonta o discurso dos comunistas de que eu sou mais burro do que eles porque eu li menos livros que eles. Entendeu? Naquele tempo deus escolheu uma jumenta para salvar seu povo. Agora eu fui o escolhido. Para deus não interessa a inteligência, ele escolhe quem ele quer. É assim. Entendeu agora?

Mas daí o nome da nau está errado. Devia ser balaão.

Sim, me deu dor de cabeça para achar a equação correta para essa questão. Eu sabia o que iam dizer se eu usasse o nome de balaão: lá vai a nau das jumentas! Me incomodava também que a jumenta é fêmea. E mula não dá mais no couro, imagina como eu ia ficar lidando com essa fraquejada toda. Mas era uma iluminação, então eu não podia fazer de conta que não era comigo, eu tinha que aproveitar isso, senão vira maldição. Daí me lembrei da profetiza de mirta falando de uma outra passagem onde aparecia uma mula.

Mas por que tinha que ter uma mula na história? Não entendo.

Pequeno, olha só, me acompanha. A mula é a inspiração que veio do alto. Então eu não posso largar a mula, entende? O que ocê não tá captando? Só que não pode ser a mula, a jumenta do balaão, que é do mau, entende? Imagina que ele era comunista se fica mais fácil ocê entender, uma jumenta comunista. Tá acompanhando?

Sim, e onde entra a próxima mula?

É a mula ligeira do abasalão, respondeu o capitão.

Disse isso e nada mais, como o corvo de poe. E ficou olhando para o pequeno ancião como que à espera de algum comentário, ou elogio que fosse. Pequeno ficou pensativo por instantes. Depois voltou a falar, como se quisesse convencer a si mesmo: se cheguei até aqui não custa ir adiante.

Entendi. Só não vi a importância histórica do abasalão. Não era para significar algo glorioso, grandioso?

Nada menos que o filho de davi. Assim, engatamos a nau na linha direta da sucessão do povo escolhido de deus.

Agora é você que está errado. Se é o filho do rei davi, o nome dele é absalão.

Ocê tem razão. Mas quem é que consegue pronunciar um nome assim? Pra não ficar todo mundo gaguejando pra pronunciar o nome da nau, e depois fazerem chacota, eu decidi facilitar. Usei a língua conge inventada pelo rábula. Tem que tirar o chapéu pra isso daí. Ele deve ter lido uns 30 livros a mais do que nós dois juntos, ele consegue, se quiser, falar conju… conji…conjuc..confuc.. conge… o cacete, quem pode com isso? Daí o rábula, que sempre tem um plano bom para tudo, inventou a língua conge para falar da mulher do marido. Na verdade, pequeno, isso daí é ativismo gramatical, entende, é laço pra nossa língua tropeçar, invenção de comunista que não tem o que fazer e daí eles ficam armando esses laços pra gente meter o pé grande e sair tropicando. Porque era mais fácil falar a mulher do Fulano. Mas não pode, é contra a ideologia de gênero. Porque a mulher do Fulano pode ser o marido do fulano. Essas coisas pra estragar a pureza das nossas criança. Daí a gente tropeça nesse joguinho do politicamente correto e daí se prepara, vem zoeira. Eles não tem como ser contra o que nós fazemos, sempre olhando para deus, nossa família, nossas belas e jovem esposa. Aí eles ficam com inveja, são estragados mesmo, daí resta eles fazer chacota, é isso. Então nós vamos instituir a língua conge a partir de agora.

Estou começando a entender a lógica interna das coisas para chegar no nome da nau. Mas por que temos de instituir a língua conge por causa de balaão, ou abasalão ou dos 39 livros do rábula?

Pequeno, nós temos uma dívida com ele. Os plano dele, tem que reconhecer que foi muito bem executado, entregou a cabeça na bandeja como se diz no jargão da turma dele. Então tem que mostrar reconhecimento pelos serviços prestado. Uma mão lava a outra. Pequeno, eu sei que você desconfia dele, acha que vai nos passar para trás na primeira oportunidade, que ele tem planos também pra nós. Até entendo, ocê já viveu mais que o dobro que eu, viu muito mais coisas. Mas cada coisa a seu tempo. Tá certo, não dar muita linha. Mas não gosto de ingratidão, é por causa dos bons plano dele que nós estamos nessa viagem. Ocê sabe, sei que ocê sabe isso e sabe de muito mais que alguns outros acham que sabem mas que não sabem. Então vamo prestigiar o homem com a língua do conge, não custa nada, e vai render muito falatório. Nesse caso um falatório bom porque vai melhorar a vida das pessoas, vai facilitar um monte, as pessoas vão judiar menos a cabeça por coisas sem serventia e usar mais a inteligência para coisas que enchem a barriga, enquanto isso a gente pode se dedicar mais a fazer coisas que interessam de verdade para nosso futuro.

É justamente no futuro que eu penso, ele tem amigos poderosos e sabe como é…

Não fica alimentando essas ruga com o rábula. Ele veio pra agregar, facilitar nossa vida, enquanto não consegue emplacar os plano de salvação nacional, ele vai facilitando a nossa comunicação, que não tá boa. Cortando os s no meio e no final das palavra, cortando pela metade as propaxita, cortando os r que tão sobrando, porque o importante é a gente se focar nas coisas que tem que ser feita em vez de ficar preocupado em acertar as palavra. É isso que tá atrapalhando a gente. Nós caímo na armadilha dos comunista e ficamo nos esforçando pra usar as palavra culta. E daí não conseguimos fazer nada mais, porque é difícil fazer tudo ao mesmo tempo. E ainda por cima erramo e daí nos tiram pra chacota. Então o rábula vai ter um plano pra mudar isso. E temos que achar um outro nome, porque esse também é propaxita e tá me incomodando a pronúncia, às vez confundo e troco por outra propaxita, tão fissurado eu tô com esse problema.

Está certo, vamos ver como implementar isso. Mas deixa primeiro eu entender como chegaram com a mula de balaão até o rei davi, ou melhor, ao filho de davi.

A história toda não lembro, mas vai um resumo. O irmão de abasalão estuprou a irmã dele, daí ele quis tirar isso daí a limpo, era do mau o irmão, e daí queria matar o irmão, e aproveitar para ficar com o trono. É muito confuso, é polêmico. Uns dizem uma coisa, outros dizem outra coisa. Quem tinha razão? Não sei, depende de quem conta a história. Mas parece que teve mesmo esse incidente desagradável na vida do abasalão, quando que ele armou uma armadilha para matar seu irmão, e também o pai davi, apesar que ele não tinha motivo para matar o pai, mas se fosse para assumir o trono não ia adiantar matar só o irmão, o pai tinha que virar presunto também. Se ele tivesse um amigo rábula, podia bolar um plano para jogar os dois num calabouço, daí ficava com o trono. Decerto ele achou que os dois iam ficar assombrando ele da cadeia, escrevendo cartinhas, daí o povo fica com peninha, todo aquele coitadismo que gente conhece, daí começa o povinho comparar um rei com o outro, sabe como é. Enfim, naquele tempo era assim, matava e tinha uma solução definitiva. Tirando esse pormenor, o que interessa no caso, por isso a homenagem ao nome, e sem esquecer da mula, foi a morte gloriosa dele. Ocê acredita que tiveram que matar ele três vezes?

Como assim, ele não morria, era imortal?

Quase isso pequeno. Agora ocê vai entender todos os nexos. Depois do golpe contra seu irmão e seu pai, abasalão estava fugindo montado em cima de uma mula ligeira. Não há registros de que essa mula também tivesse falado, mas está escrito que era uma mula ligeira, bem assim está escrito. Então isso é importante porque não era uma mula qualquer, ela estava acima das outras mula. Pois bem, na correria a cabeça dele ficou pendurada num galho de carvalho. Qualquer outro estaria morto. Ele não. Daí veio o joabe, que era o chefe dos guerreiros mandados por davi para não matar abasalão. Essa é uma parte difícil de entender: abasalão queria matar todo mundo, mas ninguém queria matar abasalão. Mas joabe não seguiu as ordens de davi, estava cheio de raiva e transpassou o corpo de abasalão com três flechas. Morto? Ele não. E daí vieram mais dez guerreiros para conseguir matar abasalão. Não dá arrepios ouvir essa história?

O capitão repentinamente mostrou-se apreensivo. Olhou em torno para certificar-se de que não havia ninguém por perto. As caixas com as ferramentas de trabalho do ídolo Brilhoso tinham sido embarcadas. Restava um grande caixote num ponto mais distante do cais, guardado por um grupo de homens liderados pelo filho do capitão. Ele fez um enérgico sinal ao grupo, para que subissem logo com o caixote. Pelo esforço dos homens, podia-se notar que o conteúdo era pesado e instável, pois eles tropeçavam nas próprias pernas. Na parte superior da caixa havia uma pequena abertura guarnecida, o que dava um aspecto lúgubre à gaiola. Apesar da distância que os separava, o pequeno ancião sentiu o forte cheiro de mofo apodrecido que saía da abertura do caixote, cheiro que acendeu nele a lembrança de uma missão em que tiveram que abrir uma tumba onde estavam restos humanos em decomposição.

Ao retornar o olhar para o capitão, seus olhos encontraram os do rábula, postado com seus trajes negros do outro lado do convés, que disfarçou sua ânsia de vômito agarrando-se à murada para não cair ao mar. Enquanto desciam ao porão, os homens se atrapalharam com a escuridão e tombaram a caixa de ponta cabeça.

Caralhada dos infernos! o grito cavernoso saindo pela janela gradeada. Tomem tento! Se não sabem o que significa, fiquem espertos com o cu de vocês!

Não sei o que isso significa, disse o capitão olhando de soslaio para o pequeno ancião, vou perguntar para meu filho.

O que foi essa coisa? perguntou o pequeno ancião, não se contentando com a evasiva do capitão.

Pequeno, isso tem de ficar só entre nós dois. Era o eremita do monturo sendo transportado pelos discípulos. Ele não queria ser visto nem que soubessem que embarcou na nau abasalão. Construímos um compartimento secreto para eles lá embaixo. Ele foi gerado nessas coisas obscuras, é assim que se diz? Mas ele não vai incomodar.

Mas ele não gosta de mim e dos meus amigos, replicou contrariado o pequeno ancião. E ainda por cima diz que é por causa dele que não somos cuspidos pelo povo.

Pequeno, temos que saber quem está do nosso lado. Ele fala essas coisas esquisitas que eu mesmo não entendo. Mas ele é chegado no nosso irmão do Norte, isso eu mesmo confirmei. Quem ocê acha que vai nos defender quando os comunista voltarem? Esse povo que está apenas esperando o momento certo para nos cuspir?






GGN

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