Elaine de Azevedo
Imagem por Daniel Kondo

Artigo da série Agronegócio e agrotóxicos versus agricultura familiar e alimentos orgânicos

A agricultura orgânica (AO) pode tanto alimentar o mundo como preservar o meio ambiente e promover saúde com alimentos mais nutritivos e sem venenos. Ao mesmo tempo. Entretanto, algumas mudanças na dieta serão necessárias e é preciso pensar sobre elas.

Estudo de John Reganold e Jonathan Wachter, pesquisadores da Washington University, modelou quinhentos cenários de produção de alimentos para analisar se é possível alimentar com orgânicos uma população mundial estimada de 9,6 bilhões de pessoas em 2050 sem expandir a área de terras que já utilizamos. A pesquisa mostra que a agricultura orgânica pode produzir comida para toda a população mundial se as pessoas assumirem dietas baseadas em plantas, com menor consumo de carne. Isso porque a produção animal orgânica não admite o confinamento e não objetiva a alta produtividade em proteína animal. Já a proposta da produtividade vegetal da AO é, em média, somente 10% a 20% menor que a convencional (para algumas espécies cultivadas é igual e, para outras – pode ser maior – normalmente para as espécies nativas).

Para os pesquisadores, as terras agrícolas existentes, convertidas para a AO, podem alimentar todas as pessoas se elas forem veganas; uma taxa de sucesso de 94% se forem vegetarianas; 39% com uma dieta completamente orgânica e 15% com a dieta ao estilo ocidental baseada em carne.

Mas nós não precisamos de proteína animal? Essa perspectiva agrícola reverbera em uma discussão nutricional que alerta que dietas de alguns grupos afluentes, ricas em proteína animal, estão causando doenças metabólicas e alguns tipos de câncer. Se você ainda não considera o bem estar animal e os impactos negativos da pecuária para o meio ambiente, talvez seja mais fácil pensar na sua saúde; ser saudável, sob o estilo de vida sedentário e urbano, implica ingerir uma dieta baseada em plantas, como fizeram as culturas tradicionais sob climas temperados, mediterrâneos, equatoriais e tropicais. Além disso, há diversas projeções de que uma mudança significativa em direção a uma dieta baseada em plantas será inevitável para que a humanidade continue a se alimentar. O futuro será inexoravelmente vegetariano. Não será uma opção.

Por fim, é importante ressaltar que a agricultura orgânica no Brasil é quase toda formada por agricultores familiares que já contribuem para a produção de boa parte dos alimentos que estão na nossa mesa. É um segmento que tem alta capacidade de produzir alimentos – e saúde socioambiental ao mesmo tempo. Para lembrar disso, a ONU institui 2019-2018 como o Decênio Internacional da Agricultura Familiar, um marco para estimular a promoção de melhores políticas públicas para a agricultura familiar e oferecer uma oportunidade para contribuir com o fim da fome e da pobreza e alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Por aqui, essa informação parece não ter chegado ao planalto central.



*Elaine de Azevedo é nutricionista e doutora em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo e pesquisadora em Sociologias da Saúde, Ambiental e da Alimentação.



Série – Agronegócio e agrotóxicos versus agricultura familiar e alimentos orgânicosA produção realizada a partir de controversas que circulam na mídia pela professora da Universidade Federal do Espírito Santo e pesquisadora em Sociologias da Saúde, Ambiental e da Alimentação, Elaine Azevedo, pretende analisar as dimensões éticas, sociais, econômicas, políticas, ambientais e de saúde implícitas a esses dois sistemas agroalimentares que não encontram sintonia entre si porque têm diferentes objetivos que precisam ser compreendidos. Confira os artigos:

1 A agricultura orgânica e sua capacidade de produzir comida para alimentar a população mundial2 “Agrotóxico não faz mal. A agricultura convencional é a responsável pelo aumento da longevidade e diminuição da fome no mundo” (no ar a partir de 19 de abril de 2019)
3 “Alimento orgânico é uma questão de esquerda e é inacessível para a maior parte da população” (no ar a partir de 26 de abril de 2019)
4 “O agronegócio é que produz comida” (no ar a partir de 3 de maio de 2019)
5 Venenos na agricultura: quem ganha com isso e como diminuir? (no ar a partir de 10 de maio de 2019)
6 “A qualidade do alimento orgânico é igual ao alimento convencional” (no ar a partir de 17 de maio de 2019)




Diplo Brasil

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