Cecília Olliveira, Pedro Prado

“ELE TINHA LEVADO um tiro, aí os vizinhos começaram a socorrer. Eu ia voltar, mas eles continuaram atirando, e vieram com a arma em punho. Eu comecei a botar a mão na cabeça e falar “moço, socorro! É meu esposo”! Eles não fizeram nada. Ficaram de deboche! Meu deus!” O desabafo é de Luciana Nogueira, que há 27 anos dividia a vida com Evaldo Rosa, e que viu tudo acabar em meio a mais de 80 tiros disparados pela “mão amiga” do Exército, na tarde deste domingo. Luciana quase perdeu também o padrasto, que segue internado. Um homem que tentou socorrer a família também foi baleado.

O chão da Estrada do Camboatá, onde dois blindados do exército estavam posicionados, foi marcado por uma, duas, três, cinquenta, setenta marcas de tiros. No interior do carro é possível contar ao menos 11 tiros no banco do motorista. No lado do carona, outros seis.

Antes das vítimas virem à tona dar sua versão dos fatos, o Exército cravou que os militares se depararam com um “assalto em andamento“. “Ao avistarem a patrulha, dois criminosos que estavam a bordo de um veículo atiraram contra os militares, que por sua vez responderam à injusta agressão”. A nota mentirosa das Forças Armadas não encontrou eco no que mostra a perícia: nenhuma arma foi encontrada com a família, que ia a um chá de bebê. O delegado que esteve na cena disse que “tudo indica” que os militares confundiram o carro. Em nota divulgada hoje, o Exército diz que emitiu seu primeiro parecer “com base em informações iniciais transmitidas pela patrulha”. Ou seja, endossaram uma versão farsante dos soldados, sem checar o que de fato houve, e defenderam a versão sem apuração.

Hoje o Comando Militar do Leste informou que 10 dos 12 militares presentes na ação foram presos.

Quem vigia o vigia?


O fato de divulgarem uma nota com uma versão falsa dos fatos logo de início levanta preocupações também sobre as investigações, que ficarão a cargo do próprio Exército. Isso graças a uma lei (a 13.491) sancionada por Michel Temer em 2017 e que prevê que crimes cometidos por militares em serviço passam a ser julgados pela Justiça Militar. Até hoje, nenhum membro das Forças Armadas foi sentenciado por crimes contra civis.

E não é só. No fim de 2017 houve uma operação no Salgueiro, em São Gonçalo, conhecido como o caso dos sete mortos que ninguém matou. A operação da polícia civil e das Forças Armadas foi marcada por desencontro de informações, depoimentos conflitantes, vítimas que não haviam sido ouvidas mas que a imprensa achou (e ouviu). E é isso: até hoje, nada. As investigações – que estão a cargo do exército – não andam. O conjunto da obra fez com que a Defensoria Pública do Rio denunciasse o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.

Desde 2010, 32 civis foram mortos pelo Exército no Rio de Janeiro. Há ainda casos de mortes não registradas e nem investigadas. Nenhuma condenação e apenas um caso chegou de fato a julgamento na Justiça Militar: uma ação do Exército realizada em 2015, no Complexo da Maré. Na época, as Forças Armadas ocupavam a Maré há quase um ano, quando um carro com cinco jovens que voltavam de um bar após assistir um jogo do Flamengo foi, também, fuzilado. Todos ficaram feridos, inclusive um sargento da aeronáutica. Vitor Santiago ficou paraplégico.

The Intercept Brasil

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