Mauro Lopes e Pablo Nacer, do 247 - Um olhar detido para as estatísticas geradas pelo sistema de busca do Google, que são consolidadas numa ferramenta denominada Google Trends (algo como Google Tendências, que mensura a quantidade de buscas relacionadas a um tema ou pessoa) pode ser um bom indicativo para verificar que algo muito estranho - uma fraude, ao que tudo indica - aconteceu no primeiro turno das eleições.

Que fraude foi essa? Tratou-se, na verdade, da combinação de duas ações, uma quanto à forma e outra quanto ao conteúdo.

Quanto à forma, estruturou-se uma operação ilegal e clandestina patrocinada por empresas para financiar a disseminação em massa de mensagens pelas redes sociais, especialmente em grupos de Whatsapp. Esta operação veio à luz em 18 de outubro em reportagem da jornalista Patrícia Campos Mello sob o título “Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp” (leia aqui). A operação é ilegal porque não registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e por ser financiada por empresas, o que é terminantemente vedado pela legislação eleitoral.

Quanto ao conteúdo, foi uma operação de disseminação de notícias falsas (fake news) contendo acusações ao PT e especialmente a Lula, Fernando Haddad e Manuela D’Ávila com todo tipo de difamação e calúnias com o intuito de prejudicar a candidatura petista e alavancar a de Jair Bolsonaro.

Veja o gráfico abaixo. Para que o efeito visual fique evidente, reunimos os dados de pesquisas referentes a Jair Bolsonaro, Fernando Haddad, Ciro Gomes e Lula nos últimos doze meses. O valor 100, na semana que inicia no domingo do primeiro turno (7/out), é o máximo de busca relacionada a um dos quatro políticos neste período.

Assuntos como a prisão do ex-presidente Lula (90) e a facada em Jair Bolsonaro (86), que mobilizaram todo o país e justificam qualquer aumento orgânico nas buscas, ficaram abaixo do pico da eleição, que iniciou na semana seguinte ao #EleNão (49) e teve um aumento vertiginoso (80), chegando ao ápice (100) em uma semana que não houve nenhum fato novo público na campanha. Mas havia um “fato novo” no esgoto subterrâneo na campanha de Jair Bolsonaro que pode ter alterado os rumos da eleição.



Basta ver as tendências de voto para o segundo turno, que dizem muito sobre as rejeições aos candidatos, apresentadas no gráfico abaixo. Após Fernando Haddad abrir oito pontos de diferença em relação a Jair Bolsonaro no final de setembro e os dois empatarem tecnicamente no início de outubro, as intenções de voto em Haddad despencam na semana da eleição, enquanto Bolsonaro disparou e alcançou o seu maior índice até então, numa convergência com as curvas do gráfico do Google Trends.



Veja agora o gráfico comparativo entre Bolsonaro e Haddad. Observe a curva de Bolsonaro. Ela despenca literalmente depois da revelação da fraude na reportagem da Folha em 18 de outubro, com uma indicação clara de que o movimento era artificial e o esquema ilegal entrou em colapso.



Esta sequência de gráficos não contém prova de crime. É apenas a reunião de algumas evidências. As provas estão nas reportagens de Patrícia de Campos Mello e devem (ou deveriam) estar nas investigações das autoridades.

Se não são provas, os gráficos indicam claramente: há algo de podre no reino das mídias sociais da campanha de Bolsonaro.

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