Fernando Brito

Não se trata de teorias conspiratórias, é um fato.

A entrevista do Comandante do Exército, General Villas-Boas, é, em si, uma afronta à Constituição.

Não lhe cabe julgar, em lugar do Judiciário, quem pode disputar ou não pode disputar as eleições.

“Não se trata de fulanizar. O pior cenário é termos alguém sub judice, afrontando tanto a Constituição quanto a Lei da Ficha Limpa, tirando a legitimidade, dificultando a estabilidade e a governabilidade do futuro governo e dividindo ainda mais a sociedade brasileira. A Lei da Ficha Limpa se aplica a todos.”

A que divisão o general se refere? Quer dizer que a divisão que deixa de lado e exclui ao menos 40% dos eleitores é inaceitável, mas as soluções que trazem todas as vontades para decidirem no voto qual é a majoritária é abençoada pelas Forças Armadas?

A entrevista, num momento de gravidade como este, deveria se limitar ao óbvio, à prudência, mas se aventura até a declarações simpáticas ao  candidato Bolsonaro que, com as ressalvas de imparcialidade insuficientes que faz, é descrita como a de alquem que tem  “apelo no público militar, porque ele procura se identificar com as questões que são caras às Forças, além de ter senso de oportunidade aguçada.

O general Villas-Boas agora é juiz de senso de oportunidade aguçado? O que seria este senso, chamar refugiados de “escória do mundo”, defender o fuzilamento de brasileiros com outras visões ideológicas, bater continência à bandeira americana numa churrascaria  ou propor a saída do país da ONU, em nome da qual o Exército exerceu tantas missões no exterior?

Quando a ONU, entretanto, fala dos nossos assuntos e nos cobra fidelidade aos tratados que assinamos, é “tentativa de invasão da soberania nacional”?

O General Villas-Boas, que mereceu tanto respeito de todas as correntes políticas por resistir, mesmo com enormes problemas de saúde, no cargo de comando para assegurar o equilíbrio da instituição militar parece, afinal, ter se rendido às pressões que vêm da baixa oficialidade e da parte do comando que se associa a “soluções”  extra-constitucionais como as defendidas anteontem pelo General Hamilton Mourão.

Aliás, parece que já se quebraram os valores centrais de uma força militar: a hierarquia e a disciplina, pois quem chegar agora de outro planeta há de jurar que é de Mourão o comando. Ou, pior ainda, daquele aos quais os quartéis estão sendo abertos para verdadeiros comícios.

Só isso explica que o seu comandante capitule diante deste quadro insano, onde justificam até um “autogolpe” militar.

Daí para se quebrar o respeito à vontade eleitoral da população e à Constituição que diz que é do povo que emana o poder, é só um pulinho.  Que é um salto perigoso e no escuro, que pode levar à divisão nas Forças Armadas e a uma aventura da qual os militares há 30 anos vinham se recuperando.


TIJOLAÇO

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