Bolsonaro recebeu ódio porque planta ódio: um raciocínio equivocado



Mauro Lopes

Há um raciocínio recorrente ao redor da facada em Bolsonaro segundo o qual "Um cara que prega o ódio recebeu uma resposta de ódio". Não foi este o discurso dos candidatos a presidente de esquerda nem das lideranças desses partidos, ressalte-se. Mas tem sido utilizado por pessoas com relativo destaque no “hemisfério” da esquerda e tem razoável disseminação nas redes sociais. É um enorme equívoco, um erro brutal.

Três razões apontam para o equívoco de tal retórica: 1) O raciocínio não tem sustentação na história; 2) É um pensamento que reduz a esquerda a um “padrão Alckmin” de civilização; 3) Aos pobres, ao povo, interessa paz e democracia e não a via do confronto aberta pelo raciocínio.

1) O raciocínio não tem sustentação na história - De fato, Bolsonaro tem um discurso assentado no ódio. É estruturante de seu posicionamento político. Ele alimenta-se do ódio, do medo, da sensação de insegurança. Vai aos palanques e ameaça metralhar, pega crianças no colo para ensiná-las simular usarem um revólver contra “bandidos”, celebra os ataques a seus adversários, defende a ditadura, a tortura e seus amigos torturadores. Tudo isso é certo. Mas não tem qualquer relação com a facada que recebeu.

Pessoas em grande evidência, que catalisam os sonhos, angústias, inseguranças de um povo são polos de atração. Atraem admiração e repulsa, revolvem desejos e alimentam esperanças. Cutucam, provocam. E acabam por atrair contra si pessoas com grande instabilidade emocional. Por isso sofrem atentados e em alguns casos são assassinadas.

John Lennon pregava o ódio e recebeu o ódio? Mahatma Gandhi fazia o mesmo?

Lennon foi assassinado em 8 de dezembro de 1980 quando chegava ao prédio em que morava em Nova York por Mark Chapman, que lhe desferiu cinco tiros. Chapman afirmou ter matado Lennon devido às várias afirmações do cantor sobre Deus e religião, que ele considerava ofensivas.

Gandhi caminhava para sua oração noturna em Nova Déli quando Nathuram Godse desferiu três tiros à queima-roupa contra um dos maiores líderes pacifistas da história. No julgamento, Godse, um nacionalista hindu com grave desequilíbrio emocional, justificou assim o assassinato: "Pensei ser meu dever dar fim à vida do chamado pai da nação que desempenhara um papel preeminente na realização da vivissecção do país".

A declaração de Adelio Bispo de Oliveira depois de preso pela agressão a Bolsonaro é um eco de Chapman e Godse. Alegou cumprir uma “ordem de Deus”.

Portanto, a agressão a Bolsonaro não é consequência de seu discurso de ódio, mas de sua enorme evidência pública com uma inserção social que mexe e remexe com as pessoas.O mesmo acontece com Lula, que igualmente desinstala emocionalmente milhões de pessoas. Bolsonaro foi esfaqueado, mas poderia ter sido Lula. Os dois são catalisadores de sentimentos profundos do país.

A facada é muito diferente dos atentados contra a caravana de Lula no Paraná em março passado. Lá, não havia um indivíduo abalado emocionalmente, mas grupos de pessoas de extrema-direita, participantes de entidades de ruralistas e outras, apoiadoras de Bolsonaro, que de maneira articulada organizaram os atentados com objetivos políticos definidos. Havia ódio na motivação? Sim. Mas havia cálculo racional. 

2) É um pensamento que reduz a esquerda a um “padrão Alckmin” de civilização -  Quando houve os ataques à caravana de Lula no Paraná qual foi a reação de Geraldo Alckmin? "Acho que eles estão colhendo o que plantaram". Este é o “padrão Alckmin” de civilização. A esquerda pretende rebaixar-se a esta visão de mundo?

Este raciocínio, um lugar-comum na direita e em largas fatias da população, “teve o que mereceu” está assentado numa visão conservadora e ultrapassada do cristianismo, recuperada pelos católicos ultras que fazem oposição a Francisco e a largas fatias do pentecostalismo e do neopentecostalismo. Funciona assim: quem “peca” (no caso, quem “planta o ódio”) irá sofrer uma punição divina por seu “pecado” (no caso, o ódio).

No fundo, as justificativas de Chapman (Lennon) e Adélio (Bolsonaro) estão lastreadas no mesmo imaginário -eles consideraram-se os “anjos punidores” a serviço de Deus.

É possível entender que Alckmin raciocine assim, afinal ele está ligado a uma das organizações mais reacionárias do catolicismo, a Opus Dei.

Mas a esquerda pretende nivelar-se por isso?

3) Aos pobres, ao povo, interessa paz e democracia e não a via aberta do confronto pelo raciocínio do “quem prega ódio recebe resposta de ódio” - A lógica embutida no discurso é a da confrontação, a do acirramento do ambiente político, que joga com a ruptura. Não é por outro motivo que o general Hamilton Mourão, um militar com o perfil de um Pinochet, apressou-se em culpar o PT pelo ataque a Bolsonaro e arrematou: “Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”.

Ele tem razão. É no campo da direita que estão os profissionais da violência no país ao longo da história. Não nos iludamos. O Brasil nunca viveu experiências revolucionárias como a francesa de 1789 ou a russa de 1917. Em nosso país, o povo só teve uma vida um pouco melhor nos momentos de democracia e paz.

Ao povo interessam eleições livres e democracia. Das 11 eleições presidenciais diretas desde a redemocratização em 1945, as forças democráticas venceram a direita em sete. E foram os melhore tempos para o povo, com destaque para os quatro (ou três e meio) governos do PT.

A lógica da escalada do ódio interessa a quem tem condições de golpear a democracia. O povo e as esquerdas serão golpeados.

Por isso, a posição de Lula, Haddad, Dilma, Gleisi, Ciro, Boulos foi unânime: condenação ao ataque e solidariedade à vítima (Bolsonaro). Ao campo democrático e à esquerda não interessa um raciocínio que falseia a história, que nos rebaixa ao padrão civilizacional pretendido pela direita e que pode ameaçar a democracia. 


Brasil 247

Postar um comentário

0 Comentários