Katarina Peixoto: Virada de Lula no Rio Grande do Sul é resposta da classe média letrada às consequências do golpe


Ricardo Stuckert

O que significa Lula liderando no RS?

Por Katarina Peixoto, especial para o Viomundo

As pessoas não são loucas. É preciso entender que o que está acontecendo faz sentido.

A classe média letrada entrou na resistência e sabe que, fora da besta fascista, o que está aí não é exatamente algo moralmente superior ao PT e nem a Lula.

E que, ao contrário desses, chegou ao poder de maneira ilegítima, e empurrando as suas vidas e o país para o abismo.

A última pesquisa do Ibope/RS, publicada há dois dias, revela um quadro curioso, em um estado onde o PT não vence eleições nacionais desde 2002.

O candidato petista, Luis Inácio Lula da Silva, atualmente encarcerado, lidera as intenções de voto declaradas para presidência da República, no RS.

O fato é surpreendente por várias razões.

E uma delas é esta: Fernando Haddad, vice de Lula e candidato, caso o padrão Lava Jato prevaleça, no judiciário brasileiro, a substituí-lo, tem por enquanto apenas 4% de intenções de voto.

Sem Lula na pesquisa, 33% dizem votar branco, nulo ou não terem ainda decidido. A resistência ao petista também caiu.

Lula, como um ausente que pontua, faz, sem que seu nome esteja escrito, 33% do eleitorado.

A transferência de votos, em que pese seja provável e intuitiva (já está em curso e averiguada em outros levantamentos), não é o que chama a atenção.

O que chama a atenção é a recuperação do PT no Rio Grande do Sul, um estado em que o partido não elege seus candidatos à presidência da República desde 2002.

Por que o RS virou?

Segundo a última pesquisa, e as outras mais recentes, o que vem ocorrendo não tem explicação fácil.

O país nunca teve um candidato popular, ex-presidente, enjaulado, como o desfecho provisório de um processo de ruptura que piorou a vida da imensa maioria da população.

Buscar repetições históricas não ajuda a entender o que está acontecendo, que passa longe das narrativas midiático-familiares.

O PT hoje tem 29% da preferência eleitoral nacional. O partido cresceu e tem chances de avançar nos parlamentos.

Este quadro é totalmente novo, em relação ao último pleito eleitoral, onde, na onda da ruptura de 2016, figuras como João Dória ainda gozaram de cabimento eleitoral, Pezão foi eleito e o inacreditável José Ivo Sartori se tornou governador dos gaúchos sem ter apresentado um só projeto de governo.

Nada prometiam, essas sumidades, porque surfaram na onda do ódio e agora, com a maré das opiniões seca pela entrega de uma hecatombe, o que entregam e ofertam aos seus fiéis é um delinquente da reserva, de baixa patente e nenhum caráter, pronto para fazer qualquer negócio ao custo da democracia, não apenas como modo de governo, mas, sobretudo, como valor na sociedade.

O Rio Grande do Sul, assim como o Rio de Janeiro, são os estados cuja marca do PMDB é a um só tempo irredutível e intuitiva: trata-se de um padrão predatório e desastroso, incapaz de formular e de levar a cabo qualquer programa de governo que não seja excludente, concentrador e indolente, em termos tributários.

E os resultados, para muito além das querelas judiciais em torno de corrupção, que servem de explicações aos igrejeiros dos colunistas midiáticos, são atraso no pagamento de salários de servidores, aniquilação do papel do estado e entrega dos patrimônios imateriais (ciência, pesquisa, cultura, inovação, educação superior e básica) e materiais a grupos privados de interesses e a cidadania à miséria.

Enquanto no Brasil a crise se fez sentir de maneira diferida e em etapas, no Rio e no Rio Grande do Sul o que houve e vem ocorrendo é depressão econômica e falta de perspectivas.

É um quadro sombrio só comparável ao grau de ódio e de desinformação levados a cabo pelos dois maiores conglomerados midiático-familiares do país.

Pode ser uma coincidência, mas a política não existe no acaso.

O experimento usurpador e seus candidatos caminham para a ruína eleitoral. E nisso a democracia é imbatível.

É raro que as urnas respeitem quem as vilipendia. Não se vota em golpista. Nunca se votou.

Não tem consequência mais necessária do processo golpista que ter um cafajeste de baixa patente como candidato preferível.

Ele é o único candidato que pode preencher os requisitos arregimentados, 24 por dia, em uma campanha de desestabilização sem precedentes em nossa história, para consumar o golpe.

Não tem cabimento ter surpresa e nem assombro. Quem não se assombrou com o espetáculo daquele domingo de abril de 2016, não tem razão alguma para se surpreender com a sua obra fétida.

A surpresa, no entanto, existe e resiste.

Em que pese seja inconcebível a história de contrafactuais, é muito difícil que, com a atual e sem sinais de recuperação, recessão econômica e com o atual recrudescimento da crise mundial, o PT e o governo Dilma tivessem a atual popularidade e que Lula estivesse, como está, a caminho da presidência, de novo (e se o direito voltar a valer, o que é sempre algo que deve ser esperado e pelo que vale lutar), ou quem ele indicar.

Um olhar atento e letrado sobre o que está ocorrendo no Brasil pode dizer que o que se passa é que a Operação Lava Jato, com seu padrão de arbitrariedade a olhos vistos, com a autorização para abusar da ilegalidade, produziu um desastre tal que Lula se tornou uma vítima, assim como Dilma.

Ela, acostumada a se agigantar na adversidade, tornou-se uma liderança popular que não foi requerida e para a qual não parecia afeiçoada, antes do processo golpista.

Lula, que tinha ambições internacionais, voltadas ao enfrentamento de temas humanitários, como a fome no mundo, protagoniza hoje uma campanha de massas mais potente que aquela de 1989.

Segundo esse olhar, os abusos da reação conservadora e racista acarretaram um fortalecimento da esquerda.

Há uma outra explicação possível, também bastante intuitiva.

Há aproximadamente 20 milhões de brasileiros hoje em contato familiar com o processo penal, como um dos únicos, senão o único, elo de relação com o poder estatal.

Este dado, segundo Raúl Eugênio Zaffaroni, membro da Corte Interamericana de Direitos Humanos , torna intuitiva a percepção de que há algo errado sendo cometido contra Lula.

A injustiça judicial, no Brasil, é muito clara para quem não possui reconhecimento no âmbito do direito e das oportunidades.

Há algo dessa percepção na fala do candidato Ciro Gomes, que reitera um compromisso de alforria creditícia, para mais de 60 milhões de brasileiros.

O quadro entregue pelos que iriam salvar o país é o de um pesadelo: há mais de 60 milhões sem crédito e endividados, há mais de 14 milhões desempregados, há 20 milhões vinculados a acusações penais.

E os comandantes deste espetáculo são o poder judiciário mais caro do mundo, um sistema judicial sem accountability, uma cortina de ferro midiático-familiar sem paralelo no mundo e esta joinha da moralidade: o experimento usurpador e sua turma barra pesada no parlamento mais medonho desde o penúltimo golpe.

A passagem a ser levada em conta nessa mudança de preferência eleitoral não é a da tomada de consciência de que Lula é um emancipador da opressão, vivenciada em um cotidiano de trabalho.

Esse tipo de coisa se espera onde há democracia, onde o espaço para demandas por liberdade permitem traços reflexivos, em busca de padrões elevados de expectativas.

Também não parece ser que Lula, hoje, seria um mal menor, a ser evitado, diante da besta fascista.

A injustiça judicial ser intuitiva é uma explicação válida, mas parcial. Os excessos do arbítrio e da mídia partidária também são intuitivos, para quem é letrado.

Há no entanto um fenômeno que parece tão sólido como os 33% que se recusam a jogar um jogo sem regras para todos: a experiência vívida de anos em que ter direitos, oportunidades e horizonte era não somente possível, mas intuitivo: era real, cotidiano.

A democracia se alimenta das sutilezas e também da possibilidade da indiferença, ou da conquista do dia a dia.

Os níveis de desemprego, a queda nas matrículas nas universidades, a explosão nos níveis de homicídios parecem andar de par com a usurpação da representação política.

Essa relação pode não ser percebida da mesma maneira nos níveis variados de intuições e sentimentos, mas parece tão sólida como o medo de andar nas ruas, a desconfiança frente a instituições assimétricas na relação com a cidadania, a perda de direitos, a discrepância entre o que é mostrado nas televisões e o que é vivido na relação com bancos e policiais.

Não há uma onda lulista, nem a imensa maioria dos eleitores brasileiros é fanática.

Houve uma onda reacionária, golpista, que está dilapidando o patrimônio nacional e arruinando a ordem constitucional.

E é esta onda que está, hoje, reduzida ao seu núcleo significativo, em todo o seu esplendor abjeto (oligarcas autoritários, rafameia torturadora, obscurantistas).

Não são apenas os pobres e muito pobres que estão sentindo os efeitos da desgraça levada a cabo pela agenda moralizadora dos delinquentes autorizados ao arbítrio.

Os artistas, os intelectuais e as minorias, também.

Esta guerra política começou no núcleo duro da vida institucional do país.

Depois, foi arregimentada e dirigida pela cortina de ferro midiático-familiar, que produziu os heróis da ignorância e do ódio.

E o avanço do processo desestabilizador contou com uma omissão perplexa e com o assombro da classe média esclarecida e universitária.

Agora, essa omissão acabou e a consumação do que era uma narrativa contra o golpe se tornou real: queriam prender o Lula, para ele não poder ser candidato.

A coerência narrativa foi lastreada pela pedagogia enfadonha dos justiceiros partidários: querem barrar o povo de chegar ao poder pelo voto.

E isso não é narrativa. É fato.

O que há, portanto, é uma resposta ao golpe. As pessoas não são loucas.

É preciso entender que o que está acontecendo faz sentido.

Se não tivessem usado o expediente judicial e a retórica obscura do fiscalismo ideológico, talvez não tivessem conseguido que as classes médias letradas tivessem se omitido com nojo ou ceticismo o suficiente para a agenda golpista avançar.

O preço desse expediente parece ter sido tocar em pontos muito significativos no cotidiano de 20 milhões de pessoas (para quem nada se tem e o pouco que tinham, se perdeu), que só são vistas pelo poder estatal como bandidas e perigosas.

E o fato é que a ilegitimidade desse expediente não tardou a convocar os que estavam omissos a reagirem contra a usurpação de direitos, oportunidades e expectativas.

Uma explicação é portanto esta: a classe média letrada entrou na resistência e sabe que, fora da besta fascista, o que está aí não é exatamente algo moralmente superior ao PT e nem a Lula.

E que, ao contrário desses, chegou ao poder de maneira ilegítima e está empurrando o país para o abismo.

Nesse caminho, a candidatura Haddad e Manuela é água no moinho dessa entrada no jogo, daqueles que estavam calados, omissos ou desconfiados.

A situação da direita nunca foi tão ruim. O que lhes resta é a besta fasci, o delírio financista e o autoritarismo obscurantista.

É o conjunto dessas coisas que explica a virada no RS, um estado de classe média raivosa, contra o cavalo de tróia golpista.

Viomundo

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