A batalha sem fronteiras contra o gás lacrimogênio | Anna Feigenbaum




Um índio respira gás de uma bomba atirada pela polícia, diante do Congresso Nacional brasileiro, em abril de 2017

Nos tempos militarizados que vivemos, ele converteu-se em arma permanente para controle das multidões. Enfrentá-lo — da produção ao uso por forças policiais — está se convertendo num movimento mundial

Por Anna Feigenbaum | Tradução: Inês Castilho




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Este texto é uma adaptação do livro

“Tear Gas: From the Battlefields of World War I to the Streets of Today”

[Gás Lacrimogêneo: dos campos de batalha da I Guerra Mundial às ruas de hoje]

Ainda sem edição em português





Em todo o mundo as pessoas inventam, adaptam e trocam técnicas de resiliência e resistência ao gás lacrimogêneo. Fazendo isso, elas cuidam umas das outras. Transformam essa arma numa ferramenta coletivizadora. Há uma crescente solidariedade transnacional para a resiliência ao gás lacrimogêneo, ajudada pelas mídias sociais e tecnologias móveis que ajudam manifestantes a empregar remédios que aliviam, tipos de máscaras de gás e técnicas de reversão de bombas. Exibindo o que o pesquisador dos movimentos sociais Gavin Grindon chamou de “diplomacia cultural de base”, essas dicas são tuitadas da Grécia a Nova York, da Palestina a Ferguson, do Egito a Hong Kong.



Em lugares como Bahrain e Palestina, o uso generalizado e até mesmo diário do gás lacrimogêneo tornou essa arma química uma parte da vida. Como forma de exibir e processar coletivamente esse trauma, as pessoas às vezes transformam o recipiente do gás lacrimogêneo em outros objetos. Atos de raiva, tristeza e memória emergem como práticas artísticas. Por exemplo, no Bahrain, as pessoas projetaram um trono feito de embalagens de gás lacrimogêneo para significar o papel da família real na repressão de protestos pela democracia. Na Palestina, recipientes desse gás têm sido usados como ornamentos de árvore de Natal para enviar mensagem comemorativa aos Estados Unidos sobre o papel do seu gás lacrimogêneo e sua indústria armamentista na violência nos territórios ocupados. Em 2013, imagens de um jardim palestino feito de plantas criadas em cascos vazios de gás lacrimogêneo viralizaram, escolhidos pelos meios de comunicação mainstream como uma imagem de esperança e resistência silenciosa. Contudo, como apontou Elias Nawawieh no +972Magazine, independente das notícias, fotos do Twitter e posts no Facebook, um túmulo foi construído como peça central do jardim. Traz uma imagem translúcida de Bassem Abu Rahmah, que foi morto pelo exército de Israel em 2009 depois de ser atingido no peito, a curta distância, por uma granada de gás lacrimogêneo.

Em 2013, o movimento Occupy, do parque Gezi, na Turquia tornou-se um ponto de inovação, um lugar onde as pessoas projetavam, adotavam e adaptavam novos modos de resistência e resiliência ao gás lacrimogêneo. Lá estava Ceyda Sungur, a mulher de vestido vermelho, pulverizada com spray de pimenta a curta distância e transformada em um ícone do movimento. Havia bailarinas dançando com saias rodopiantes e de cores vivas que contrastavam com a dureza das máscaras de gás de cobertura total que usavam quando giravam. Pinguins usaram máscara de gás para simbolizar o fracasso da mídia na cobertura da violência policial, depois que uma emissora de televisão tentou bloquear notícias sobre o levante passando um documentário sobre pinguins ao invés de imagens dos protestos. Christian Gubar escreve que “tanto como mercadorias políticas como objetos de cena, óculos e máscaras de gás foram abraçados por sua estranha teatralidade, falando alto sobre a grotesca banalidade de viver sob nuvens de gás nocivo”.



O uso desenfreado de gás lacrimogêneo contra manifestantes e as agressões com spray de pimenta à queima-roupa são tão comuns hoje quanto eram nos anos 1990 e início dos 2000, com seu uso aumentando rapidamente no Oriente Médio e África Oriental. Como gravações de vídeo na década anterior, a emergência das mídias sociais digitais significa que imagens de violência policial contra manifestantes podem circular pelo mundo em segundos. Pessoas diretamente atingidas com aerosol CS, spray de pimenta e outros gases lacrimogêneos fazem fotos e vídeos que viajam pelo Twitter, Facebook e YouTube, espalhando histórias frequentemente antes mesmo da divulgação de qualquer reportagem dos noticiários oficiais. Essas imagens podem tornar-se ícones de movimentos.

O movimento Occupy — de 2011, nos Estados Unidos — ficou marcado por várias dessas imagens icônicas de gás lacrimogêneo. Primeiro foram as jovens enroladas em plástico que protestavam desarmadas e pacificamente. Imagens dessa ação viralizaram, replicadas pela mídia social e mainstream. Depois foi o aposentado Dorli Rainey, que recebeu spray diretamente na cara durante o Occupy Portland.

Esses objetos eram tanto realidade material quanto simbolismo. Manifestantes do parque Gezi emprestaram, traduziram e reproduziram instruções para fazer uma máscara de gás com uma garrafa de plástico, e para usar ingredientes domésticos como remédios para os dolorosos efeitos do gás lacrimogêneo. Apareceu um Homem Talcid depois de rumores de que Talcid, um medicamento líquido para aliviar inflamação do estômago, podia ajudar a melhorar os efeitos do spray de pimenta. Ele surgiu no lugar, distribuindo o remédio como uma unidade móvel de socorro viva, e tornou-se um símbolo da resiliência e generosidade do movimento – representado em estênceis e esboços que circularam muito além do parque ocupado.



Médicos de rua



Nas ruas inundadas de gás, uma variedade de lojas, tendas de calçada, apartamentos térreos e até mesmo um hotel tornaram-se estações médicas de campo improvisadas, fornecendo remédios e tratamentos aos manifestantes. Nesses pontos convergiram trabalhadores de saúde e pessoas com conhecimento básico de primeiros socorros. Esses voluntários da medicina com frequência têm um entendimento mais claro e acurado do impacto no mundo real dessas armas “menos letais” do que cientistas que fazem testes em laboratórios estéreis. É aqui, sob as lonas da arquitetura de protesto e nas clínicas, em meio ao caos que essas armas provocam intencionalmente, que as contusões e sangramentos, asfixia e vômito, a incapacidade de respirar, as concussões e a paralisia são imediatamente sentidas.

No local de protesto, a dor não é uma conta de toxidade ou um limite percentual. “Menos letal” não é mais um termo técnico mas uma visão de quanto tormento um corpo pode suportar, de quão perto alguém pode chegar da morte sem morrer. Medidas em experiência humana, as estações de medicina de campo das manifestações podem tornar visível a realidade do controle de rebeliões. Seus modos de ver e conhecer as lesões corporais podem nos levar além das chamas e da fumaça das telas de televisão. Eles podem fornecer relatos muito mais acurados e detalhados no local do que o expresso nos registros hospitalares. Seu testemunho pode ser mobilizado para desafiar os testes clínicos produzidos por cientistas pagos por militares.



Deter os carregamentos de bombas

As cadeias de exportação que possibilitam as vendas das armas menos letais são também frequentemente alvo de campanhas que buscam intervir naquilo que a Anistia Internacional chama de “comércio de tortura”. Num ato de desafio que inflamou os sindicatos no Egito, a trabalhadora da alfândega Asma Mohammed, membro do comitê de seu sindicato de mulheres, recusou-se a processar o embarque de sete toneladas de gás lacrimogêneo da Combined Systems In. De acordo com a Liga dos Resistentes de Guerra, que a homenagearam com seu Prêmio de Paz 2012, Mohammed recorda, “Eu disse ‘Não, eu recuso – porque não quero ser a causa da dor ou morte de alguém’. Então, em solidariedade a mim ou à causa, meus colegas disseram, ‘Não, nós também não vamos trabalhar nisso’.”

Em 2014, o Observatório de Bahrain (Bahrain Watch) lançou a campanha #stoptheshipment (#pareoembarque) tendo como alvo a indústria coreana Dae Kwang Chemical, que havia contratado o fornecimento de mais do que um milhão de caixas de gás lacrimogêneo ao Bahrain – um pais onde mais de 40 pessoas morreram e milhares foram feridos em consequência do gás lacrimogêneo. A campanha foi feita junto com a Anistia da Coreia do Sul, sindicatos coreanos e ativistas locais, assim como jornalistas de publicações que pautam a imprensa tais como o Financial Times e o New York Times. Essas conhecidas táticas foram combinadas com o uso sofisticado, contemporâneo das mídias sociais, incluindo uma hashtag cativante baseada em ações locais, retweets cronometrados e um site específico da campanha. Eles conseguiram pressionar o governo sul-coreano a embargar o gás lacrimogêneo para o Bahrein, impedindo o carregamento da Dae Kwang.



Engajados em ação direta

Outro modo de resistir a ações excessivas de controle de levantes e exploração de protestos é engajar-se em ações diretas que incidem em locais onde são feitos treinamento de forças policiais transnacionais.

Em outubro de 2013, a campanha Facing Tear Gas (Enfrentando o Gás Lacrimogêneo) reuniu organizações para protestar contra a Urban Shield, uma sessão anual da equipe do SWAT e exposição de vendas de equipamentos de segurança que promove o uso de táticas militares para o policiamento de protestos. A campanha construiu uma coalizão de mais de 30 grupos locais em Oakland, incluindo a Fundação do Oscar (Oscar Grant Foundation) e o Centro de Recursos e Organizações Árabes (Arab Resource and Organizing Center). No ano seguinte eles voltaram mais organizados, mais informados e determinados a fazer a diferença. Criaram petições online, fizeram reuniões intensas para articular a coalizão com membros da Câmara Municipal, adotaram uma estratégia de mídia antecipada, e realizaram uma manifestação diante do local da exposição que atraiu centenas de pessoas às ruas. Seus esforços valeram: a delegacia do condado de Alameda anunciou que o evento não seria mais realizado no Hotel Marriot, e o prefeito Jean Quan disse declarou que o município de Oakland não renovaria contrato com a Urban Shield. Essa foi uma pequena vitória numa luta muito maior para mudar políticas e práticas de policiamento.

Uma parte chave para o sucesso da campanha Stop Urban Shield é às vezes chamada “going for the low-hanging fruit”, ou “ir pelo fruto mais baixo da árvore”, numa tradução livre. Tentar ir contra o uso da força pela polícia ao nível da política governamental ou mesmo nas sedes das corporações pode ser provavelmente lento e requerer ação legal. Exposições e eventos de treinamento SWAT realizados em público ou em espaços a que o público tem acesso (como saguões de hotéis) são frequentemente mais fáceis de atingir. Eles oferecem um local de convergência para manifestações, do ponto de vista da arquitetura e do território. Do mesmo modo, como locais onde produtos para policiamento são exibidos e vendidos, as exposições oferecem aos ativistas a oportunidade de tornar visível o secreto mundo do comércio de armas. Como evidenciou a ampla circulação do vídeo da exposição Shane Bauer 2014 da Urban Shield, é possível acreditar em informações comprováveis no mundo jornalístico de notícias falsas de hoje.



Além do mais, as mídias sociais mudaram as relações públicas, tornando o manejo da imagem um processo de duas mãos, no qual a influência do público é maior do que nunca. Essa transição está expandindo o campo do ativismo com base na imagem, à medida em que as pessoas descobrem locações chave para imagens – instantâneos e parcerias – que estão maduras para intervenção. Embora isso possa parecer auxiliar, definir como alvos teatros ou museus patrocinados por comerciantes de armas atinge as equipes de relações públicas aonde dói. Nesse caso, ao ligar a Urban Shield a eventos acontecendo em Ferguson e a casos passados de brutalidade policial em Oakland, particularmente contra jovens negros, a coalizão multiétnica e de membros queer tornou impossível para a Câmara Municipal apoiar a exposição sem danificar a imagem da cidade.

E o que é importante, não foi apenas o ato de comparecer e manifestar-se numa feira de armas que teve esse efeito: transformou-se uma luta global numa luta local, por meio da mobilização de grupos de base e da crítica antirracista. Do mesmo modo, ao tomar explicitamente o hotel Marriott como alvo, a campanha Stop Urban Shield forçou a empresa a calcular se os lucros de realizar esse evento policial eram maiores que os riscos de sujar sua imagem. Tirar o Marriott do evento não é garantia de que a Urban Shield de Oakland não continuará a fazer exposições semelhantes em outros lugares. Contudo, o sucesso da campanha Stop Urban Shield revela um ponto chave de pressão que poderia tornar-se a base para uma campanha sustentável que deixe o policiamento com fins lucrativos fora da cadeia Marriott.



Resistência a partir de dentro

Em 2013, depois que comecei a escrever na mídia sobre o gás lacrimogêneo, recebi um emêio de um policial instrutor que trabalha na Europa Oriental. “Espero que continue a ler minha mensagem depois de eu confessar [meu emprego] … Eu trabalhei nesse campo durante 20 anos, e me dei conta de que o policiamento de alta intensidade (usando força contra manifestantes) é um beco sem saída. Passei a fazer campanha por uma abordagem com base na comunicação e de baixa intensidade. Agora lidero um centro de treinamento policial e espero poder usar minha influência para divulgar essa ideia.” O policial seguiu adiante e perguntou sobre materiais de treinamento que ele pudesse traduzir para seus aprendizes. Cartas como essa servem como uma lembrança mais que necessária de que outros mundos são possíveis. Elas nos recordam de que frequentemente temos mais em comum do que pensamos.

Não é fácil questionar os princípios e protocolos que constituem seu emprego e o modo como ele é executado. Enquanto meu foco tem sido em advocacy para fora, há também vários modos pelos quais você pode ajudar a transformar os outros à sua volta, e você certamente irá aborrecer todos os consultores e especialistas privados que fazem dinheiro com os sábados que você passa na sala de aula. Entretanto, ao falar publicamente a partir de dentro, você se juntará às fileiras de muitos policiais que lutaram contra o modo como se ensina, se atua, se encobre e se protege a força excessiva dentro da polícia. Você estará falando contra os ciclos de trauma que o desnecessário uso de força pode produzir e perpetuar. A mudança não pode ser apenas relativa a melhores relações públicas; ela deve também vir da coragem de falar com o seu coração e mente contra sistemas que reconhece como fracassados ou corrompidos.



E agora? O que vem em seguida?


O uso crescente de gás lacrimogêneo em todo o mundo levou a mais pancadas na cabeça, mais asfixia por granadas jogadas em espaços fechados, mais ofensivas de gás lacrimogêneo acopladas a balas de borracha e munição viva. Esses violentos dispositivos de armas químicas continuam a deixar a matar e a deixar gente desfigurada e com problemas físicos e de saúde mental crônicos. Se a história médica de um século do moderno gás lacrimogêneo nos mostra alguma coisa, é o problema da ciência voltada para o lucro. Quando a ciência é alavancada pelo lucro de poucos ao invés da proteção e saúde de muitos, a sociedade inteira sofre. No nível mais básico, as pessoas merecem saber sobre as armas associadas a produtos químicos podem ser usados contra elas. Essa é uma questão de saúde pública que deve ser pesquisada de forma independente e revelada de modo a permitir que as pessoas entendam claramente seus efeitos.

O gás lacrimogêneo precisa também ser considerado em sua forma material – como um objeto projetado para martirizar as pessoas, quebrar sua moral, causar dano físico e psicológico. Nenhuma inundação de relações públicas corporativas ou normas de segurança pode esconder essa verdade fundamental do projeto químico. O gás lacrimogêneo é uma arma que policia a atmosfera e polui a próprio ar que respiramos. Ela transforma a praça, a marcha, a assembleia pública num espaço tóxico, tirando aquilo que tão frequentemente é o último canal de comunicação que as pessoas têm para usar. Se o direito de reunião e de expressão significam alguma coisa, então precisamos ter também o direito de fazê-lo num ar em que possamos respirar.


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