Mauro Santayana: A EXPIAÇÃO DOS CAPRINOS E OS DEMÔNIOS DE PANDORA.



Os artigos da grande imprensa dando conta de que a transformação do  ex-governador e atual Senador Aécio Neves em réu pelo STF estaria enfraquecendo as bases de uma suposta “teoria persecutória” do PT, reforçam ainda mais, no lugar de esvaziar, a tese da judicialização e criminalização da política brasileira.

As várias manifestações em torno desse eventual “efeito” colateral “positivo”, do ponto de vista antipetista, apenas vêm aumentar a consistência da hipótese que abordamos no artigo “O alvo final é Lula”, em maio de 2017.
Diretamente acessado, apenas em nosso blog, por mais de 175.000 internautas, esse texto dizia que a armação contra Aécio e, de certa forma, também contra Temer, teriam como motiivação subjacente - além do óbvio prejuízo político para os envolvidos - abrir caminho para viabilizar e tornar mais palatável aos olhos do povo e da opinião pública, um fato muitíssimo mais grave, do ponto de vista político: a condenação e posterior prisão - como ocorreu agora - do ex-presidente Lula,  com o seu impedimento de participar das eleições presidenciais de 2018.

Lula está na cadeia porque precisa transformar-se, como aconteceu com Jango, JK, Getúlio e Tiradentes (qual era mesmo o nome dos  três Ministros Desembargadores da Suplicação, que, chegados de Lisboa em 1790,  condenaram Joaquim José a ser executado, esquartejado e espetado em diferentes locais da Capitania das Minas e a ter sua casa arrasada e salgada para todo o sempre?) em mais um símbólico,   didático, histórico, exemplo e aviso, de que certos limites não podem, neste simulacro de nação, ser ultrapassados impunemente.

Mesmo que se conte com o apoio da maioria dos brasileiros, pertencentes  àquilo que o jornalista Elio Gaspari costuma referir-se como o andar de baixo. 

Condenado por uma “compra” de imóvel que  não ocorreu e por supostas reformas que - como pode ser atestado pelos vídeos do xexelento “tríplex” postados nas redes sociais após a invasão do MST - também nunca aconteceram, Luís Inácio Lula da Silva transformou-se, nos últimos anos, no mais odiado, emblemático e referencial bode expiatório de uma sociedade atrasada, escravagista, apátrida, patriarcal e entreguista.

Dominada e manipulada por pilantras de variada fauna e mantida sob secular e violento controle por descendentes de feitores de escravos e capitães do mato.

Que não suportou que um sem dedo torneiro mecânico chegasse à Presidência da República.

Recuperando, com o pagamento da divida com o FMI e a criação do BRICS,  um mínimo de respeito para o país no exterior.

E que se desse às nossas diferentes senzalas - entre elas aquelas em que quilombolas são pesados e sopesados em arrobas - um  pouco de atenção e de humanidade.

Mesmo que fosse para transformá-las em consumidoras de serviços e  produtos fabricados pela Casa Grande, em um sistema capitalista periférico desigual e escandalosamente selvagem.

Dominado por uma oligarquia anacrônica, composta de barnabés cuja arrogância só rivaliza com sua ignorância estratégica.

Por “coronéis” toscos pseudo formados na doutrina imbecil do Estado mínimo sem maior noção da importância pós-mercantilista do fomento ao mercado interno e nenhum compromisso com o futuro ou a soberania nacional.

E por viralatistas e testas de ferro de empresas e interesses estrangeiros.

Já Aécio Neves entrou na fila da expiação dos caprinos, em um país em que até a Presidente da República teve uma ligação telefônica gravada e vazada ilegalmente, porque foi escolhido como alvo para uma arapuca - que não merece nem pode ser descrita de outra forma - montada, ao que tudo parece, por setores do Ministério Público, em conluio com empresários pressionados pela necessidade de livrar-se a qualquer custo da prisão e dos enlouquecidos tentáculos lavajatianos.

Os longos braços peludos e amacacados de uma “operação” equilibrada como um orangotango em loja de louça, que, no trato com o empresariado, já tinha ficado marcada   pela contumaz paralisação destrutiva de obras e projetos   estratégicos e de defesa no valor de dezenas de bilhões de dólares e pela quebra das maiores empresas do país e de uma extensa cadeia de milhares de acionistas, investidores e fornecedores, com a eliminação - direta e indireta - de mais de um milhão de empregos. 

E pelo fato de ter, Aécio, se transformado, entre as lideranças mais tradicionais da política brasileira, em um ícone fácil do antipetismo.

Um símbolo capaz, caso venha a ser  condenado e preso, de dar uma ínfima  camada de verniz de isonomia a uma certa justiça que, no frigir dos ovos, é política, seletiva e parcial, cujas decisões tem sido contestadas e ridicularizadas por juristas do mundo inteiro. 

Afinal - diria a malta - se até Aécio, que apareceu trocando salamaleques e sorrisos com o juiz Sérgio Moro em foto que ficou famosa -  está correndo o risco de ser preso, como negar a imparcialidade da justiça ou aceitar que ela volte atrás colocando Lula de novo na rua, permitindo sua candidatura?

A Constituição que se exploda - pontificaria, finalmente, a turba - o importante é que no Brasil a lei vale para todos!

Homem de muita sagacidade, caberá aos historiadores do futuro investigar por quem o Sr. Aécio Neves deixou-se emprenhar pelos ouvidos para cometer o quase suicídio político de apoiar a tese do impeachment da Presidente Dilma Roussef, proposta pela figura exdrúxula e patológica de uma certa senhorinha paulistana, que para  isso foi paga pelo seu partido.

Ao aceitar contestar o resultado das eleições, replicando o discurso fascista de colocar em dúvida o sistema eleitoral brasileiro, e ajudar a tirar do poder uma presidente eleita, com base em um pretexto absolutamente furado do ponto de vista jurídico, o Sr. Aécio Neves foi levado a fazer o jogo da extrema-direita, que - como se pode ver pelo menos desde 2010 com uma simples busca nos comentários da internet - o odiou e desprezou durante a maior parte de sua vida pública.


E abriu a escura caixa de Pandora,   libertando, ou, no mínimo, cevando, a pão de ló, os demônios do lawfare, do punitivismo inquisitorial e da antipolítica que ameaçam devorá-lo agora.

Isso, quando se tivesse simplesmente defendido a sábia e equilibrada manutenção das regras do jogo democrático, dedicando-se a comandar uma oposição minimamente civilizada, estaria chegando a este momento de quase véspera das eleições como líder inconteste do PSDB e de um patrimônio de dezenas de milhões de votos.

Em grandes condições de ajudar a evitar - mesmo com uma eventual prisão de Lula - que o país descambasse, como descambou, para a beira do precipício em que se encontra, prestes a escorregar, por  falta de lucidez e de bom senso de diferentes personalidades do espectro político e social, ao final da apuração dos votos das próximas eleições, para a goela de um fascismo estúpido, truculento, perigosíssimo e absolutamente imprevisível  do ponto de vista histórico.

Tudo isso somado, não é preciso lembrar que a História escreve mais nas entrelinhas do que nas manchetes dos jornais que ainda sobrevivem nas bancas.

Contra a lógica política não há argumento.

A quem beneficia a condenação e a eventual ida de Aécio e de outros adversários políticos do PT para  a cadeia, sob a égide do ativismo “antipolítico” do Judiciário e do Ministério Público, em um contexo, uma batalha surda, que opõe procuradores, juízes e policiais a deputados e senadores e envolve, entre outras questões, o amplo direito de defesa e a lei do controle de abuso de autoridade?

A quem quer ver Lula solto - com todas as consequencias políticas implícitas nessa alternativa - ou a quem quer ver o ex-presidente da República passar os próximos 12 anos trancado e isolado, a sete chaves, em  regime fechado, dentro da prisão?

Incluindo, natural e principalmente, a extrema-direita antipetista que é muitissimo mais radical - e potencialmente mais bem sucedida, eleitoralmente - que o PSDB, e que depende visceralmente de Lula continuar atrás das grades para chegar ao poder neste ano ?

 Mas não se pode esquecer que os sempre inesperados meandros da História não apenas castigam.

Eles também abrem as asas da  necessidade e da oportunidade, para  redimir e ensinar.

Entre as muitas batalhas em andamento, está a importância, como vimos, de resgatar senão o prestígio, ao menos as prerrogativas institucionais dos representantes eleitos, segundo o espírito e  os princípios constitucionais.   

Mas, mais premente do que tudo isso, é saber o  que farão, com o resto de inteligência e de serenidade que puderem reunir, os homens mais importantes do  Brasil, frente ao desafio que se coloca, nos próximos meses, diante deles, como uma implacável esfinge guardando um deserto quente e seco varrido pelos ventos do destino.

Invocados nas fogueiras das jornadas de junho, à sombra das bandeiras auriverdes sequestradas pelos inimigos da democracia, para onde nos levarão os demônios de Pandora, que começaram a germinar sob as arcadas do Supremo, nos idos do famigerado mensalão?

Decifra-me ou te devoro.

Não é preciso ser mandrake para responder à incontornável pergunta formulada neste  momento pela leonina quimera da história brasileira.

Ou  se costura uma ampla, urgente e democrática frente antifascista para a disputa das próximas eleições presidenciais, ou o fascismo será levado  ao poder no segundo turno, graças à esterilização eleitoral de Lula, com o apoio de uma vasta coalizão fisiológica que unirá - como já o está fazendo - em torno de seu seio venenoso e murcho o que existe de mais oportunista, tosco, maligno, mendaz e desprezível na sociedade - e na política - nacionais.


Mauro Santayana