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FOLHA DIFERENCIADA - Porque nem toda folha é igual

Entrevistamos o presidente da Gazeta do Povo, Guilherme Döring Cunha Pereira, e o seu principal jornalista até novembro, Rogerio Galindo.



Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil


Rafael Moro Martins


FUNDADA EM 1919, a Gazeta do Povo foi durante a maior parte de seus quase 100 anos um jornal importante em Curitiba mas de pouca relevância fora do Paraná. Mas uma guinada abrupta à direita iniciada em 2015 fez do veículo – repaginado como um portal de internet que publica uma edição semanal impressa – a cara e a voz do cada vez maior conservadorismo brasileiro.

Do ponto de vista estratégico, foi um achado. Há alguns dias, a Gazeta anunciou ter sido o jornal mais lido do Brasil em outubro, mês das eleições presidenciais – foram 33,7 milhões de visitantes únicos, segundo o comScore MyMetrix, quase 600 mil a mais que o site da Folha de S.Paulo, ainda líder em tiragem e circulação entre os diários impressos brasileiros.

A audiência se deve, em parte, a um bem feito trabalho de formatação de conteúdo, o chamado SEO, que fez com que qualquer que digitasse, por exemplo, as palavras “candidatos deputado estadual Paraíba” no Googlerecebesse como primeiro resultado o site da Gazeta. Ainda assim, é um resultado notável para um veículo que, até há dois anos, tinha alcance meramente regional.


Desde sempre um jornal de perfil conservador, a Gazeta percebeu no avanço da direita no Brasil uma oportunidade para romper as barreiras de Curitiba. 



Do ponto de vista do prestígio com os novos donos do poder, idem. Coube à Gazeta o privilégio de publicar o primeiro artigo do futuro chanceler Ernesto Araújo após a escolha dele por Jair Bolsonaro – ou pelo filósofo de ultra direita Olavo de Carvalho. O portal também conseguiu entrevistas exclusivas com ministros do futuro governo e teve um de seus colunistas recomendadopela jurista Janaina Paschoal ao presidente eleito.

Do ponto de vista do bom jornalismo, há vários poréns. Ao se assumir como porta-voz de pautas conservadoras como a “crítica ao comportamento homossexual” e do liberalismo econômico, a Gazeta reduziu o destaque à cobertura local e o espaço a vozes discordantes, processo que culminou na demissão de seu principal jornalista, o colunista político Rogerio Galindo, também tradutor literário e irmão do premiado Caetano Galindo.

Conservadorismo de costumes


Desde sempre um jornal de perfil conservador, a Gazeta percebeu no avanço da direita no Brasil, palpável desde as manifestações de 2013, uma oportunidade para romper as barreiras de Curitiba. Foi como juntar a fome à vontade de comer: o atual presidente do GRPCOM, grupo que edita a Gazeta e é dono das afiliadas da TV Globo no Paraná, Guilherme Döring Cunha Pereira, é numerário do Opus Dei, a conservadora prelazia da igreja católica. Numerário é a denominação dada a membros que, como ele, são celibatários e dedicam parte importante da vida às atividades apostólicas e de formação de fiéis.

Hoje com pouco mais de 50 anos de idade, Cunha Pereira é um homem magro, cortês, que nunca eleva o tom de voz ou interrompe o interlocutor e fez, ainda jovem, votos de castidade e pobreza. Usa ternos e roupas simples e vive numa residência comunitária da Opus Dei em Curitiba. Desde 2009, com a morte do pai, Francisco Cunha Pereira Filho, ele vinha introduzindo algumas de suas obsessões – o termo é do próprio veículo – na pauta da Gazeta.

“[O conservadorismo adotado pela Gazeta] Tem uma ressonância com parte importante da população brasileira, que não encontrava outros veículos com idêntico posicionamento”, me disse Cunha Pereira na longa entrevista que concedeu em sua sala na redação. “A gente percebeu que isso é uma riqueza também do ponto de vista estratégico, e montou toda uma estratégia em que o posicionamento [conservador] adquiriu status especial. Ele é um direcionador estratégico muito importante.”


Atual presidente do grupo que edita a Gazeta, Guilherme Döring Cunha Pereira é numerário do Opus Dei e fez, ainda jovem, votos de castidade e pobreza.  Foto: Danilo Verpa/Folhapress

Mesmo antes da guinada radical iniciada em 2015, Cunha Pereira havia criado na Gazeta um site chamado Sempre Família, que durante as últimas eleições se dedicou a atacar um padre que celebrou uma missa pela eleição de Fernando Haddad – incentivando críticos a protestarem contra o sacerdote a seu superior hierárquico –, elencou motivos para católicos não levarem seus filhos às passeatas promovidas por mulheres contra Jair Bolsonaro sob o bordão #elenão e colocou figuras como Magno Malta e Eduardo Bolsonaro numa lista de “defensores da vida”.

Ali, a voz que se ouve é a de Cunha Pereira. Os jornalistas responsáveis pelo Sempre Família não respondem à direção da redação, mas diretamente ao presidente do grupo.

“Há um grupo de editorias chamadas internamente de ethos do portal que são dominadas por gente que pensa igual o patrão: Opinião, Sempre Família, Justiça & Direito, Educação. E, por extensão, República [nome da seção que publica material sobre a política nacional]. Na editoria de política local, a liberdade é total. Em República, o cerco é mais apertado. No núcleo duro, o cerco é total. Não há espaço para pluralismo”, me disse Rogerio Galindo.

Sob nova direção


A curva à direita se acentuou em outubro de 2015 com uma mudança que colocou no comando da redação o jornalista Leonardo Mendes Júnior, co-autor do “Guia politicamente incorreto do futebol“, livro que se dedica a criticar a “ingenuidade” da seleção brasileira de 1982 e afirma que a Democracia Corinthiana era na verdade “uma ditadura” comandada por Sócrates, Wladimir e Casagrande. São ele e mais dois jornalistas – Jones Rossi, o outro co-autor do “Guia”, e Ewandro Schenkel – os executores do plano de tornar a Gazeta uma espécie de versão patropi do Breitbart News– o ultra conservador site de notícias dos EUA que trabalhou pela eleição de Donald Trump.

“Ele levou a guinada conservadora a novos parâmetros, quando anunciaram o encerramento do jornal impresso e a cara nova do site”, contou Galindo, que até novembro era o mais lido analista político da Gazeta – foi responsável por 1 milhão dos leitores que o portal atraiu em outubro.


A Gazeta do Povo que renasceu digital em 2017 tem um novo time de colunistas, todos alinhados à direita. 



A Gazeta do Povo que renasceu digital em 2017 tem um novo time de colunistas, todos alinhados à direita. Resgatou do limbo Rodrigo Constantino, que fora demitido e deletado do site da revista Veja. Trouxe também Ricardo Amorim e Leandro Narloch, que ganhariam nos meses seguintes companhias como Guilherme Fiúza e Bruno Garschagen. Nesse time de articulistas, a presença de Galindo – que me disse ver o mundo a partir de um ponto de vista de “esquerda democrática” – era algo como se Barack Obama fizesse parte do ministério de Trump.

“Os donos do jornal sempre me deram respaldo para falar o que quisesse. Nunca me pediram para não publicar alguma coisa, evitar um tema ou falar bem de alguém. Mas é evidente que, do ponto de vista deles, aquilo era uma permissão. Eles dizem acreditar que opiniões diferentes devem ter espaço. O meu papel ali sempre foi o de oposição consentida. Eu tinha consciência disso, eles também, e a gente conviveu bem por um bom tempo”, avaliou Galindo.

Mas em breve a relação começaria a azedar.

O ‘Monitor da Doutrinação’


Em fins de 2017, a Gazeta colocou no ar uma ferramenta chamada Monitor da Doutrinação, que incentivava leitores a enviarem ao jornal, para publicação, vídeos em que professores alegadamente estariam “doutrinando” seus alunos – à esquerda, é claro. A repercussão foi imensa, e péssima. Educadores, advogados, sindicatos e até empresários reagiram. Quatro dias depois, o portal recuou e tirou o Monitor do ar.

Segundo Cunha Pereira, a ideia partiu da redação, e não dele, que me disse ser contra a Escola Sem Partido. “Foi uma iniciativa da [equipe que cobre a] área [de Educação]. A redação, a equipe que acompanhava esses casos, recebia um volume grande de denúncias de abusos concretos. A intenção deles era alertar para um problema, o que acho legítimo. Foi um trabalho puramente jornalístico”, argumentou.


‘A ideologização do ensino é um problema grave, mas não se resolve isso criando tensão entre alunos e professores.’ 



“Mas sou contra o Escola Sem Partido. A ideologização do ensino é um problema grave, mas não se resolve isso criando tensão entre alunos e professores. E como um aluno vai ter condições de se arvorar como juiz do professor, permanentemente, numa idade em que se deve fomentar um respeito grande pelo professor?”, questionou Cunha Pereira.

Foi ali que as divergências entre Galindo e o comando da redação começaram a ficar mais agudas. “Escrevi [a Mendes Júnior] dizendo que achava aquilo [o Monitor] um absurdo. Passamos três dias brigando pelo WhatsApp até que eles recuaram e anunciaram que iriam tirar do ar”, contou o jornalista.

Alinhamento a Bolsonaro


A ojeriza da Gazeta do Povo ao PT e sua “agenda permissiva” de “suporte à descriminalização do aborto e novos arranjos familiares” – e alguma simpatia por Bolsonaro – já eram evidentes no vídeo em que o portal anunciou sua cobertura das eleições presidenciais. Em certo momento, Mendes Júnior afirmou que a eleição do capitão reformado era “certeza na segurança [pública]”.


‘É impensável apoiar um partido, que não apenas declarou, mas realizou concretamente um volume sem precedentes de atentados à democracia.’ 



Mas ela se cristalizou em editoriais como o publicado no dia do primeiro turno das eleições, que garantia que o PT era uma “ameaça real” à democracia brasileira mas não fez menção aos impropérios que Bolsonaro colecionou durante sua carreira. Àquela altura, já era claro que o pleito seria decidido entre Haddad e o militar reformado, e a Gazeta fez sua aposta no político do PSL.

“É impensável apoiar um partido, que não apenas declarou, mas realizou concretamente um volume sem precedentes de atentados à democracia. Não são meramente palavras, [mas] uma realização concreta e o aparelhamento do estado de uma maneira inacreditável para uma tomada paulatina, penetrar em todas as instâncias do poder para dominar o país. E mesmo depois da condenação em última instância no Mensalão, todos os petistas condenados [foram] aclamados como guerreiros da causa”, argumentou Cunha Pereira, não sem razão.

Semanas antes, Galindo publicara texto em que afirmava que a candidatura de Bolsonaro era “moral e inaceitável numa democracia” – até hoje o texto é um dos mais lidos e comentados do portal.

“Ficou claro para mim, conforme a campanha presidencial foi avançando, que a Gazeta decidiu que, para evitar o petismo, era necessário abonar qualquer outra candidatura. O apoio deles [a Bolsonaro] foi envergonhado, a partir do momento em que eles viram que era ele ou PT. Pedi uma reunião com o Guilherme [Cunha Pereira]. Ele me recebeu e ouviu meu pedido para que disséssemos [em editorial] que o outro candidato [Bolsonaro] também tinha problemas, punha em risco a democracia. Ele ficou de pensar, mas evidentemente nunca mudou de ideia. Foi nossa última conversa”, disse o jornalista.

Embora o empresário tenha me garantido que tal preferência não contaminou a cobertura do pleito – “Nossa posição é muito clara nos editoriais, mas a cobertura é totalmente dada pela equipe [da redação], com liberdade” – , não foi o que ouvi em conversas com jornalistas da casa, que naturalmente pediram para não serem identificados.

Um deles relatou ter sido orientado a não usar conteúdo da Folhapress, agência ligada à Folha de S.Paulo, por em tese ser “mais duro com Bolsonaro”. Outro relatou que matérias com Haddad deveriam obrigatoriamente trazer informações negativas ao petista – como, por exemplo, as visitas semanais a Lula na cadeia em Curitiba.


‘É evidente, nítido e inegável que [o apoio a Bolsonaro] teve influência nas colunas [de opinião] e, em certa medida, no noticiário.’ 



Acompanhei atentamente a cobertura da eleição presidencial da Gazeta do Povo. Desde o primeiro turno, Bolsonaro era presença garantida na homepage do portal, algo que se explica não apenas pela preferência da casa – notícias sobre ele eram cliques garantidos, contou um jornalista. Em certo dia, já durante o segundo turno, a editoria “República”, que reúne o noticiário sobre a política nacional, publicou 11 textos. Nove traziam “Bolsonaro” no título – e eram, na maioria, favoráveis ao capitão reformado.

“É evidente, nítido e inegável que [o apoio a Bolsonaro] teve influência nas colunas [de opinião] e, em certa medida, no noticiário”, cravou Galindo.

O Sempre Família, por sua vez, colocou no ar o Vota, Família. Ilustrado com a foto de uma família de pessoas brancas e de cabelos claros, o site se propunha a indicar as posições de “candidatos e partidos políticos sobre temas morais importantes para a instituição familiar”. Não qualquer família, é claro – candidatos favoráveis ao casamento gay, como Haddad, recebiam sinal vermelho.

“Eu não acho que sejam iguais [os casamentos entre homossexuais e heterossexuais]. A nosso ver, [o casamento é] a união entre um homem e uma mulher pela única razão que esse é o caminho natural para a perpetuidade da sociedade. E imagino que os próprios homossexuais ficariam satisfeitos [com isso, dizendo] não queiram [o Estado e a legislação] interferir no meu relacionamento”, argumentou Cunha Pereira.

O alinhamento, cabe ressaltar, segue após a eleição. Na quinta-feira, 6, os editores do portal fizeram que não viram uma das principais notícias do dia, publicada pelo Estadão: a de que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) registrou movimentação considerada “atípica”, de R$ 1,2 milhão, de um ex-assessor de Flávio Bolsonaro, senador eleito e filho do capitão reformado.

A demissão de Rogerio Galindo


Em 28 de outubro, a Gazeta do Povo publicou um editorial intitulado “Uma chance para consertar o estrago”, conclamando o voto contra o PT – sem usar uma única vez o nome de Bolsonaro – listando, entre as razões, o fato de que o partido “quis tratar como criminosos aqueles que têm opinião crítica ao comportamento homossexual”. À noite, Galindo colocou na imprensa a responsabilidade pela eleição de Bolsonaro. Oito dias depois, ele estava demitido.

“Minha demissão tem muito a ver com o processo eleitoral deste ano. Não tenho certeza se foi [motivada] por algum texto em especial. Avisei a direção que faria um texto dizendo que a imprensa errou [ao dar holofotes a Bolsonaro]. Me disseram que o blog era meu e eu tinha liberdade. Publiquei no dia da eleição. Segui trabalhando por mais uma semana e, num domingo, Leonardo [Mendes Júnior] me chamou para ir à redação no dia seguinte. Fui e fui demitido”, me contou Galindo.


Até novembro, Rogerio Galindo era o mais lido analista político da Gazeta.  Foto: Reprodução/UNINTER

“Ele [Mendes Júnior] me disse que nossas dissensões estavam ficando cada vez mais graves, e que [a causa da demissão] não era o fato de eu divergir, mas sim a maneira como eu me posicionava, sugerindo que eu estava me excedendo no tom que usava para criticar [a posição do jornal] internamente. Admito que me excedi, cheguei a pegar uma suspensão. A situação vinha ficando há muito tempo insustentável”, ele prosseguiu.

“Acho que [a demissão] foi um mau sinal. Acho que uma dissensão tão franca, aberta, gritante, talvez não seja mais do interesse deles. [Mas] saio sem nenhum ressentimento. O que aconteceu foi uma batalha de ideias, e eu perdi. Faz parte da democracia. Mas não desisti. Vou achar um cantinho e instalar minha guerrilha, que é a dos direitos humanos, do direito das pessoas de serem diferentes”, desabafou o jornalista.

De todos os temas que eu trouxe à mesa, a demissão de Galindo foi o único que Cunha Pereira se recusou a comentar.

“Quando fui informado da decisão, ela já estava tomada [pela chefia da redação]. Acho que havia elementos, acho que a redação tomou [a decisão] em função de um série de circunstâncias da gestão. Por isso não é justo eu fazer um comentário porque é difícil explicar o conjunto dos elementos que podem levar a uma decisão dessas”, justificou-se. “Mas não é verdade que a demissão signifique um fechamento da Gazeta do Povo a vozes discordantes.”

Até o fechamento deste texto, porém, nenhum jornalista com o perfil de Galindo havia sido contratado pela Gazeta do Povo. Pelo contrário: outro repórter premiado da casa, Felippe Aníbal, demitiu-se após as eleições.

Quando foi avisado de que perderia o emprego, Galindo acabara de ser pai pela terceira vez. A pequena Gabriela completou um mês de vida dois dias após a demissão.

The Intercept Brasil
FOLHA DIFERENCIADA - Porque nem toda folha é igual

Mesmo com todas as contradições na acusação, MPF voltou a pedir a condenação do ex-presidente nesta segunda-feira (10)

Leonardo Fernandes
Brasil de Fato | São Paulo

Sítio na cidade de Atibaia, interior de São Paulo, é de propriedade da família Bittar / Reprodução

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumpre pena desde o dia 7 de abril em Curitiba (PR), após uma condenação sem provas na ação penal conhecida como "caso triplex". Em 2019, ele será novamente julgado na operação Lava Jato. Desta vez, com base em um processo conhecido como "sítio de Atibaia".

As acusações são as mesmas do triplex: corrupção passiva e lavagem de dinheiro. As inconsistências também remetem ao caso do apartamento no Guarujá.

O Brasil de Fato teve acesso aos documentos referentes ao processo e identificou uma série de fragilidades. De modo geral, todas elas estão contempladas nos argumentos da defesa do ex-presidente. Ainda assim, o Ministério Público Federal (MPF) protocolou na última segunda-feira (10) as alegações finais do processo e reforçou o pedido de condenação para Lula e outros 12 réus.

Confira abaixo as principais inconsistências.

Ato de ofício

Para se comprovar o crime de corrupção passiva, é preciso que a acusação demonstre qual foi a vantagem recebida por um gestor público e especifique qual "ato de ofício" ele executou em troca desses benefícios.

A lógica da denúncia é que as empreiteiras OAS, Schahin e Odebrecht teriam financiado uma série de reformas em um sítio em Atibaia, interior de São Paulo, em troca de contratos com a Petrobrás – e que o ex-presidente teria atuado para favorecê-las nesses contratos. Lula é acusado de receber um valor estimado em R$ 920 mil reais por meio dessas "reformas e benfeitorias" na propriedade.

Em nota à imprensa, a defesa do petista deixa claro que “não existe qualquer elemento mínimo que permita cogitar que Lula praticou qualquer dos crimes indicados pelo órgão acusador”. Na sequência do documento, os advogados acrescentam que “a Força Tarefa da Lava Jato não indicou qualquer ato da competência do Presidente da República [ato de ofício] que Lula tenha praticado ou deixado de praticar que pudesse estar relacionado com reformas realizadas em 2009 em um sítio de Atibaia e, muito menos, em 2014, quando ele não exercia qualquer cargo público”.

O ato de ofício, requisito básico para condenação, não está especificado em nenhuma das 168 páginas da denúncia do Ministério Público Federal (MPF).

É dono ou não é?

Comprovar o suposto crime de lavagem de dinheiro também tem sido uma tarefa difícil, uma vez que Lula sequer é reconhecido como dono do imóvel – o sítio está registrado no nome de Fernando Bittar. Portanto, o ex-presidente não é beneficiário das reformas, mesmo que tenha frequentado o local.

A denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal considera que Bittar seria nada mais que um "laranja", utilizado para ocultação da propriedade de Lula. Para o advogado e ex-ministro da Justiça, Eugênio Aragão, a força-tarefa da Lava Jato abandonou o objeto da acusação contra o ex-presidente para poder condená-lo.

“Mudou porque o MP [Ministério Público] partiu da ideia de que [o Lula] era dono, de fato, do sítio de Atibaia, e ficou muito claro que ele não era o proprietário. Então, ficou numa situação complicada. E o que ele fez? Disse que o Lula não era o proprietário, mas sim o beneficiário. Então, mudou a própria definição fática, o próprio conteúdo da denúncia", explica o ex-ministro da Justiça.

A confusão gerada por essa mudança ficou clara no último dia 14 de novembro, quando Lula compareceu à sede da Justiça Federal em Curitiba (PR) para prestar depoimento sobre o caso e manifestou dúvidas em relação à natureza da acusação. Antes de iniciar o depoimento, ao ser questionada pelo réu, a juíza Gabriela Hardt, substituta da 13ª Vara da Justiça Federal do Paraná, admitiu que o processo não diz respeito à propriedade do imóvel.

Juíza Gabriela Hardt: Senhor Luiz Inácio Lula da Silva, o senhor sabe do que está sendo acusado nesse processo?

Lula: Não. Gostaria de pedir que a senhora me explique qual a acusação.

Juíza Gabriela Hardt: São dois conjuntos de acusação. A primeira é de corrupção. O senhor teria recebido vantagens indevidas da Odebrecht e da OAS, relacionadas aos contratos que eles têm com a Petrobras, e um segundo conjunto de atos de lavagem de dinheiro, relacionadas ao sítio.

Lula: Eu pensava que a acusação que pesava sobre mim era que eu era dono de um sítio em Atibaia.

Juíza Gabriela Hardt: Não é isso.

Lula: Mas eu sou dono do sítio ou não?

Juíza Gabriela Hardt: Isso não sou eu quem tem que responder.

Só a palavra de um delator

Também em depoimento à juíza Hardt, concedido no dia 9 de novembro deste ano, o empresário Léo Pinheiro, da OAS, que tenta obter há dois anos benefícios por um acordo de delação premiada, disse que o valor da reforma no sítio de Atibaia era referente a uma suposta propina que a OAS teria feito ao PT. Pinheiro declarou que a negociação era realizada por meio o ex-tesoureiro do partido, João Vaccari Neto.

Porém, o próprio Vaccari nega categoricamente a acusação. A defesa de Lula apresentou em 19 de novembro, ao juízo da 13ª. Vara Federal Criminal, uma declaração manuscrita do ex-tesoureiro do PT em que ele expressa: “Não intermediei o custeio de supostas reformas realizadas pela OAS no chamado ‘sítio de Atibaia’. Refuto enfaticamente que tenha realizado qualquer ‘encontro de contas’ com Sr. Léo Pinheiro, ou com outro executivo da OAS envolvendo valores relativos ao apartamento do Guarujá ou a reformas no ‘sítio de Atibaia’. Jamais intermediei qualquer tratativa para pagamento de vantagens indevidas em favor do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva”.

Resta, portanto, apenas a palavra de um delator.

Então, de onde veio o dinheiro para a compra do sítio?

Fernando Bittar e seu sócio Jonas Suassuna são os proprietários do sítio, conforme expresso na escritura. Em depoimento feito à Justiça em junho deste ano à Justiça Federal em São Paulo, Priscila Bittar, irmã de Fernando, contou que o dinheiro para a compra do sítio em 2010 foi dado pelo pai, Jacó Bittar: “Meu pai tinha o dinheiro da anistia [indenização por ter sido punido como sindicalista durante a ditadura] e queria um sítio para realizar o desejo de que todos tivessem um local para frequentar, passar o tempo junto”.

No dia 18 de junho de 2018, o então juiz Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro (PSL), decidiu não colher o depoimento de Jacó. No despacho, o magistrado considerou que o depoimento seria de “duvidosa relevância” e mencionou o estado de saúde do depoente – que, aos 78 anos, tem mal de Parkinson – para alegar “razões humanitárias” na dispensa.

“Na verdade, não interessava ao Moro trazer esse assunto a lume. [Moro] não queria trazer esse depoimento ao processo. Quando lhe interessa, não existe nenhum tipo de humanitarismo. Não houve humanitarismo em relação à Marisa, esposa do Lula. Não há nenhum humanitarismo para nada que faça o Moro. Então, ele falar de humanitarismo soa como uma pilhéria”, questiona Eugênio Aragão.

A defesa do ex-presidente chegou a sugerir que o depoimento fosse feito por escrito, mas os procuradores da força-tarefa da Lava Jato não concordaram. No entanto, no dia 20 de junho, a defesa de Lula juntou ao processo uma declaração de Bittar, prestada a um escrivão no dia 5 do mesmo mês, em que ele afirma estar “ciente de sua responsabilidade civil e penal” sobre as afirmações prestadas.

Naquele depoimento, Jacó esclarece: “Para a compra do sítio em Atibaia, eu fiz uma doação para o Fernando de um valor que recebi por causa da anistia política. Isso também está declarado”.

Jacó Bittar é amigo há décadas do ex-presidente Lula. Ele conta que, quando foi diagnosticado com Parkinson em 2009, Lula e Marisa o receberam no Palácio da Alvorada e na Granja do Torto para que se curasse de um quadro de depressão. Na mesma época, teve a ideia de “comprar um sítio perto de São Paulo para reunir a família e os amigos mais próximos” – confirmando a versão do filho Fernando.

“Desde o início, minha ideia era que o Lula e a Marisa frequentassem o sítio com total liberdade, assim como meus filhos”, declarou Bittar “Quando o Lula teve o câncer, em 2012, oferecemos o sítio para ele fazer o tratamento e ele passou longos períodos lá”, concluiu.


Lula e Jacó Bittar (à direita) durante a fundação da CUT / Crédito: Arquivo

Jacó também evidenciou a proximidade de suas relações com a família do ex-presidente: “Conheci Luiz Inácio Lula da Silva em 1978. (…) Fundamos juntos o Partido dos Trabalhadores em 1980. (…) Nos tornamos grandes amigos e nossas famílias convivem intensamente desde então. (…) Tenho os filhos de Lula como se fossem meus próprios filhos, e sei que ele tem o mesmo sentimento em relação com meus filhos”.

O pai de Fernando Bittar contou que Lula o procurou em 2014 para conversar sobre uma possível compra da propriedade. Segundo ele, o ex-presidente se sentia constrangido de estar usando o sítio mais que a família Bittar. Jacó afirma que foi contra a venda e combinou com o filho que isso só seria feito em caso de necessidade – e que “Lula teria preferência na compra”.

Bittar terminou a declaração lamentando que o sítio tenha sido usado como pretexto para acusar seu filho e seu amigo. “As idas frequentes e bem-vindas do Lula e da Marisa são decorrentes de uma amizade iniciada há quatro décadas e do relacionamento íntimo que temos. Lamento profundamente que esse sítio tenha sido utilizado para acusar o meu filho e o meu amigo”, finaliza.

Pertences não são suficientes

Entre as supostas provas apresentadas pelo MPF e a Polícia Federal, estão bens pessoais de Lula e seus familiares, como roupas íntimas e dois pedalinhos encontrados no lago do sítio com as inscrições “Pedro” e “Artur” – nomes de dois netos do ex-presidente –, além do depoimento de Léo Pinheiro.

No depoimento à juíza Hardt, Lula questionou os indícios apresentados pela acusação. “Eu vou lá porque o dono do sítio me autorizou a ir lá, tá? Que bens pessoais que eu tinha no sítio? Cueca? Roupa de dormir? Isso eu tenho em qualquer lugar que eu vou. E nenhum empresário pode afirmar que o sítio é meu se ele não for meu”, questionou o ex-presidente.

Outro indício que o Ministério Público apresentou para acusar Lula de corrupção passiva é ele ter passado "muito tempo" na propriedade, entre 2011 e 2016. Os procuradores somaram as vezes que os carros da segurança de Lula passaram pelo pedágio da rodovia Fernão Dias no período: 540. Como tem pedágio na ida e na volta, chegaram à conclusão de que o petista foi 270 vezes ao sítio nesse período. Segundo a defesa, nada disso tem relevância, uma vez que Lula não nega em nenhum momento ter frequentado o local com "bastante frequência".

Uma vez que Lula não recebeu, não é beneficiário nem fez operações bancárias com os valores da suposta propina, também não há materialidade para o crime de lavagem de dinheiro, segundo Eugênio Aragão.


Arte: Wilcker Morais

O que diz a defesa

Os advogados do ex-presidente também questionam a competência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar o processo relacionado à propriedade em Atibaia. A defesa aponta que, no caso do sítio, “o Ministério Público do Estado [de São Paulo] abandonou a investigação, aparentemente por constatar que não era possível vincular Lula a nenhum crime”.

“Lula também apresentou em seu depoimento a perplexidade de estar sendo acusado pelo recebimento de reformas em um sítio em Atibaia que, em verdade, não têm qualquer vínculo com a Petrobras e que pertence, de fato e de direito, à família Bittar, conforme farta documentação constante no processo”, acrescenta.

Em nota, os advogados dizem ainda que “o depoimento prestado pelo ex-presidente Lula também reforçou sua indignação por estar preso sem ter cometido qualquer crime e por estar sofrendo uma perseguição judicial por motivação política materializada em diversas acusações ofensivas e despropositadas para alguém que governou atendendo exclusivamente aos interesses do País”.

Considerando os prazos para alegações da acusação e defesa, a sentença sobre o caso do sítio de Atibaia deve ser proferida nos primeiros meses de 2019.

Edição: Mauro Ramos



Brasil de Fato
FOLHA DIFERENCIADA - Porque nem toda folha é igual

A nova equipe econômica quer fazer o Brasil virar os EUA de quando lá cursava a Escola de Chicago. Os títulos de dívida pública podem deixar de lastrear a riqueza financeira brasileira e os capitais optarem por se proteger em dólares, copiando o mau exemplo dos vizinhos



O sonho dos Chicago’s Oldies é Terrae Brasilis deixar de ser uma economia de endividamento e se tornar uma colônia norte-americana com uma economia de mercado de capitais. O risco nessa transição à marcha forçada (e ordem unida militar) é se tornar uma economia dolarizada à la Argentina.

Explico a razão de ser dessa hipótese. Historicamente, depois de deixar de ser predominantemente de base imobiliária (terras rurais e imóveis urbanos), com a modernização conservadora do regime militar aliado à casta dos reformistas neoliberais à la Roberto Campos (avô), a riqueza brasileira passou a deter um portfólio lastreado principalmente em títulos de dívida pública de elevadíssima liquidez.

Isso permitiu a plantação de “jabuticaba”: uma moeda indexada, isto é, corrigida por índice de preços, capaz de se tornar uma reserva de valor mesmo em regime de alta inflação. Constituiu uma barreira à fuga de capitais para o dólar. Essa fuga ocorreu na Argentina, uma economia fundamentalmente primário-exportadora e recebedora de dólares tal como o agronegócio brasileiro. Este pesa 1/5 do PIB do Brasil ao integrar sua cadeia produtiva na indústria e em serviços. A indústria geral brasileira produz 21,5% do PIB, sendo composta de extrativa mineral (1,5%), transformação (11,8%), produção e distribuição de eletricidade, gás, água e esgoto (2,7%) e construção (5,2%).

A indústria é igualmente o maior setor produtivo na economia da Argentina: 19% do PIB. Também está integrado à agricultura, sendo a metade das exportações industriais do país de natureza agrícola. Os principais setores em termos de valor de produção são: processamento de alimentos e bebidas (um dos cinco maiores produtores de vinho do mundo), veículos automóveis e autopeças, produtos de refinaria, biodiesel, produtos químicos e farmacêuticos, aço e alumínio, máquinas agrícolas e industriais, e aparelhos eletrônicos. Em 2011, a indústria automotiva produziu 829.000 veículos e exportou 507 mil, principalmente para o Brasil. O país, em contrapartida, exportou um número um pouco maior para a Argentina. O Mercosul une o mercado automobilístico.

O país vizinho possui o 8º maior território no mundo, mas sua população alcança 44 milhões de pessoas, pouco mais de 1/5 do tamanho da brasileira. Seu PIB nominal atinge US$ 585 bilhões enquanto o brasileiro chega a US$ 1.772 bilhões (FMI). Em PPC, o do Brasil (US$ 3.246 bilhões) é o oitavo e o da Argentina (US$ 922 bilhões) o 28º.

Qual é a diferença marcante entre as riquezas pessoais na Argentina e no Brasil? Lá o comportamento coletivo típico é guardar dólares como reserva de valor. Essa atitude defensivo-especulativa contamina os “contratos de gaveta” no mercado imobiliário. São compromissados em dólares.

E qual é o problema com a existência de um sistema bi-monetário? As três funções clássicas do dinheiro se dividem: a reserva de valor em dólar, por causa da preferência da população pela moeda estrangeira, a leva a fazer contas nessa moeda. Ela passa também a ser unidade de conta. Porém, como o governo usa a moeda nacional como meio de pagamentos a seus fornecedores, funcionários e aposentados, a apreciação daquela e a consequente depreciação desta leva a um ritmo avassalador na elevação dos preços nominais em peso, quando os converte de seus valores em dólar. A inflação dispara. Na Argentina, a taxa de inflação está em 45,5% e a taxa de juro em 60,75% aa.

No Plano Cavallo, o Congresso da Argentina aprovou uma lei, em 22 de março de 1991, proposta pelo Poder Executivo, cujo efeito era o de fixar a taxa de câmbio da moeda do país, o austral, em relação ao dólar, à razão de 1:1. A lei também determinava o país adotar o peso conversível no ano seguinte, com uma taxa de conversão de dez mil austrais para cada peso. Essas medidas efetivamente promoveram a dolarização da economia.

Com a taxa de câmbio fixa, quaisquer aumentos de preços dos produtos nacionais poderiam levar à perda de mercado para concorrentes importados. Além disso, o próprio dólar americano era aceito como moeda no país, paralelamente, e com o mesmo valor do peso. O peso conversível começou a circular em 1 de janeiro de 1992. Com a crise econômica da Argentina, após uma década, o peso conversível perdeu a paridade fixa para o dólar em 2002, além de passar a ser chamado somente de peso.

Na dolarização plena (full dolarization), a moeda doméstica é substituída pela norte-americana tradicionalmente estável. Como deixa de haver a cotação da moeda nacional em moeda estrangeira, a dolarização plena representa a ausência de política monetária e de política cambial. O país abre mão da soberania nacional na emissão monopólica da moeda nacional. O outro símbolo dessa soberania é o monopólio do controle das armas pelas Forças Armadas e Polícias Militares e Civis. O crime organizado o coloca em xeque.

O Plano Real no Brasil, implantado em 1994 até a adoção do real, ofereceu um simulacro do dólar: a URV (Unidade Reajustável de Valor). A taxa de câmbio nominal era reajustada diariamente segundo a inflação interna. O objetivo era manter a taxa real de câmbio em níveis constantes, mantendo a competitividade externa da produção doméstica e dando a sensação para os brasileiros com acesso a depósitos em bancos, indexados pela URV, de proteção do poder aquisitivo de seu dinheiro. Passados seis meses, quando não se via inflação levando à perda de valor em URV, trocou-se o nome dessa unidade de conta para o real e o adotou oficialmente como meio de pagamentos. Só.

Entre 1995 e 1998, o Banco Central do Brasil adotou uma banda cambial (target zone) deslizante (sliding band): não apresentava uma regra pré-estabelecida, mas era determinada pelo não comprometimento em se manter irreajustáveis o ponto central e a amplitude da banda. O Banco Central podia alterar sua determinação em magnitudes e unidade temporais indefinidas. Desde 1999, permite uma flutuação suja (dirty-floating). Nesse sistema, a Autoridade Monetária realiza intervenções esporádicas no mercado cambial. Na prática, a taxa continua sendo determinada pelo mercado, porém, o BC pode atuar com objetivo de garantir uma boa formação da cotação, inclusive na relação entre o mercado futuro e o mercado à vista, conveniente para a política cambial.

O maior banco privado brasileiro, o Itaú, tem 75 agências na Argentina e atende 500 mil clientes. Lá tem foco em clientes pessoas físicas de alta renda e institucionais, além de estrangeiros com negócios no país. Especula com a possibilidade de o mercado de capitais na Argentina crescer.

O mercado de capitais argentino é pequeno comparado ao brasileiro. A capitalização das empresas do principal índice de ações da Argentina soma atualmente cerca de US$ 47,3 bilhões. No Brasil, 341 SAs valem R$ 3,5 trilhões ou 47,6% do PIB brasileiro.

O investidor argentino aplica muito em produtos atrelados ao dólar, como os contratos de derivativos negociados no mercado de futuros argentino (ROFEX), e também em renda fixa, principalmente títulos soberanos do governo argentino em dólar, e também papéis de curto prazo do governo em peso. A maior demanda é por bônus em dólar. Há também os CEDEARS (Certificados de Depósito Argentinos): papéis lastreados em ações de empresas estrangeiras negociados no mercado local.

Os investidores argentinos podem aplicar até 100% em fundos carregadores de ativos do Mercosul e até 25% em carteiras investidoras em ativos dos demais países. Há potencial de crescimento do mercado argentino com o retorno dos investimentos mantidos no exterior. Representam 22% do PIB do país. A Argentina anunciou, em 2016, um programa de anistia de recursos não declarados mantidos no exterior. Segundo a organização Tax Justice Network (TJN), os argentinos tinham aproximadamente US$ 400 bilhões no exterior, embora cálculos mais enxutos apontem a metade desse valor.

Após o acordo da Argentina com o Fundo Monetário Internacional (FMI), com a repatriação desses recursos há possibilidade de dobrar o tamanho do sistema financeiro argentino. Ele soma hoje US$ 56,6 bilhões em ativos, enquanto o M4 (total de Haveres Financeiros) no Brasil somou R$ 6,6 trilhões em outubro de 2018 ou 96% do PIB (R$ 6, 839 trilhões). Estima-se em US$ 1,667 trilhão, ou seja, é trinta vezes maior!

A dolarização da economia argentina foi uma forma encontrada pelos investidores para se proteger da inflação. A taxa de juros de referência no país está em 60% ao ano e o Itaú estima uma inflação de 48% no fim deste ano. O problema não é só fiscal, mas também a vulnerabilidade externa, para ter uma moeda nacional mais apreciada.

Qual é o risco prenunciado pela futura equipe econômica do governo eleito no Brasil? Os chicagões sonham tornar o Brasil de hoje os Estados Unidos de quando lá cursavam a Escola de Chicago. Foram doutrinados na cartilha norte-americana, onde o “sonho americano” é o melhor para todo o mundo, indiferentemente das culturas e instituições locais. Curto e grosso, imaginam privatizar tudo aqui privatizável e pagar toda a dívida pública! É um disparate: a DBGG (compreende o Governo Federal, o INSS e os governos estaduais e municipais) alcançou R$ 5,231 trilhões ou 76,5% do PIB em outubro de 2018.

Obviamente, aquela lavagem cerebral não levará a bom termo experimental. Em uma transição mal conduzida, os títulos de dívida pública de risco soberano, desprotegidos por disparatada taxa de juro real, podem deixar de lastrear a riqueza financeira brasileira. Em vez de os capitais se dirigirem para o mercado de capitais, investindo em ações e debêntures de empresas brasileiras improdutivas e não-confiáveis, podem optar por se protegerem em dólares, copiando o mau exemplo dos vizinhos.

Crédito da foto da página inicial: Arquivo Agência Brasil






Brasil Debate
FOLHA DIFERENCIADA - Porque nem toda folha é igual

Nossa futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, senhoras e senhores.



DCM
FOLHA DIFERENCIADA - Porque nem toda folha é igual

No início desta semana, em Marrakesh, foi adotado, por consenso pela conferência intergovernamental da ONU, um Pacto Global por uma Migração Segura, Ordenada e Regular. O encontro contou com a participação de 165 países dos 193 que integram a ONU, entre eles, o Brasil. No entanto, assim que o acordo foi anunciado, o futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, anunciou, no Twitter, que “o governo Bolsonaro se desligará do Pacto” a partir de 1º de janeiro.


Por Christiane Peres
Foto - Richard Silva/PCdoB na Câmara



O anúncio do futuro chanceler foi criticado pelo líder do PCdoB na Câmara, deputado Orlando Silva (SP). Para ele, que foi relator da Lei de Migração, o Brasil cometerá um erro grave se abandonar o acordo.

“A Lei de Migrações é uma lei contemporânea. É muito grave esse anúncio. O Brasil dará vários passos atrás se não mantiver o compromisso com o Pacto Global pela Migração. O Brasil vai entrar na contramão do mundo. O Brasil é um país formado por migrantes”, criticou o parlamentar.

Se for confirmada, a saída do Brasil do Pacto é um novo sinal de aproximação com a diplomacia do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que abandonou a elaboração do texto em dezembro de 2017.

Em sua mensagem na rede social, Araújo, que prega uma aliança especial e acima de todos os demais aliados com os EUA, disse que "a imigração deve estar a serviço dos interesses nacionais e da coesão de cada sociedade", e que vai acolher os refugiados venezuelanos, mas que "o fundamental é trabalhar pela restauração da democracia na Venezuela".

Também na rede, o atual chanceler Nunes Ferreira reagiu: "Li com desalento os argumentos que parecem motivar o presidente eleito a querer dissociar-se do Pacto Global sobre Migrações. O pacto não é incompatível com a realidade brasileira. Somos um país multiétnico, formado por migrantes, de todos os quadrantes", disse ele, que também lembrou que o acordo afeta os milhares de brasileiros no exterior.

Até o momento, somente uma dezena de países expressou abertamente sua oposição ao pacto. Além dos Estados Unidos e agora o futuro governo Brasileiro, se destacam Áustria, Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Bulgária, Austrália e Chile, país que se afastou um dia antes do começo do encontro de Marrakesh.

O processo para adotar o pacto começou há 18 meses, ainda que as negociações formais tenham se iniciado em janeiro deste ano e concluído em julho, após seis rodadas. Sua aprovação definitiva depende somente da votação que será realizada em 19 de dezembro na sede da Assembleia Geral da ONU, em Nova York.

O Pacto é um documento abrangente para melhor gerenciar a migração internacional, enfrentar seus desafios e fortalecer os direitos dos migrantes, contribuindo para o desenvolvimento sustentável, segundo a ONU.

O texto destaca princípios e enumera propostas para ajudar os países a enfrentar as migrações, como o intercâmbio de informação e de experiências, ou a integração dos migrantes.

Segundo a ONU, a ideia é equilibrar as relações entre países e migrantes. “Então, como a migração pode ser regulada para que funcione para todos - pessoas e países? O Pacto Global foi elaborado para lidar com isso, trabalhando em nível nacional, regional e global. Não há dúvida de que veríamos um aumento na colheita dos benefícios da migração e, muito importante, reduzindo alguns de seus aspectos negativos”, disse Louise Arbor, Representante Especial para a Migração Internacional.

O documento destaca 23 objetivos para a cooperação internacional em relação à imigração. Entre os objetivos, uma proposta visa o trabalho em conjunto para melhorar as condições estruturais de países e diminuir a fuga de pessoas de seus territórios.

• Coletar e utilizar dados precisos e desagregados como base para políticas
• Minimizar os fatores adversos e os fatores estruturais que obrigam as pessoas a deixarem seus países de origem
• Fornecer informações precisas e oportunas em todos os estágios da migração
• Assegurar que todos os migrantes tenham prova de identidade legal e documentação adequada
• Aumentar a disponibilidade e a flexibilidade dos caminhos para a migração regular
• Facilitar o recrutamento justo e ético e salvaguardar condições que garantam um trabalho decente
• Abordar e reduzir vulnerabilidades na migração
• Salvar vidas e estabelecer esforços internacionais coordenados em migrantes desaparecidos
• Reforçar a resposta transnacional ao contrabando de migrantes
• Prevenir, combater e erradicar o tráfico de pessoas no contexto internacional migração
• Gerenciar as fronteiras de forma integrada, segura e coordenada
• Reforçar a certeza e previsibilidade nos procedimentos de migração para triagem, avaliação e encaminhamento
• Usar a detenção de migração apenas como uma medida de último recurso e trabalhar para alternativas
• Reforçar a proteção, assistência e cooperação consulares em toda o ciclo de migração
• Fornecer acesso à serviços básicos para migrantes
• Capacitar os migrantes e as sociedades para a plena inclusão e coesão social
• Eliminar todas as formas de discriminação e promover o discurso público baseado em evidências para moldar percepções de migração
• Investir no desenvolvimento de competências e facilitar o reconhecimento mútuo de competências, qualificações e competências
• Criar condições para os migrantes e as diásporas contribuírem plenamente para o desenvolvimento sustentável em todos os países
• Promover uma transferência de remessas mais rápida, segura e mais barata e promover a inclusão financeira dos migrantes
• Cooperar para facilitar o regresso e a readmissão seguros e dignos, bem como reintegração sustentável
• Estabelecer mecanismos para a portabilidade dos direitos de segurança social e benefícios
• Fortalecer a cooperação internacional e as parcerias globais para garantir a segurança, ordenação e migração regular



Fonte: PCdoB na Câmara, com informações de agências.




Portal Vermelho
FOLHA DIFERENCIADA - Porque nem toda folha é igual

Como no universo paralelo dos gibis do Superman, futuros ministros parecem caricaturas dos antecessores nos governos Lula e Dilma


OS SUPER-HERÓIS DO MUNDO BIZARRO POR ERIC POWELL
Cynara Menezes
O principal critério de Jair Bolsonaro para a composição de seu ministério tem sido escolher a dedo cidadãos que simbolizem o exato contrário de seus homólogos petistas. É absurdamente meticulosa até aqui a busca por perfis que sejam a imagem invertida dos nomes mais vistosos do PT nos governos Lula e Dilma. Uma espécie de Mundo Bizarro onde os petistas foram substituídos por personagens que são o seu oposto em tudo.

O Mundo Bizarro é um universo paralelo criado em 1960 pelo roteirista Otto Binder e o desenhista Wayne Boring, embora o Bizarro, o Super-Homem invertido, tenha aparecido pela primeira vez em um gibi do Superboy três anos antes. Cada um dos super-heróis e mesmo os vilões estão representados por um clone imperfeito seu, desprovidos de nobreza: tem a Bizarra (a Mulher-Maravilha Bizarra), o Batman Bizarro, o Lex Luthor Bizarro… O Super-Homem Bizarro não teme a criptonita; o Batman Bizarro usa um cinto de futilidades, cheio de pontas de cigarro; e a Bizarra é uma simplória que acha que o homem é superior à mulher. Soou familiar?


BIZARRO X SUPERMAN

Sem dúvida, a metáfora mais evidente com o Mundo Bizarro é a figura da futura ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, que claramente encarna uma versão caricaturesca da ocupante da pasta durante o governo Dilma, a deputada federal Maria do Rosário, do PT. Rosário tem sido, nos últimos anos, alvo dileto dos ataques mais vis da extrema-direita, que já utilizou inclusive sua filha adolescente para atingi-la. E Bolsonaro (Freud explica) caçou uma versão Bizarra de sua arqui-inimiga para o ministério: uma pessoa contra os Direitos Humanos na pasta dos Direitos Humanos.

Rosário quer garantir o atendimento às mulheres que abortaram na rede de saúde pública; Damares vai ressuscitar o Estatuto do Nascituro, que prevê “bolsa-estupro” para a mulher vítima de violência sexual que preferir ter o filho em vez de recorrer ao aborto legal. Professora, Rosário é a favor do estado laico; pastora evangélica e advogada, Damares diz, atentando contra a Constituição, que é hora de a igreja governar. Rosário é feminista; Damares é antifeminista e acha que o lugar da mulher é em casa, cozinhando e cuidando dos filhos (embora ela mesma tenha saído para trabalhar). Quer duas pessoas mais opostas do que essas?

A metáfora mais evidente com o Mundo Bizarro é a figura da ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, caricatura da ocupante da pasta durante o governo Dilma, Maria do Rosário, do PT. Bolsonaro escolheu uma versão Bizarra de sua arqui-inimiga Rosário para o ministério

Na pasta do Meio Ambiente, Bolsonaro colocou a anti-Marina Silva, o anti-Carlos Minc: o advogado Ricardo Salles, do partido Novo, réu por crime ambiental, é um cético do aquecimento global que ataca os órgãos fiscalizadores do governo, como o Ibama e o ICMBio, e questiona os números do desmatamento, acusando todos de se mover “por ideologia”. Praticamente um ambientalista ao revés.

Escolhido por ser a tradução togada do antipetismo no país, Sérgio Moro, o Batman do Mundo Bizarro de Bolsonaro, é o justiceiro parcial, para quem a Justiça é uma balança viciada, que pende para um lado só. Um típico membro da Liga da Injustiça, a versão Bizarra da Liga da Justiça.


A LIGA DA INJUSTIÇA VERSÃO LEGO. FOTO: DIVULGAÇÃO

No Ministério das Relações Exteriores, o ultra-conservador Ernesto Araújo se mobiliza contra o “globalismo”, entendido por ele como uma doutrina econômica “pilotada pelo marxismo cultural” e que tem no “climatismo” um de seus dogmas. Dublê despreparado e delirante do ex-ministro Celso Amorim, Araújo promete uma cruzada anti-abortista (!) e anti-ideológica no Itamaraty. Ideologia nas Relações Exteriores só se for a sua.


BIZARRO POR ERIC SPITLER

E quem há de negar que Bolsonaro, o Bizarro-Mor, clone imperfeito do Super-Homem, é uma versão canhestra do líder popular encarnado por Lula? Um Lula do avesso, autoritário, intolerante, contra os movimentos sociais, armamentista, sabujo dos Estados Unidos, sem estofo, a favor da desigualdade social, da violência policial, de receber sem-terra a bala. Bizarro. O mais assustador é que um dos superpoderes do Superman invertido era produzir clones sem fim de si mesmo…

Nas histórias em quadrinhos da DC, o lema do Mundo Bizarro era: “Nós fazemos o oposto das coisas da Terra! Detestamos a beleza! Amamos a feiúra! É um crime grave fazer coisas perfeitas no Mundo Bizarro!”. Bem a propósito, o planeta de origem dos Bizarros, Htrae (Earth, Terra, ao contrário) é plano. Ou melhor, em formato de cubo. Qualquer semelhança não será mera coincidência.


O MUNDO BIZARRO É PLANO






Socialista Morena
FOLHA DIFERENCIADA - Porque nem toda folha é igual

"A quem interessa o fim do ministério?", questionou dirigente. Sindicalistas, que prometem resistir, afirmam que o próximo governo só adota medidas a favor dos empresários

por Vitor Nuzzi, da RBA 

Manifestação diante da antiga DRT termina com 'patrão' sendo carregado por 'escravos', ironia dos sindicalistas ao próximo governoREPRODUÇÃO FACEBOOK


São Paulo – Durante ato das centrais sindicais contra a extinção do Ministério do Trabalho, na manhã desta terça-feira (11), o próprio representante da pasta em São Paulo, o superintendente regional Marco Antonio Melchior, subiu ao carro de som para falar em defesa da instituição, na mira do próximo governo.

A manifestação, diante da sede do órgão, a antiga DRT, na região central de São Paulo, terminou por volta de 11h30 com um "patrão" transportado em uma rede por escravos, à moda do período colonial, uma forma de denunciar favorecimento aos empresários pelo futuro presidente.

Na semana passada, Onyx Lorenzoni, que responderá pela Casa Civil, disse que o Ministério do Trabalho terá sua funções distribuídas em três áreas. Os sindicalistas prometem resistir a essa medida. "Se você extingue, não tem mais o espaço de diálogo", afirmou o secretário-geral da CUT, Sérgio Nobre.

"O que se avizinha para o próximo período é mais retirada de direito", acrescentou, lamentando declaração do presidente eleito, Jair Bolsonaro, de que é preciso optar entre emprego ou direito. "Trabalho sem direito é escravidão." Segundo ele, o MT ganha visibilidade com suas ações pelo interior, mas o trabalho escravo não se limita a essas áreas. "Tem em São Paulo, tem aqui do lado."

No cargo desde julho, o superintendente regional do Trabalho em São Paulo disse que até agora não chegou nenhuma informação sobre o fim do ministério. "Sabemos o que todos sabem", comentou Melchior, que é auditor fiscal há 22 anos e enfatizou que sua indicação para a Superintendência foi técnica, conforme preocupação do atual ministro, Caio Vieira de Mello.

"Temos inúmeras funções importantes, que não podem deixar de existir", disse o superintendente, citando serviços como atendimento ao trabalhador e ao imigrante, atividades de economia solidária e fiscalização.
Patrimônio

O Ministério do Trabalho é um "patrimônio dos trabalhadores", afirmou o presidente da Força Sindical, Miguel Torres. "A quem interessa a extinção? Aos trabalhadores ou àqueles maus patrões, que ainda escravizam trabalhadores?", questionou.

Ele também se referiu à proposta de lançar uma carteira profissional "verde e amarela", para trabalhadores com menos direitos, sob a alegação de que isso reduziria custos e facilitaria contratações – embora o impacto da "reforma trabalhista", criada com essa finalidade, tenha sido praticamente nulo. Para Miguel, querem dividir trabalhadores em "primeira e segunda categoria".

O presidente da CTB, Adilson Araújo, acredita que acabar com o MT é apenas "o primeiro ensaio" do novo governo, que segundo ele visa ao "Estado mínimo para atender ao máximo interesse (privado)". "Eles querem entregar tudo", afirmou, prometendo resistência. Vice da UGT, Antônio Carlos dos Reis, o Salim, disse que é preciso seguir o exemplo das manifestações recentes na Argentina e na França, por direitos, para mobilizar os trabalhadores no Brasil.

No início do ato, o presidente da CGTB, Ubiraci Dantas de Oliveira, o Bira, pediu um minuto de silêncio pelos sem-terra assassinados neste fim de semana no interior da Paraíba. E classificou o ministério de "símbolo da Era Vargas", destacando atuação em áreas como relações do trabalho, fiscalização e inspeção. Também lembrou que o governo sinaliza com alterações na Previdência: "Querem mandar uma proposta pior que a do Temer".

"Vamos construir uma frente de resistência democrática ampla, sem sectarismo", garantiu o secretário-geral da Intersindical, Edson Carneiro, o Índio, da Intersindical. "É possível lutar. Vamos enfrentar a extrema-direita."

Nobre, da CUT, enfatizou o discurso da resistência. "Vamos começar o ano fazendo grandes manifestações. Quanto mais eles reprimem, mais a gente vai para a rua." Também participaram da atividade representantes da CSP-Conlutas e da Nova Central.




Rede Brasil Atual
FOLHA DIFERENCIADA - Porque nem toda folha é igual
Marcos Rogério (DEM-RO) afirmou, ao encerrar a reunião desta terça-feira 11), que nao convocará novas sessões do Escola Sem Partido Vinícius Loures/Câmara dos Deputados


O Projeto de Lei 7180/14, conhecido como Escola sem Partido, não será votado neste ano. O presidente da comissão especial que analisa a matéria na Câmara, Marcos Rogério (DEM-RO), encerrou a discussão desta terça-feira (11) e afirmou que não convocará mais reuniões em 2018 (veja abaixo o vídeo com a última reunião).

A razão foi a falta de quórum para votação, mas Marcos Rogério já havia tentado votar o relatório sobre o projeto em outras sete reuniões – sempre em meio a muito tumulto e discussões ásperas, a comissão também vinha sendo frequentemente interrompida pelo começo da ordem do dia no plenário, nos termos do regimento interno. Mas, de fato, faltou quórum mais uma vez: o número máximo de parlamentares presentes foi de 12, quando deveria chegar a 16 para permitir o início da votação.

Marcos Rogério admitiu que o arquivamento será uma “vitória da oposição”, mas acrescentou, em tom de ironia que a situação é resultado das "muitas tarefas" que os deputados favoráveis ao projeto possuem.

"Se esse projeto não será votado nessa legislatura é por consequência da falta de compromisso dos deputados que são favoráveis à matéria, porque a oposição chega aqui cedo, senta e fica sentada, ouvindo, debatendo e dialogando", reclamou o deputado

"Quem está sepultando o projeto nessa legislatura não é a oposição", finalizou.

Na próxima legislatura, o projeto pode ser desarquivado. Mas, para o presidente da comissão, o texto atual do Escola sem Partido seria o ideal.

"Acho que o texto que estamos a deliberar seria muito mais equilibrado, muito mais coerente", afirmou. A ministra nomeada dos Direitos Humanos, Damares Alves, afirmou que o projeto “é prioridade” para o próximo governo. O ministro indicado para a pasta da Educação, concordou que a questão é “providência fundamental”.


Veja como foi a última reunião de 2019 (mais uma vez, em debate marcado por bate-boca e ofensas – veja a partir de 1:26:20):

FOLHA DIFERENCIADA - Porque nem toda folha é igual

A Comissão sobre a Estratégia de Defesa Nacional dos EUA foi criada em 2017 para fornecer ao Congresso conhecimentos especializados nessa matéria. No entanto, a sua principal fonte de informação é o Instituto de Paz dos EUA, o equivalente da NED para o Secretariado da Defesa. Portanto, o seu ponto de vista bipartidário é, na realidade, aquele que o Pentágono deseja que seja defendido pelos partidos Democrata e Republicano.


Manlio Dinucci


Os co-presidentes da Comissão : o Embaixador Eric Edelman e o Almirante Gary Roughead.

À primeira vista, parece o roteiro de um filme catastrófico de Hollywood. Pelo contrário, é um dos cenários apresentados no relatório oficial de2018 da Comissão encarregado pelo Congresso dos Estados Unidos de examinar a Estratégia de Defesa Nacional: “Em 2019, basedos em notícias falsas sobre atrocidades contra as populações russas na Letónia, na Lituânia e na Estónia, a Rússia invade esses países. Enquanto as forças USA/NATO se preparam para responder, a Rússia declara que um ataque às suas forças nesses países será considerado um ataque à própria Rússia, prevendo uma resposta nuclear. Submarinos russos atacam os cabos de fibra óptica transatlânticos e os piratas informáticos russos interrompem as redes elétricas nos USA, enquanto as forças militares russas destroem satélites militares e comerciais USA. As principais cidades dos EUA ficam paralisadas, desactivando a Internet e os telefones celulares”.

A comissão bipartidária, composta por seis republicanos e seis democratas, prevê um cenário semelhante na Ásia: em 2024, a China efectua um ataque surpresa a Taiwan, ocupando-a, e os Estados Unidos não podem intervir com um esforço aceitável porque a capacidade militar chinesa continuou a crescer, enquanto a dos EUA está estagnada devido à despesa militar insuficiente. Estes cenários – esclarece a Comissão - exemplificam o facto de que “a segurança e o bem-estar dos Estados Unidos estão em risco, mais do que estavam nas últimas décadas”.

Desde a Segunda Guerra Mundial, os "Estados Unidos lideraram a construção de um mundo de prosperidade, liberdade e segurança invulgares. Essa concretização, da qual beneficiaram enormemente, foi possibilitada pelo inigualável poderio militar USA”. Mas agora o seu poder militar – “espinha dorsal da influência global e da segurança nacional USA - diminuiu para um nível perigoso. Este cenário é devido ao facto de que “competidores autoritários - especialmente a China e a Rússia – estão a procurar a hegemonia regional e o meios para projectar o poder à escala global”. Será uma tragédia de dimensão imprevisível, mas talvez de dimensão tremenda - adverte a Comissão - se os Estados Unidos permitirem que os seus interesses nacionais sejam comprometidos, devido à falta de vontade de fazer “escolhas difíceis e investimentos necessários”. Portanto, propõe um aumento adicional da despesa militar dos EUA (hoje já equivale a um quarto do orçamento federal) na medida líquida de 3-5% ao ano, especialmente para aumentar a mobilização das forças dos EUA (submarinos, bombardeiros estratégicos, mísseis de longo alcance), na região do Indíco e do Pacífico, onde estão activos quatro dos nossos cinco adversários (o quinto é o Irão): China, Coreia do Norte, Rússia e grupos terroristas”.

A visão estratégica que emerge do relatório do Congresso - ainda mais preocupante se pensarmos que a Comissão é formada igualmente por republicanos e democratas - não deixa dúvidas. Os Estados Unidos - que desde 1945 provocaram com as suas guerras 20 a 30 milhões de mortes (mais centenas de milhões causadas pelos efeitos indirectos das guerras) para “construir um mundo de prosperidade, liberdade e segurança invulgares, do qual eles beneficiaram enormemente”- estão dispostos a tudo para conservar a “potência militar incomparável”sobre a qual se baseia o seu império, que está a desmoronar com o aparecimento de um mundo multipolar.

Para esse fim, a Comissão do Congresso apresenta cenários de agressão aos Estados Unidos, os quais não são mais do que a imagem reflexa da sua própria estratégia agressiva, que corre o risco de conduzir o mundo à catástrofe.

Manlio Dinucci
Tradução
Maria Luísa de Vasconcellos
Fonte
Il Manifesto (Itália)


Rede Voltaire
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"A gratidão é a memória do coração, já disse Santo Agostinho. No campo político, preciso agradecer ao ex-presidente Lula, que me fez ministro", afirmou José Múcio Monteiro, que foi indicado por Lula para o cargo há 9 anos.


Divulgação/TCU


O ministro José Múcio Monteiro tomou posse nesta terça-feira (11) como presidente do Tribunal de Contas da União (TCU) e, em seu discurso, fez um agradecimento ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diante do presidente golpista Michel Temer (MDB) e do futuro ministro da Segurança Pública, Sérgio Moro.

“Peço licença aos senhores para fazer agradecimentos a nomes que me pedem o coração. A gratidão é a memória do coração, já disse Santo Agostinho. No campo político, preciso agradecer Roberto Magalhães, que me iniciou na política, ao povo de Pernambuco, que me deu cinco mandatos, e ao ex-presidente Lula, que me fez ministro”, afirmou Múcio Monteiro, que foi indicado por Lula para o cargo há 9 anos.


A cerimônia foi acompanhada também pelo economista Paulo Guedes, futuro titular da Economia. José Múcio assume o TCU no lugar de Raimundo Carreiro. A vice empossada é a ministra Ana Arraes.

As informações são do jornal O Globo.





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