O oceano possui um vasto conjunto de animais que, assim como nos outros habitats da Terra, buscam as melhores formas de se alimentar para sobreviver, e muitas destas formas, além de desconhecidas por nós, são bastante bizarras. Uma destas estratégias de alimentação inovadoras acabou de ser relatada por um grupo de cientistas. Em vez de dentes, um grupo de invertebrados marinhos usa redes de muco para consumir grandes quantidades de pequenas partículas semelhantes a plantas. Em seu novo artigo, os cientistas propõem uma nova categorização para esse grupo.

As folhas mucosas desses animais podem ser estruturadas em redes ornamentadas que podem funcionar como um filtro para capturar alimentos tão pequenos quanto bactérias. Os próprios herbívoros são gigantescos em comparação com o alimento que capturam: eles são até 10.000 vezes maiores que a sua comida. Em termos humanos, seria como se nós nos alimentássemos de grãos de sal.

“Biólogos marinhos como eu costumavam pensar que o pastoreio de muco era uma estratégia de alimentação “pega-tudo” – a ideia era que esses caras simplesmente devoravam o que quer que fosse que seu lençol mucoso pegasse. Mas os avanços tecnológicos recentes estão nos ajudando a entender que os pastores mucosos podem ser comedores exigentes. E o que eles consomem – ou não – influencia as redes alimentares oceânicas”, relata a autora, Kelly Sutherland, professora de biologia na Universidade do Oregon, nos EUA, em um texto publicado no portal The Conversation.

Estes animais são gêneros de plânctons e outras espécies de invertebrados marinhos que têm tipicamente centímetros de comprimento. “Eles medem aproximadamente o tamanho da unha até o tamanho da sua mão”, diz Sutherland. Porém, alguns deles formam colônias compostas de muitos indivíduos em longas cadeias que podem ser muito mais longas do que isso. Essas criaturas são grandes e aquosas em comparação com outros animais planctônicos.

Estes “pastores” de malha mucosa, como Sutherland os chama, são flutuantes e adaptados ao oceano aberto. “Eles vivem longe da costa, onde a comida é escassa e muitas vezes pequena. Os minúsculos orifícios e fibras de suas malhas mucosas permitem que eles capturem partículas microscópicas, que depois engolem, às vezes junto com o muco”, explica a pesquisadora.

“Estas criaturas têm um órgão especial, chamado endóstilo, que faz a secreção de sua malha mucosa. Dependendo do animal, esta malha mucosa pode estar localizada dentro ou fora do corpo. Um grupo, por exemplo, segrega uma bolha mucosa grande o suficiente para o animal viver dentro. Outro grupo, apelidado de borboletas marinhas, secreta teias mucosas que se ligam aos pés em forma de asas”, relata ela em seu texto. Estas teias mucosas variam em tamanho de dois centímetros a quase dois metros.

Animais seletivos


Historicamente, os cientistas acreditavam que estes animais comiam qualquer coisa que passasse por sua peneira mucosa, algo semelhante a um filtro no ralo da pia da cozinha que pega tudo de um certo tamanho que passa por ele. Mas Sutherland afirma que pesquisas recentes de seu laboratório e de outros desafiam essa suposição e mostram que a alimentação deles pode ser altamente seletiva. O muco pode capturar certas partículas de alimentos perfeitamente, enquanto rejeita completamente outras partículas com base no seu tamanho, forma ou propriedades da superfície.

Por exemplo, quando apresentada com uma mistura de partículas esféricas e em forma de bastonete, de formato diferente mas de tamanho similar, uma espécie destes animais escolhe as partículas esféricas e descarta as outras.

“É como escolher entre batatas fritas: são feitas de batatas e têm aproximadamente o mesmo tamanho, mas têm formas diferentes. A “escolha” alimentar deles é passiva, no entanto, relacionada à forma como a presa de formato diferente se orienta na água e é interceptada pela malha”, diz a pesquisadora.

Mas as presas também possuem características que podem as salvar ou não da rede de muco. Algumas bactérias, por exemplo, têm superfícies semelhantes a Teflon e não aderem às malhas mucosas, então elas quase nunca são consumidas.

Ciclo oceânico

Sutherland diz que os oceanógrafos estão interessados ​​em como este material se move através do oceano e como o processo pode ser mediado pelos organismos.

O fato de que eles não capturam todas as presas tem também consequências importantes sobre a forma como o carbono se movimenta no oceano. Após a alimentação, os animais jogam partículas de alimento não digeridas em pelotas fecais ligadas a muco ou outro material descartado. Sutherland explica que, ao colocar presas pequenas em um aglomerado maior de muco pegajoso, estes animais fazem com que eles afundem mais rapidamente. Isso basicamente move material orgânico para as profundezas do oceano, potencialmente armazenando-o lá por anos ou mesmo séculos. Dessa forma, este material não está disponível para a maioria dos organismos marinhos que vivem perto da superfície.

“Até a última década ou duas, os cientistas não tinham ferramentas tecnológicas para observar o que acontecia com os herbívoros de malha mucosa em seu habitat nativo nas minúsculas escalas apropriadas. Como esses organismos são bastante frágeis, agora os pesquisadores em meu laboratório e outros usam mergulho autônomo ou robôs para observá-los diretamente debaixo d’água. Essas observações minuciosas e cuidadosas usando câmeras de alta velocidade e microscópios subaquáticos ou fazendo estudos de alimentação no ambiente natural nos mostraram como eles selecionam certas partículas e rejeitam outras”, explica a pesquisadora em seu texto.

Ela garante que outros avanços combinarão os métodos subaquáticos com desenvolvimentos recentes em imagens e sequenciamento genético para esclarecer o papel destes animais na estrutura da comunidade microbiana do oceano. “A imagem subaquática permite observações sem perturbações dessas frágeis criaturas. Os pesquisadores podem observar como partículas individuais se comportam na malha e se elas são finalmente capturadas. O sequenciamento genético usado no contexto de estudos de alimentação ajuda os cientistas a identificar e distinguir os grupos de minúsculos micróbios que são frequentemente invisíveis a olho nu”.

Saber quais partículas são consumidas e quais não são pode ajudar os cientistas a entender o impacto destes animais nas cadeias alimentares do oceano.

Sutherland ainda diz que a alimentação seletiva destes animais pode ter implicações profundas nos ciclos biogeoquímicos, particularmente no momento atual de mudanças nas condições oceânicas. “Fatores ambientais como a temperatura oceânica, a disponibilidade de nutrientes e o tipo e a quantidade de presas influenciam quando e onde os animais mucosos aparecem, por quanto tempo permanecem e seu impacto nas cadeias alimentares oceânicas”.

A pesquisadora usa o exemplo de uma espécie mais tropical destes animais, a Pyrosoma atlanticum. “Típicas em águas mais quentes do norte da Califórnia, eles confundiram cientistas e pescadores quando surgiram na costa do Oregon em 2014. Ninguém sabe por que os pirossomos apareceram, mas as temperaturas do oceano aqueceram na mesma época. Como outros animais de malha de muco, o fino filtro dos pirossomos permite que eles pastem nas partículas menores que estão associadas a águas superficiais mais quentes e menos ricas em nutrientes – presas muito pequenas para a maioria dos outros animais capturarem. Juntamente com outros pesquisadores ao longo da Costa Oeste, meu laboratório está trabalhando ativamente para entender por que os pirossomos apareceram, como eles podem afetar o ecossistema marinho e se eles persistirão”. [The Conversation]


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