Foto: Justin Sullivan/Getty Images


Jon Walker

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QUANDO A CERVEJARIA norte-americana Molson Coors divulgou no começo do ano que considerava o advento da maconha legalizada um grave risco para seus negócios, o que a empresa estava fazendo era marcar posição em um dos lados de um debate acirrado, que vem acompanhando o movimento pela retirada da maconha da obscuridade para o mundo dos bens de consumo tributados e regulados.

No Colorado, o estado norte-americano pioneiro na legalização, os defensores centralizaram sua campanha no argumento de que a maconha seria muito mais segura que o álcool, e por isso deveria ser tratada pelo menos de forma semelhante.

O argumento, no entanto, se torna inócuo se a maconha for um complemento para o álcool em vez de um substituto, isto é: se fumar fizer você beber mais, não faz diferença se ficar doidão for mais seguro que ficar bêbado.

Como o governo federal dos EUA vem há bastante tempo negando recursos para pesquisas sobre a cannabis, ainda há muito a se aprender, mas os resultados iniciais parecem indicar que o que se intuía era verdade: a maconha é um substituto não apenas para o álcool, mas também para os opiáceos.

“Embora ainda não se conheça o impacto final disso, o surgimento de cannabis legalizada em alguns estados dos EUA e do Canadá pode resultar em um afastamento da renda discricionária em relação aos nosso produtos ou em uma mudança nas preferências dos consumidores em prejuízo da cerveja”, alertou em seu documento a Molson Coors Brewing Company.

Mas a indústria de bebidas alcoólicas tampouco está ignorando a ameaça. Diversas empresas da área de bebidas, além de organizações do setor, ajudaram a financiar campanhas contra as iniciativas de legalização da maconha, o que indica que devem estar suficientemente convencidas dessa teoria para gastar dinheiro com ela.

Fiz uma análise preliminar sobre a venda de bebidas alcoólicas no Oregon, e os resultados indicam que as preocupações da indústria podem ter seus méritos, e que a maconha legalizada pode realmente estar fazendo as pessoas consumirem menos álcool.

A forma como o uso recreativo da maconha impacta o consumo de álcool pode ser a consequência mais importante da legalização em termos financeiros e de saúde pública. Embora o uso de maconha não esteja isento de problemas, o álcool é responsável por aproximadamente 88 mil mortes por ano nos Estados Unidos, e estima-se que o consumo excessivo crie um custo econômico de cerca de 250 bilhões de dólares.

Os eleitores do estado do Oregon decidiram pela legalização da maconha em 2014, por meio da Medida 91. Em outubro de 2015 o estado começou a permitir vendas para uso recreativo a adultos maiores de 21 anos, mas as cidades e os condados tinham a prerrogativa de impedir esse tipo de comércio; por isso, em alguns lugares essa modalidade de venda continuou proibida. Tal fato possibilita comparar as vendas de bebida alcoólica entre as partes do estado onde há lojas de maconha para uso recreativo e aquelas onde elas não existem, com base em dados da Comissão de Controle de Bebida do Oregon (Oregon Liquor Control Commission, OLCC).

Nessa análise, os municípios do Oregon foram divididos em dois grupos: cidades onde havia pelo menos uma loja que vendia maconha para uso recreativo durante o ano fiscal de 2017 da OLCC (do meio de 2016 ao meio de 2017), e cidades onde nunca havia sido vendida maconha para uso recreativo até julho de 2017. Os dados das lojas se baseiam nas informações obtidas da Autoridade de Saúde do Oregon e da OLCC.

Nos anos fiscais de 2016 e 2017, o total das vendas de bebidas alcoólicas nas cidades onde havia também venda de maconha para uso recreativo aumentou apenas 4,17%. Em comparação, nas cidades onde não havia lojas de maconha, o total das vendas de bebidas alcoólicas aumentou 5,86%. Embora a diferença absoluta seja pequena, foi a maior distância entre as taxas desses dois grupos ao longo de quatorze anos. Nos anos anteriores, o crescimento havia sido bastante próximo.



O crescimento da venda de álcool caiu no ano fiscal de 2016 nas áreas onde havia lojas de maconha. Jon Walker

É claro que outros fatores podem ter estado em jogo, e trata-se apenas de dados relativos ao período de um ano. As cidades que permitem a venda de maconha tendem a ser mais liberais. Além disso, um grande número de habitantes do Oregon vivem perto da fronteira com o estado de Washington, que privatizou a venda de bebida alcoólica em 2012 e deu início à venda de maconha para uso recreativo em 2014. Ainda assim, a nítida divergência que se mostrou depois do primeiro ano fiscal completo de venda de maconha para uso recreativo é um resultado intrigante – em especial quando combinado com outros estudos que mostram que as pessoas podem estar substituindo outras drogas por maconha.

EMBORA OS ESFORÇOS PARA estudar esse assunto estejam intrinsecamente limitados pelo fato de que a maconha só foi legalizada recentemente e em poucos lugares, já existem estudos indicando que a aprovação estadual do uso da maconha para fins medicinais esteve associado a uma redução de 15% nas vendas de álcool. A pesquisa examinou as vendas de álcool em condados antes e depois da adoção da maconha para uso medicinal e as comparou com as vendas em condados vizinhos e em outros estados. Um relatório recente da Cowen Research concluiu, de forma semelhante, que os episódios de consumo excessivo de álcool eram menos comuns nos estados que haviam legalizado a maconha.

Outras pesquisas sobre o tema tiveram resultados mais variados. Um estudo da organização Rand concluiu que a maconha para uso medicinal estava associada a um discreto aumento nas mortes relacionadas à intoxicação por álcool em pessoas abaixo de 21 anos, mas também a uma redução de maior proporção da mortalidade relacionada ao álcool e aos opiáceos em adultos mais velhos.

Alguns estudos também concluíram que os estados onde existe distribuição de maconha para uso medicinal tiveram uma redução relativa no número de mortes ligadas ao uso de opiáceos. Isso parece indicar que a maconha também substitui outras substâncias mais perigosas, além do álcool. Apenas este mês, dois novos estudos foram publicados na revista JAMA Internal Medicine. Um deles constatou que a existência de legislação regulando o uso de maconha por adultos estava associada a uma taxa de prescrição de opiáceos 6,38% menor entre os pacientes com Medicaid (programa de saúde americano para pessoas de baixa renda). Os demais detectaram uma redução no número de receitas de opiáceos registradas pelos pacientes com Medicare (seguro de saúde público destinado a idosos dos EUA) depois que a maconha para uso medicinal passou a ser distribuída em seus estados.

Importante destacar que no estado do Oregon só existem dados referentes ao período de um ano, e que seria razoável imaginar que o efeito de substituição fosse relativamente pequeno, a princípio. Hábitos e vícios são por essência comportamentos refratários à mudança. Na hipótese de que haja um efeito de substituição em curso, não seria exatamente de se esperar que consumidores de álcool em grande doses imediatamente se tornassem usuários de cannabis. O mais provável, na verdade, é que algumas pessoas com potencial para se tornarem grandes consumidores de álcool passem, em vez disso, a usar cannabis.

Essa análise se baseia apenas em dados preliminares, mas destaca uma questão de grande interesse. Serão necessários muitos anos para reunir dados suficientes para atingir conclusões definitivas sobre o impacto da plena legalização, mas a comparação entre as cidades nos estados de Oregon, Alaska, Nevada e Massachussetts que decidiram permitir a venda de maconha para uso recreativo, e aquelas que não o fizeram pode se mostrar uma fonte muito útil de informação.

Embora os estados do Colorado e de Washington tenham sido tecnicamente os primeiros a legalizar a maconha, ambos já possuíam há anos sistemas de distribuição de maconha para uso medicinal, que facilitavam o acesso pela população por meio de jardins coletivos ou dispensários. Seria difícil separar o impacto de uma legislação já muito liberal em relação à maconha de uso medicinal do impacto da maconha de uso recreativo. Já Oregon, Alaska, Nevada e Massachussetts tinham distribuição muito restrita de maconha de uso medicinal, ou apenas por curtos períodos, antes da legalização.

Em vários estados, os governos que estão decidindo como lidar com a maconha de uso recreativo estão indiretamente fazendo parte de um enorme experimento natural. O potencial resultado pode impactar as políticas relativas à maconha, ao álcool e à saúde pública ainda por muitos anos.

Em destaque: Uma nuvem de fumaça flutua sobre as cabeças de um grupo de pessoas durante uma celebração do “Dia 420″ na “Colina Hippie” do Parque Golden Gate, em 20 de abril de 2010, em San Francisco.

Tradução: Deborah Leão

The Intercept Brasil

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