Wilson Gomes: A morte da narrativa épica do impeachment

O procurador Geral da República, Rodrigo Janot (Arte Andreia Freire/Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil)
De repente, em 2015, o impeachment começou a parecer a muitos uma solução plausível para encerrar o governo recém-iniciado de Dilma Rousseff. Naturalmente, depois de discutidas publicamente outras hipóteses, levantadas à profusão desde que o inconformado Aécio Neves perdeu, em outubro, uma presidência da República que, na sua cabeça, lhe havia sido prometida pelo destino. Primeiro, a impugnação da eleição por fraude pois se Aécio perdeu, depois que Deus lhe prometeu que ganharia, só pode ter sido porque houve algum erro de contagem. Depois, a cassação da chapa, porque há de ter havido abuso de poder econômico e, é claro, estelionato eleitoral. Até que veio a ideia do impeachment, que revestiria de institucionalidade a intervenção bruta e seca do sistema político para encerrar o ciclo de vitórias eleitorais do PT. Se o eleitor não desiste do PT, substitua-se o eleitor pelo Congresso Nacional e abreviemos esta agonia.

O impeachment parecia uma ótima ideia. Haveria institucionalidade suficiente para que fosse perpetrado sem entregar integralmente aos vencidos o argumento da ilegitimidade. De fato, com o STF autocontendo-se no papel de mestre de cerimônia, com a adesão dos influentes meios de comunicação e, por fim, com o apoio da maioria da opinião pública, os articuladores do impeachment garantiram a “legitimidade suficiente” de que precisavam, pelo menos a legitimidade formal e ritualística. Desta forma, o que foi projetado nas constituições democráticas para ser o botão de pânico da democracia liberal, antes o risco de abuso de poder do presidente eleito, transformou-se em um atalho da política institucional para abreviar mandatos de presidentes que perdessem (2/3) da maioria política no Congresso, independente do que houvesse dito, nas urnas, a soberania popular.

Em 2015 e 2016, espernearam contra o impeachment só os petistas, que viram sua presidente recém-eleita pelo voto popular ser removida do cargo por um colegiado de representantes eleitos movido por apetites políticos inconfessáveis e, principalmente, constituído por suspeitos, indiciados e acusados de toda a sorte de crimes. Ao lado deles, apenas os formalistas políticos, os defensores das regras do jogo, que insistiam que o impeachment não foi projetado para o cassino político e para que o cassino político anulasse a expressão eleitoral livre e legítima da soberania popular. Mas era o momento da catarse nacional, as pessoas se sentiam empoderadas porque “foram às ruas” punir o PT, o sistema político salivava ou espumava de ódio pela nova redistribuição do poder com a subida de uma nova hegemonia, o jornalismo exultava porque, mais uma vez, provava com um regicídio a sua enorme capacidade de influenciar a realidade política.

A primeira coisa a morrer, por volta de 2017, pelas mãos das denúncias do Procurador Geral da República, foi a narrativa épica do impeachment. Revela-se, então, por meio de fitas e vídeos, que o que o otário motivado do jornalismo, das mídias sociais e das ruas achou, em 2015 e 2016, que era um grande passo para a restauração da moralidade e para recolocar o Brasil nos trilhos, na verdade não passou de uma peça da engrenagem por meio do qual o clubinho de propinas da Odebrecht (a Orcrim, segundo Janot) assumiu o controle do Estado brasileiro, sem dar um tiro sequer, sem sujar as mãos e, delícia suprema, sem sequer ganhar uma eleição.


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