"Quando a pluralidade da composição social e cultural brasileira for refletida na academia, teremos um ganho inestimável."


Eduardo Torres
Professor e pesquisador da UERJ


AFP/GETTY IMAGES "Pelos corredores, dentro e fora das salas de aula e nas ruas vamos continuar lutando e gritando: UERJ de cotas, de favelado, e quando luta, ninguém fica parado."


Muitos dizem que fazer ciência é uma arte. E nós, professores e pesquisadores, temos o privilégio de olhar a vida através da arte da ciência. Esta relação entre arte e ciência é um parâmetro para embasarmos este texto sobre o complexo momento que estamos vivendo no desenvolvimento cientifico e tecnológico brasileiro.


Sob o prisma das instituições fluminenses, e mais especificamente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), este cenário é ainda mais grave.

Tanto a ciência quanto a arte, geralmente, são vistas e executadas à distância de grande parte da população. Isso sempre foi uma escolha e só vamos conseguir mudar esse cenário com muita luta e enfrentamento.


Tanto a arte quanto a ciência são braços importantes para avançarmos em direção a uma sociedade soberana, independente e, ao mesmo tempo, internacionalista.

A predominância de determinadas classes sociais dentro das universidades traçou um perfil elitista e branco na tarefa de fazer ciência. Entretanto, nos últimos dez anos, mesmo distante do necessário, este perfil foi sendo mudado. Dentro da própria UERJ, hoje podemos observar a presença de professores de origem distinta da maioria dos que chefiam os "principais" grupos de pesquisa em diversas Universidades brasileiras.


Essa mudança de perfil estava impactando positivamente no desenvolvimento científico nacional. A pesquisa não está dissociada de uma visão pré-estabelecida pela história de vida do pesquisador ou pesquisadora. Quando a pluralidade da composição social e cultural brasileira for refletida na academia, teremos um ganho inestimável no potencial de se produzir conhecimento neste país.


Dentro da UERJ, é possível identificar diferenças sociais profundas entre jovens professores, alguns ex-alunos e bolsistas, e docentes que estão na academia há mais tempo. Essas diferenças criam importantes debates internos e amadurecem a reflexão sobre que universidade queremos construir.

Jovens pesquisadores, muitos ainda sem um centavo para investir em suas linhas de pesquisa, não dispõem sequer de mesa ou cadeira para produzir ciência dentro de várias instituições brasileiras. São estes jovens servidores que atualmente se encontram num processo desesperado de falta de perspectiva pessoal e profissional.

Existe uma concepção por trás do sucateamento da ciência nacional. Este é um projeto de estagnação da produção cientifica plural e com a cara do povo brasileiro. A dependência científica e tecnológica internacional é algo que as elites brasileiras sempre apoiaram e ainda apoiam.

A elite que sucateia as universidades públicas hoje, com o objetivo de não criar novas possibilidades de independência popular por meio da educação e da formação crítica, é a mesma que, no período colonial, enriquecia às custas do trabalho escravo e enviava seus filhos para estudar no velho continente.

O corte de bolsas na graduação e pós-graduação ataca cirurgicamente os mais dependentes deste apoio financeiro, que são estudantes negros e negras. Mais especificamente no Rio de Janeiro, os recentes dois anos de redução do investimento público na educação e ciência da UERJ, UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense) e UEZO (Fundação Centro Universitário Estadual da Zona Oeste) acarretará sequelas que levarão mais de dez anos para serem recuperadas.

A produção cientifica das universidades estaduais do Rio hoje ainda resiste com muita força. Continuamos formando estudantes com muita qualidade na graduação, pós-graduação e desenvolvendo nossos projetos de extensão com sangue nos olhos.

Nossos estudantes são formados com a marca da resistência e da pluralidade de uma das universidades mais "coloridas" deste país. O perfil dos servidores e os avanços tecnológicos nas ciências naturais e sociais, agregados à aquisição de equipamentos de ponta, permitem que as universidades estaduais do Rio disponham de um forte arsenal que atrai estudantes de todo o País, além das ricas colaborações internacionais.

Isso não significa que não estejamos sofrendo duramente as consequências do desfinanciamento, mas servidores e estudantes juntos conseguirão resistir e reagir aos duros ataques.

É preciso repensar a universidade, principalmente em relação à sua administração e ao seu financiamento, mas não sob uma perspectiva privatista. Precisamos construir um processo real de autonomia financeira com recursos públicos e investir internamente em horizontalidade administrativa, com verdadeira representação dos três segmentos (docentes, técnicos e estudantes) e da sociedade civil não acadêmica.

O Rio de Janeiro é um laboratório do processo de retrocesso científico e tecnológico, mas a UERJ pode ser uma das principais trincheiras para resistir a este modelo de universidade de elite e para elite. Pelos corredores, dentro e fora das salas de aula e nas ruas vamos continuar lutando e gritando: UERJ de cotas, de favelado, e quando luta, ninguém fica parado.

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