Em meio a um capitalismo que produz cada vez mais desigualdade e dominação, surge um sistema, não mercantil e igualitário, para trocar serviços e desalienar parcialmente o trabalho


Por Valerie Vande Panne | Tradução: Inês Castilho | Imagem:Vanessa Van Gasselt

Vivemos numa sociedade capitalista. Os bancos estão por toda parte, e frequentemente parece que não pode haver vida sem dinheiro e crédito. O abismo entre os que têm e os que não têm aumenta. E a desigualdade econômica explode em toda parte.

Mas surgem, aos poucos, alternativas. Em muitos lugares, as pessoas estão usando um sistema de trocas que requer algo que todos, de alguma maneira, têm igualmente, e sempre: o Tempo.

Como oferecer ou trocar tempo? Por meio de um banco de tempo. A essência é: você gasta uma hora fazendo algo para alguém no banco de tempo de sua comunidade, e recebe um crédito de uma hora para gastar em alguma coisa que precisa. Por exemplo, se levou uma hora limpando o quintal do vizinho, tem uma hora para gastar, por exemplo, com alguém que cuidará de suas crianças ou consertará seu carro. É uma hora por uma hora. A ideia é simples, e está se espalhando.

Veja, por exemplo, o Banco de Tempo Rushey Green, localizado na região sudeste de Londres. É um grupo de 535 pessoas, com projetos que incluem uma comunidade de jardinagem, compostas por mais 400 pessoas, e um projeto de refeições comunitárias, com mais 100. [Veja, também, os primeiros Bancos de Tempo brasileiros].

O Banco Rushey Green Time era muito pequeno quando começou, há quase 20 anos, explica seu diretor, Philippe Granger. Um médico quis oferecer algo mais, além de prescrever medicamentos – em especial para os pacientes que sofriam com isolamento, situações de perda ou desemprego. “Normalmente, um médico prescreve comprimidos” nesses casos, diz Granger. “Mas ele achou que seria melhor integrar os pacientes na comunidade.” O banco começou em um centro de saúde, numa parte da cidade bem mais cinza que verde. É uma área de alto desemprego, mães solteiras e aposentados.

“Nos últimos seis ou sete anos tivemos um aumento dos casos de doença mental. Penso que, se elas avançam no mundo todo porque, é porque a vida está se tornando muito estressante”, diz Granger. Segundo ele, as pessoas com 30 a 40 anos dizem com frequência que estão com depressão, mas isso é usado como “palavra guarda-chuva”.

“Não somos curadores; não somos médicos”, diz ele: “Não prometemos que podemos consertar seu corpo se ele está rompido. Mas podemos ajudar a administrar sua condição física. Você tem uma comunidade em torno de si e recebe apoio. Se quebrou uma perna e está sozinho, fica difícil. Mas se está num grupo, pode ter suporte. Nesse sentido, os efeitos da doença são reduzidos”. Ele acrescenta: “Adoro ver pessoas caídas se levantando”.

No caso de uma perna quebrada, a comunidade do banco de tempo pode ajudar com coisas como fazer entregas, passear cachorros ou limar a casa. O convalescente, em troca, pode fazer telefonemas para uma organização local ou ensinar alguém a ler.

Mashi Blech, diretor do Banco de Tempo ArchCare, em Nova York, concorda. O banco é parte da Arquidiocese de Nova Iorque, patrocinado pelo setor de saúde da igreja — o ArchCare. Mashi trabalha nisso há 30 anos, e o o banco de tempo tem agora mais de 1.500 membros individuais e mais de 80 organizações, que falam 40 idiomas.

“Aqui em Nova Iorque a vida pode ser bem estressante”, diz Mashi. “As pessoas podem sentir-se muito isoladas e solitárias. Isolamento social é um indicador de morte precoce maior do que ser fumante”, diz Kim Hodge, fundador da Aliança de Bancos de Tempo de Michigan e do Banco de Tempo Pontiac. As pessoas precisam sentir-se necessárias, diz ela, e o banco de tempo permite que deem e recebam de modo saudável.

A Arquidioce de Nova York lançou seu banco de tempo ao perceber que, embora muitos usuários do ArchCare recebessem bons cuidados médicos, estavam deprimidos e perdiam o sentido de pertencimento a uma comunidade — em geral devido ao fato de estar envelhecendo. Mashi conta que, de acordo com suas próprias avaliações, as pessoas na faixa dos 70 a 90 anos que usam o banco de tempo relatam melhoras na saúde física e mental. “Isso é muito bom”, diz ela, pois conseguir melhoras nessa idade é excepcional.

Philippe Granger lembra que o banco de tempo é visto de formas diferentes, em diversas partes do mundo. Na Grécia, por exemplo, as pessoas criaram bancos de tempo e redes de troca em função da necessidade. Há um banco de tempo com 2.500 membros na Rússia, que “não é político, mas de cuidado com idosos”. Na Espanha, bancos de tempo são grupos menores de pessoas trabalhando para ser mais resilientes. E na Finlândia, o Banco de Tempo de Helsinki cobra de seus participantes um pequeno imposto em créditos de tempo — que são transferidos para um “ator econômico ético” – uma cooperativa de alimentos, por exemplo. Já nos EUA, ela diz, há bancos de tempo “mais artísticos” e “cheios de pessoas que desejam virar o sistema de cabeça pra baixo”. Philippe analisa: “Você faz o trabalho de acordo com o contexto. Rodos válidos, não se trata apenas de pobreza financeira. É mais pobreza emocional, social.”

No Banco de Tempo Rushey Green não se trocam créditos de tempo por bens. Ao contrário, insiste-se na troca de tempo e no contato com pessoas. “Trata-se de resiliência comunitária. Ajudar-se mutuamente não tem equivalência financeira. Não é somente uma questão de sobrevivência. Falar em sobrevivência é de certa forma negativo, significa que a vida é sem esperanças. Os bancos de tempo trazem vida e felicidade e divertimento. Não é sobrevivência, mas vida”, pensa Philippe.

“Estamos todos tentando encontrar saídas ao sistema capitalista. O banco de tempo é outra maneira de fazer as coisas”, acrescenta ele. Mas conseguir que uma empresa de energia, por exemplo, aceitasse créditos de banco de tempo já seria uma revolução. Até lá, Philippe recomenda que as pessoas administrem os dois sistemas. Você pode viver em vários sistemas, diz, “sem ser um riquinho detestável”.

Ele é cauteloso ao falar sobe o banco de tempo como solução para todos os males do capitalismo. Ressalta também que muitos dos membros idosos do Rushey Green “não dão a mínima para o sistema. Eles têm poucos anos à frente. Querem apenas se divertir.”

O Banco de Tempo Rushey Green também está envolvido em oferecer cartões de desconto para a vizinhança. Cerca de 3.000 membros da iniciativa e outras pessoas recebem cartões que lhes permitem receber descontos em 160 lojas locais. Isso encoraja as pessoas a comprar no comércio do bairro e resulta em apoio à comunidade. “Estamos tentando revigorar os pequenos negócios e ajudá-los a se manter.”

Há problemas, também. Segundo Kim Hodge, da Aliança de Michigan, 75% dos bancos de tempo iniciados deixam de existir depois de alguns anos: o trabalho é muito cansativo para os organizadores, quando são voluntários. “É preciso um tipo de organizador experiente para conseguir recursos”, contratar e pagar uma equipe e manter as coisas funcionando. “É algo que não acontece por si só”, diz ela.

Kim sustenta que os bancos de tempo são parte de uma grande mudança global. “São um pedaço do rico mosaico dos diferentes modos de viver e promover ajuda mútua. Alcançam um certo número de pessoas e desempenham um papel na transformação do nosso mundo — algo certamente necessário.”

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Ronaldo

Blogueiro e livreiro, reproduzo as notícias que considero interessante para os amigos e disponíbilizo meu acervo de livros para possíveis clientes. Boa leitura e boas compras.

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