Após as "manifestações" de 2013, rompeu-se com o "enfrentamento civilizado" que já vigorou no Brasil



Antonio Augusto/Câmara dos Deputados Votação do pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, na Câmara dos Deputados

O debate político brasileiro anda tão contaminado pelo noticiário policial que parece que nada mais interessa ao País. Como se tudo que houvesse de relevante fosse saber qual o próximo escândalo.
Some-se a isso a intensa polarização ideológica que marca os últimos anos, desde, pelo menos, as “manifestações” de 2013.

Sem discutir como surgiram e quem as encorajou e patrocinou, o certo é que sua consequência foi romper com um ambiente de “enfrentamento civilizado”, característico do Brasil da redemocratização.

Nele havia dissenso e visões antagônicas a respeito dos problemas nacionais e dos modos de enfrentá-los. Mas sem que as diferenças de opinião colocassem as pessoas em campos adversários, em que os que não pensam da mesma maneira são desqualificados e considerados inimigos.

Nas crises políticas dos primeiros 20 anos depois do fim da ditadura, preservou-se esse padrão de debate civilizado. Apesar dos percalços, na ascensão e na derrocada de José Sarney, na vitória e na queda de Fernando Collor e, em especial, no delicado intervalo do governo de Itamar Franco, a guerra ideológica nunca foi declarada e o sistema institucional não se desorganizou. As pessoas e os partidos não compartilhavam os mesmos valores e conviviam em relativa harmonia.

Eram tempos muito diferentes dos de hoje. A ponto de ser possível realçar a continuidade dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Mais de um analista sublinhou quão positivo foi o primeiro concentrar-se em um conjunto de temas e o segundo em outros: FHC na organização da economia e Lula na inclusão social.

Muitos observadores, dentro e fora do País, consideravam que éramos privilegiados, por termos experimentado governos distintos, porém complementares, cada um com seus méritos. O Brasil passou a ser visto como quase único, em um mundo onde as incompatibilidades e as rupturas tornaram-se regra.

Daqui a pouco mais de um ano vamos fazer uma eleição presidencial que pode ser decisiva para o nosso futuro. É a oportunidade para pôr cabo ao longo período de desordem institucional que atravessamos. Fundamental é que seja livre, que a candidatura de Lula, desejada por mais da metade do Brasil, não seja excluída por interferência de ninguém. A população é que deve dizer se o quer na vida política e em que função, não um grupelho de funcionários públicos que se acha dono da verdade.

Na eleição de 2018, o Brasil vai afirmar o que quer ser, ao aprovar a agenda da maioria e apontar quem a executará. Simultaneamente, assegurando os instrumentos para que sua vontade seja respeitada.

Formular essa agenda não é tarefa simples, mais ainda no ambiente conflituoso criado pela deposição de Dilma e a crise permanente de Michel Temer. A sociedade brasileira é hoje mais complexa, em diversos aspectos, do que era no fim da ditadura. As pessoas mudaram e os problemas são diferentes, alguns típicos de sociedades desenvolvidas, outros característicos do passado.

Tirando alguns consensos óbvios, por isso mesmo pouco significativos, como a luta contra a corrupção, a população está dividida quase ao meio, quando confrontada com as “grandes ideias”. Recente pesquisa do Instituto Vox Populi mostra quanto.

“Para resolver a crise econômica que o Brasil enfrenta”, 38% dos entrevistados responderam que “ajudaria aumentar o gasto público para ampliar os programas sociais, como o Bolsa Família”, enquanto 36% disseram que isso “prejudicaria” (16% afirmaram que nem uma coisa, nem outra). “Usar os bancos públicos, como o Banco do Brasil e a Caixa, para permitir que as empresas renegociem suas dívidas” seria medida aprovada por 38% e reprovada por 31% (com 15% de indecisão).

“Aumentar os programas de privatizações e concessões” teria o endosso de 32% e a rejeição de 35% (com 14% de “não ajudaria nem prejudicaria”). “Aumentar o gasto público para financiar grandes obras de infraestrutura” seria visto como benéfico por 30% e como prejudicial por 40% (com 16% dizendo nem uma coisa nem outra).

Vemos que, em abstrato, nenhuma dessas ideias tem apoio majoritário. Temas genéricos como “desenvolvimento econômico”, “desestatização” e “justiça social” continuam a ser importantes, mas as questões que realmente interessam aos eleitores são outras: “como”, “com quem”, “de onde virão os recursos”.

Pena que estejamos indo para a eleição tendo de lidar com os lamentáveis fatos do cotidiano e seus personagens menores. Daqui a pouco chega a eleição e o tempo passou sem que tenhamos discutido tudo que há para se discutir.

CartaCapital
Axact

Ronaldo

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