Consequência do improdutivo rentismo tupiniquim, o grau de investimento na economia nacional derrete para próximo de um décimo do PIB, sem paralelo nas estatísticas oficiais

por Marcio Pochmann

CC 2.0 - MISSOES A condução da política econômica pelo o governo, nesta mais grave recessão econômica de todo o período republicano, anulou as forças do mercado interno do país, levando a mais pobreza


“... o sentido da colonização brasileira ... é o de uma colônia destinada a fornecer ao comércio europeu alguns gêneros tropicais ou minerais de grande importância ...” (Prado Jr., 2000)
"A nossa economia se subordina inteiramente a este fim, isto é, se organizará e funcionará para produzir e exportar aqueles gêneros. Tudo mais que nela existe ... será subsidiário e destinado unicamente a amparar e tornar possível a realização daquele fim essencial.” (Furtado, 1977).



A recente expansão dos setores agrários e de exportação aponta o sentido de Brasil que emerge da mais grave recessão econômica de todo o período republicano. Sem poder contar com as forças do seu mercado interno, mutiladas pela condução da política econômica do governo Temer, sobressaem os múltiplos e individualizados interesses regionais em conexão cada vez maior com o exterior, o que termina por reconstituir a velha figura do arquipélago de regiões sem a existência de um centro dinâmico e integrador do nacional.

Nesse sentido vem a retomada da trajetória que vigorou por quatro séculos (1530 a 1930), quando a evolução regional expressava simplesmente a forma com que o Brasil encontrava-se inserido na economia mundial.

Embora os ricos acumulassem suas riquezas a partir de uma economia fragmentada em alguns enclaves localizados no território sem conexão interna, eles se mantinham focados no modo de vida de fora, especialmente na Europa.

Por conta disso, não causa estranheza reconhecer que nos dias de hoje, os ricos e privilegiados miram-se cada vez mais no exterior. Tem sido comum, por exemplo, empresários, ministros de Estado e até presidentes do Banco Central continuarem a receber suas remunerações no Brasil, embora mantenham suas famílias no exterior.

Também comentaristas e analistas econômicos, entre outros ilustres personagens abordados recorrentemente pela mídia local, emitem opiniões e reflexões na defesa da política kamikaze no Brasil a partir de breves passagens pelo país ou mesmo de onde se encontram, no exterior.

Nada mais favorável ao improdutivismo rentista tupiniquim que, alimentado por doses cavalares das mais altas taxas de juros do mundo, prefere a transferência da sua localização para países "seguros", com crescimento econômico e serviços públicos decentes, bem como escolas de elevada performance para seus filhos.

Da mesma forma, registra-se que o avanço na deflação de preços, a denunciar a sequência depressiva em que se encontra o sistema produtivo voltado ao mercado interno, recebeu maior impulso com a mais nova decisão da equipe econômica de Temer de rebaixar a meta e o nível das bandas superior e inferior da inflação. Assim, a direção do Banco Central recebeu carta branca para manter o país na liderança mundial da taxa de juros real.

Com isso, o grau de investimento na economia nacional derrete para próximo de um décimo do PIB, sem paralelo nas estatísticas oficiais. A política de terra arrasada tende a seguir garantida pela somatória de interesses próprios dispersos regionalmente e cada vez mais individualizados pelo câncer do rentismo.

O autoexílio dos interesses da nação, expressão do insulamento de vontades individuais rebaixadas e de posições de egoísmo condenável, estende-se nos diversos poderes da República.

Somente o abandono da política kamikaze de Temer poderia recompor o Brasil no seu conjunto e em torno de um novo caminho sustentável para a recuperação econômica, base pela qual, seria possível fazer as pazes com o futuro e que este não fosse a repetição do passado.

* Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas

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