Washington pressiona Coreia do Sul a rever acordo comercial fechado há cinco anos, sugerindo que Estados Unidos poderiam se retirar de tratado de defesa contra Pyongyang. Seul mostra disposição para negociar.


Recém-eleito presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, ao lado de Donald Trump em visita aos EUA no fim de junho


Apesar de preocupações com os setores automobilístico, siderúrgico e de eletroeletrônicos, o governo da Coreia do Sul parece estar disposto a atender as demandas dos Estados Unidos de renegociar um acordo bilateral de livre-comércio que entrou em vigor em março de 2012.

Washington solicitou formalmente, no último dia 12 de julho, que os dois lados se reúnam para discussões sobre a revisão do acordo comercial – um pacto que o presidente dos EUA, Donald Trump, descreveu como "assassino de empregos" para empresas americanas.

Seul sugeriu não estar imediatamente em posição de iniciar conversações, pois o governo do recém-eleito presidente Moon Jae-in ainda não nomeou um novo ministro do Comércio, mas, ao mesmo tempo, não se recusou a negociar um novo acordo com os Estados Unidos.

A rápida capitulação de Seul, segundo analistas, é o resultado da sugestão implícita de Washington de que os EUA poderiam se retirar do tratado de segurança que garante a proteção da Coreia do Sul perante o vizinho do Norte caso suas demandas não fossem cumpridas.

Em uma carta formal ao governo sul-coreano, o representante dos EUA para questões de comércio, Robert Lighthizer, propôs que um comitê conjunto realize uma reunião especial em Washington nos próximos 30 dias para considerar alterações no acordo comercial. A razão citada para as mudanças foi que os EUA observaram um persistente déficit no comércio com a Coreia do Sul.

"Comércio livre, justo e equilibrado"


"A Coreia do Sul é um importante aliado e parceiro comercial, e para fortalecer nosso relacionamento precisamos de um comércio livre, justo e equilibrado", diz a carta de Lighthizer. "Um foco-chave do governo Trump é reduzir nossos déficits comerciais com parceiros em todo o mundo, e temos preocupações reais com o nosso desequilíbrio comercial significativo com a Coreia do Sul."

De acordo com estatísticas do Departamento de Comércio dos EUA, o déficit comercial americano com a Coreia do Sul aumentou de 13,2 bilhões de dólares – antes de o acordo ter sido assinado – para atuais 27,6 bilhões de dólares. O órgão americano acrescentou que as exportações dos EUA para a Coreia do Sul diminuíram nos últimos cinco anos.

Além da necessidade de nomear um novo ministro do Comércio, o governo sul-coreano pediu primeiramente para examinar as estatísticas e, assim, identificar a causa de qualquer desequilíbrio comercial, mas Seul sinalizou estar disposta a conversar.

"É extremamente irônico que, quando este acordo de livre-comércio foi debatido pela primeira vez na Coreia do Sul, o presidente Lee Myung-bak sofreu críticas terríveis e houve grandes manifestações contra o acordo", disse Rah Jong-yil, ex-embaixador sul-coreano e assessor do governo.

"Um dos opositores mais fortes do acordo foi Moon, que agora é o presidente e está na posição de ter que defendê-lo", ressaltou Rah. "Mas, para mim, é claro que este governo está disposto a renegociar o acordo para a vantagem dos EUA."

"Influência oculta"


Embora nenhum dos lados tenha afirmado que a relação de segurança seja um fator determinante para qualquer decisão, Rah disse acreditar que questões de segurança estejam em jogo.

"Há uma influência oculta, e este governo sul-coreano percebe que, para manter as garantias de segurança fornecidas pelos EUA, precisa fazer certas concessões às demandas dos EUA", afirmou.

No entanto, setores comerciais específicos na Coreia do Sul estão definindo suas reivindicações antes de qualquer debate governamental, com a indústria automobilística admitindo que os veículos exportados para os EUA somaram 15,4 bilhões de dólares desde o início do acordo – nove vezes mais do que o valor referente à venda de carros americanos na Coreia do Sul.

No entanto, representantes do setor automobilístico ressaltaram que a taxa das exportações de automóveis para os EUA caiu 10,5%, enquanto as importações de carros americanos na Coreia do Sul subiram 37%, sugerindo que as montadoras automobilísticas dos EUA estão se beneficiando com o acordo de comércio-livre.

Empresas siderúrgicas apontaram que foram investigadas por denúncias de dumping – prática comercial que consiste em uma ou mais empresas de um país venderem seus produtos, mercadorias ou serviços por preços extraordinariamente abaixo de seu valor justo para outro país – no mercado dos EUA. Enquanto isso, a Posco, maior fabricante de aço da Coreia do Sul, teria sido abalada pelas tarifas anti-dumping sobre as importações de chapas de aço laminadas.

O diretor de Estudos da Ásia no campus japonês da Temple University, Jeff Kingston, afirmou acreditar que as empresas sul-coreanas têm boas razões para se preocuparem com a nova posição que está sendo indicada pelo governo Trump.

"Essa política de 'America first' significa que outros países devem fazer algo que seja benéfico para os EUA", disse em entrevista à DW, acrescentando que a "noção de comércio livre de Trump é que este também deveria ser justo".

Retirada do TPP


Mesmo antes de ser eleito em novembro, Trump fez uma campanha intensa contra os acordos comerciais. Segundo o presidente, estes estavam prejudicando a economia dos EUA, incluindo a Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), da qual ele retirou os EUA pouco depois de assumir a Casa Branca.

Kingston apontou que existem desequilíbrios comerciais também com Japão e China, embora Trump tenha aliviado suas críticas a Pequim relacionadas a manipulação de divisas e abuso de acordo comercial desde que se encontrou com o presidente chinês, Xi Jinping.

É possível que o presidente dos EUA tenha decidido confrontar primeiro a Coreia do Sul devido à sua posição geopolítica relativamente fraca, sugerem analistas.

"O governo sul-coreano entende que o desequilíbrio comercial não é politicamente sustentável para os EUA, que também é seu principal parceiro e aliado", disse Kingston. "É por isso que eles estão dispostos a renegociar o acordo, embora seja improvável que cedam a todas as exigências do governo Trump."

"Eles terão de determinar o limite de Washington e depois decidir o quão longe estão dispostos a ir", acrescentou o especialista. "Os EUA têm a mão mais forte por causa da ameaça da Coreia do Norte, então, eles estão jogando um jogo. Mas é um jogo que inevitavelmente deixará algumas cicatrizes na aliança porque Washington se aproveitou das vulnerabilidades de Seul."

DW
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