Aurora Bernárdez ao lado de Julio Cortázar, com quem foi casada durante quatorze anos (Reprodução)

Tradutora de inglês, francês e italiano, responsável por verter para o espanhol autores como Gustave Flaubert, William Faulkner e Albert Camus, a argentina Aurora Bernárdez escreveu, em um de seus cadernos recém-descobertos, que possuía “vocação para a obscuridade e o secreto”. Dizia que “apenas um escritor em casa já era o bastante”, referindo-se a Julio Cortázar, com quem foi casada durante quatorze anos.

Uma nova publicação, entretanto, revela a produção literária (em prosa e poesia) de uma escritora secreta. Alguém que escreveu com extrema sensibilidade “para uma pessoa tão pouco dada a exteriorizar suas emoções”, como afirmou Philipppe Fénelon, organizador da obra, ao jornal argentino La Nacion.

“Depois de casar-se e se envolver com o trabalho de tradução, ela preferiu não ser escritora, seguramente para não enfrentar essa maldição que persegue os casais de escritores, em que um se sobressai ao outro ou é visto como mais interessante”, disse Fénelon em entrevista ao jornal colombiano El Espectador.

Aficionada por literatura desde os 11 anos, ela teria sido aconselhada pelo irmão, o poeta Francisco Luis Bernárdez, a seguir a carreira de tradutora “por ser um trabalho que poderia ser feito de casa”. Aurora morreu em 2014, aos 94 anos, em Paris, após uma vida dedicada a disseminar e preservar a obra do ex-marido.

A tradutora e escritora Aurora Bernárdez, em Barcelona, 2007 (Foto Danny Caminal/Divulgação)

No livro organizado por Fénelon, ‘El libro de Aurora’ – publicado na Argentina no final de junho pela Alfaguara -, há 60 poemas escritos entre 1954 e 2001, além de contos, textos memorialísticos, relatos de viagens, reflexões sobre literatura e arte, e uma entrevista concedida a Fénelon em 2005.

A obra, segundo o organizador, é ao mesmo tempo uma homenagem a Aurora, para que sua obra “não caia no vácuo”, e uma tentativa de entender por que a autora escolheu não publicar seus escritos em vida.

A hipótese de Fénelon é de que Aurora estava mesmo sendo leal a Julio, principalmente a partir da explosão de ‘O jogo da amarelinha’, publicado em 1953. “Aurora estava muito orgulhosa desse romance, foi mais importante para ela do que para Julio”, disse ao La Nacion, mencionando conversas entre a autora e a amiga Chichita Calvino.

Maria Vargas Llosa, bastante amigo de Aurora e Cortázar, concorda. O escritor peruano escreveu em uma coluna que sempre teve a certeza de que ela “não apenas traduzia maravilhosamente”, mas que também era capaz de escrever com a mesma habilidade. Para Llosa, Aurora teria deixado de publicar por uma decisão “heroica”, “para que houvesse apenas um escritor na família”.

Revista Cult



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