Miriam Leitão noticiou o aumento de impostos em primeira mão: furo espetacular.

Os economistas sabem melhor do que qualquer outro profissional que gastos acima da arrecadação produzem ruína. Numa família, o resultado é o endividamento. No governo, o descontrole das contas públicas. Sabem, mas, em geral, calibram sua análise de acordo com os interesses do mercado. Ou políticos. No final, interesses de mercado e interesses políticos acabam sendo a mesma coisa.

O exemplo perfeito desse comportamento é o aumento dos impostos decretado pelo governo de Michel Temer, que poderá resultar na gasolina mais cara do Brasil nos últimos treze anos. Professor da FGV em São Paulo e sócio da consultoria GO Associados, Gesner Oliveira avaliou assim a medida do governo:


“O aumento de impostos não é ideal, mas é necessário.”

Muito diferente da análise que o economista Gesner fez em 2015, quando Dilma Rousseff propôs a recriação da CPMF temporária para equilibrar as contas:

“Não tem sentido. A sociedade não aguenta mais esse tipo de asfixia tributária”.

Gesner tem um currículo com serviços prestados aos governos tucanos, como ex-presidente da Sabesp em São Paulo, no governo de José Serra, e ex-secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Mas não é nenhum desqualificado. É doutor em Economia pela Universidade da Califórnia (Berkeley).

O ex-diretor do Banco Central Carlos Eduardo de Freitas, presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal (Corecon/DF), não disse nada a respeito do pacote tributário de Temer/Meirelles. Mas foi implacável quando Dilma tentou sanear as contas públicas:

“O governo petista é socialista, defende a distribuição de renda e quer fazer ajuste apenas com aumento de impostos. A sociedade quer ver as contas públicas em dia com redução de gastos. Ele não fez nenhuma outra proposta para aumentar a renda e arrecadar mais, gastando menos.”
PUBLICIDADE


O maior aumento da carga tributária foi no governo tucano de Fernando Henrique Cardoso – passou de 20 para 34% do PIB e, no governo do PT, ficou em torno disso.

O economista, durante o governo Dilma: “PT é socialista e só quer aumentar imposto”.

A jornalista Miriam Leitão noticiou em primeira mão que haveria aumento de impostos. Em sua coluna, fez um comentário neutro – neutralidade, nesse caso, pode interpretada como algo positivo. Explicou que o governo estava com dificuldade de fechar as contas.

Imagine-se qual seria o comentário no jornal O Globo, TV Globo Globo, CBN e G1 (ela é quase onipresente) se o aumento fosse anunciado pela equipe de Dilma Rousseff.

O PSDB é o principal aliado de Temer e também não criticou o aumento de impostos. Seu presidente nacional (licenciado), Aécio Neves, dizia o seguinte a respeito da proposta de Dilma de recriar a CPMF:

“Somos contra o aumento de impostos. O ajuste rudimentar que esse governo vem propor se sustenta em dois pilares: o primeiro deles é a supressão de direitos e o segundo, o aumento da carga tributária. [O governo] deveria estar sustentado em dois outros pilares: a redução de despesas, requalificação do estado e a retomada do crescimento, pois é aí que se arrecadará mais. E o governo me parece não ter condições de fazer nem uma coisa e nem outra – nem diminuir suas despesas tampouco fazer a retomada do crescimento. Nós do PSDB não apoiaremos nenhuma proposta que puna ainda mais os já tão punidos cidadãos e contribuintes brasileiros.”

Quem suprimiu direitos foi o atual governo, com a criação do teto dos gastos públicos e a reforma trabalhista, medidas que Aécio e o PSDB apoiaram, com entusiasmo.

E agora?

O G1, do Grupo Globo, publicou a reportagem “Com inflação fraca, aumentar impostos foi decisão acertada, dizem economistas”.

A presidente deposta Dilma Rousseff se manifestou no Twitter sobre o festival de contradição:

“Impressiona a naturalidade com que colunistas de economia acolhem a decisão do governo de aumentar impostos, como o PIS/Cofins e a Cide. O governo golpista alega que, sem aumentar impostos, não cumprirá a meta fiscal, e muitos colunistas e analistas apenas dizem amém.”

Ela continua:

“Nem parece que são os mesmos analistas que, quando meu governo considerou a necessidade de recriar a CPMF, reagiram com indignação. Pelo jeito, para tais ‘especialistas’, só governo ilegítimo e sem voto tem direito de aumentar tributos, até por decreto, como anunciado.”

Aumento de impostos nunca é bem recebido, mas a CPMF tem uma característica que incomoda especialmente sonegador, corrupto, traficante e outros agentes econômicos que precisam ocultar patrimônio. Na transação por movimentação bancária, até a venda de cocaína acaba sendo tributada.

O ex-ministro da Saúde Adib Jatene fez esse comentário comigo, depois que deixou o governo de Fernando Henrique Cardoso. Ele havia lutado pela criação da CPMF como fonte exclusiva para a saúde.

Ficou irritado quando percebeu que tomou um chapéu da equipe econômica: a CPMF foi para a saúde, como prevista em lei, mas o governo reduziu as transferências de outras fontes. No fim das contas, ficou quase tudo a mesma coisa.

Mesmo assim, não se arrependeu da guerra que liderou pelo imposto. “É um tributo mais democrático que os outros e também atinge a economia subterrânea. Vimos que esse mercado paralelo era muito maior do que imaginávamos e a arrecadação foi o dobro do que a equipe econômica previa”, afirmou, num fim da tarde, em seu gabinete no Incor.

Águas passadas.



O que move o governo hoje são outras forças. Mas, para dimensioná-las, não se deve levar a sério o que dizem os economistas. Eles são quase todos comprometidos. E não é com o interesse público.



DCM
Axact

Ronaldo

Blogueiro e livreiro, reproduzo as notícias que considero interessante para os amigos e disponíbilizo meu acervo de livros para possíveis clientes. Boa leitura e boas compras.

Poste aqui o seu comentário:

0 comments:

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;