Escritor carioca, que estará na FLIP na próxima sexta, conversa sobre sua história e suas influências


Anderson França, após a entrevista. PEDRO CURI

FELIPE BETIM
Jornalista | Periodista - El País
Rio de Janeiro


O escritor Anderson França já trabalhou como porteiro, vendeu planos de saúde, quentinha, revista da Igreja Adventista e camiseta, foi estagiário em escritório de advocacia, deu aula de violão e bateria, foi ativista em ONGs... Também postava nas redes sociais sobre segurança pública, violência policial e direitos humanos até que, em 2014, começou a sofrer ameaças. “Entraram lá em casa e quebraram as coisas. Não sabia o risco que estava correndo. Ou sabia. Mas fazia a parada. Minha mulher falou: ‘Não vim pro Rio para morrer’”. Decidiu então mudar o foco de suas postagens e começou a desenvolver uma escrita sobre a cidade, com crônicas e comentários sobre a vida e os costumes daqueles que habitam as favelas e periferias do Rio de Janeiro. “Me tornei cronista porque tinha medo de morrer”, revela Anderson, que lançou seu primeiro livro, Rio em Shamas (Objetiva/Companhia das Letras), em outubro do ano passado e, agora, se prepara para o debate Literatura em Todas as Plataforma,promovido pela TV Globo a partir das 15h desta sexta-feira na Festa Literária de Paraty (FLIP).

Dinho, seu apelido desde criança, é evangélico da Igreja Batista e filho de imigrantes nordestinos. Nasceu em Madureira e passou por diversos outros bairros da periferia carioca, como Abolição, Piedade, Encantado, Cavalcanti ou Vila Aliança. “Meu pai devia muito aluguel e era sempre despejado dos lugares. A gente vivia em caminhão de mudança. Fui conhecendo o Rio assim”, conta ele, hoje com 42 anos e morador do Cachambi. Seu pensamento crítico, explica, começou quando morava e trabalhava na favela da Maré e conheceu Cecília Olliveira, jornalista especializada em segurança pública que hoje trabalha na plataforma Fogo Cruzado e no The Intercept Brasil. "Antes não tinha o glamour de hoje, com a galera fazendo selfie e dizendo 'sou favelado pra caralho'. Eu me sentia arrasado, não me entendia favelado. Ficava puto. Mas na Maré encontrei muita gente que pensava, escrevia... Muita gente do rap que me ajudou a fazer crítica sobre a vida. Devo muito a Cecília. Aprendi com ela como se critica Rio de Janeiro".

Suas crônicas são baseadas naquilo que ele vê e viu, vive e viveu: o vaivém nos trens entre a estação Central e a zona norte, o racismo escancarado em uma fila na padaria, a correria para pegar um ônibus que nunca para no ponto, a "suruba" em uma casa de swing de Madureira frequentada por evangélicos... “As pessoas começaram a falar para que eu escrevesse sobre Madureira, sobre Irajá... Mas o que? Aí fui descobrindo que as pessoas gostam de saber que outras vão no motel. Mas o motel bom é aquele que tem garrafa de coca de dois litros. Isso no subúrbio, de você ir para um motel com uma mulher e ter uma comida barata e o cara poder servir um refrigerante de dois litros... Isso é do caralho! É uma coisa do suburbano que ninguém falava”, explica. “Então comecei a narrar esse cara, os pequenos fenômenos de mudança, de alteração e transição que ele faz na vida, de um canto pro outro... E isso foi o que pegou. Começaram a dizer ‘Ah, eu me vejo nesse texto, ah, eu ouço muito isso, ah, isso aconteceu comigo, ah eu me lembro desse lugar’. Não estão acostumados a ver que também pode existir um grande escritor que anda de ônibus, no 277 ou no 254, como eles”.

P. O trem é o cenário de muitas de suas crônicas. Que importância ele tem para você?

R. É ele que leva as pessoas para todos os lugares. O próprio barulho do trem é o subúrbio. Tinha uma época da minha vida, quando eu tinha uns 20 anos, em que eu trabalhava como porteiro e quase não tinha dinheiro e nem ia para festa. Então eu pegava o trem e com o mesmo bilhete ficava rodando. Colocava meu fone de ouvido, escutada Racionais ou Tim Maia no walkman, e ia. Olhava a cidade do trem. O trem é a primeira coisa que um nordestino busca quando chega no Rio. É um lugar de encontros e de desgraçadas. Não quero prêmio Jabuti e nem nada. O maior reconhecimento para mim seria que uma plataforma tivesse meu nome.

Anderson França, durante a entrevista. PEDRO CURI


Nas páginas de Rio em Shamas Dinho manteve uma escrita que nasceu na e para a Internet, com recursos da era digital que reproduzem a sonoridade do jeito de falar das periferias cariocas. Ele inclusive faz questão de escrever algumas palavras de forma incorreta para que ela soe como é dita no subúrbio. "Foi difícil passar pro livro porque não tem o feedback do público. Mas quis manter a originalidade. A editora bateu o pé com algumas coisas. Por exemplo, em um momento pediram para que eu retirasse a expressão preta e colocasse negra. E eu falei não, que as mina preta aqui do subúrbio tão falando preta, e elas querem ser chamadas pretas, então é preta que fica!'".

Ainda que se identifique com escritores como Lima Barreto — homenageado da FLIP deste ano —, João Ubaldo Ribeiro, Millôr Fernandes ou Nelson Rodrigues, suas principais influências estão fora literatura, em artistas como Criolo, Aracy de Almeida, Mc Marechal e, sobretudo, o sambista Bezerra da Silva. “Existem gírias do Bezerra que permearam a cultura e a fala contemporânea. ‘Vou te dar um 22’, ‘vou te dar um confere’... A gíria é o grande lugar do morro, do subúrbio, da periferia. Na zona norte você não fala ‘motorista, me deixa aqui no ponto’. Se alguém fala isso, vão dizer ‘porra, essa pessoa vem lá de Botafogo’. Você tem que gritar ‘Coé piloto’ e resolve. A comunicação se resume a duas palavras e ele já entendeu qual é a parada. É incrível”.

Seu texto retrata com humor o cotidiano dos cariocas sem abrir mão, ao mesmo tempo, de um tom crítico com relação ao Rio e à nobre zona sul. Há também raiva e ressentimento.
Anderson França, durante a entrevista. P. CURI
P. Como a zona sul te recebeu?

R. Teve uma galera com muita resistência, que chamaram muito para si as críticas. Me chamaram de muita coisa, que eu era preconceituoso, das trevas. O cara da zona sul se sente dono da cidade. Quando fica com raiva, parte contra você com uma agressividade e violência que aí você reconhece quem é o homem branco e privilegiado, percebe que o feminismo da mulher branca não é o da mulher negra daqui, que o Marx de lá não o Marx daqui... Mas também um monte de gente de lá foi lendo e dizendo: ‘Esse cara é crítico, mas tem uma coisa aqui. Ele está expondo a gente da zona sul, mas sem espuma na boca’.

P. O que o Rio representa pra você?

R. O Rio é a capital. Mesmo. Do melhor e do pior. Ultimamente mais do pior. É o ponto cardinal. O Brasil ainda não encontrou outro. O que define mais esse país é o Rio. Até a corrupção é criada por nós cariocas. O PMDB é uma invenção nossa. Essa república é uma invenção nossa. Essa bandeira saiu daqui. O Brasil é uma grande filial do Rio de Janeiro. Eu tenho pena disso. (...) Tenho mágoas do Rio porque sou filho daqui. É tipo magoa de família. A coisa mais importante hoje é me sentir aceito na minha cidade. Eu sair no jornal da minha cidade, por exemplo, é importante pra mim.

Anderson França, durante a entrevista. PEDRO CURI

Esquerda x empreendedorismo

Além de escritor, Anderson dá aulas de empreendedorismo na Universidade da Correria (UC), criada por ele em 2013. No início ele dava aulas em casa. Tinha acabado de se divorciar quando decidiu criar um curso com o qual pudesse também tirar o próprio sustento. "Como ninguém tem grana pra pagar mensalidade, porque tá todo mundo pobre, fiz o seguinte: peguei umas malhas que eu tinha, fiz camiseta e vendi 200 na rua. Com o dinheiro eu me paguei e fiz duas turmas na Maré", conta. Google, Sebrae, Sesi, Fundação Telefônica e Brasil Foundation foram algumas das entidades que se interessaram pelo projeto e financiaram novas turmas depois. "Falo que estamos criando um ecossistema, que ninguém vai ser rico. O capitalismo tende a entrar em colapso, então o que temos de fazer é criar ecossistemas e fazer rodar, entre nós, riquezas. Não é sobre dinheiro. É sobre a gente se manter, sobreviver pros próximos anos". A UC já deu aula para 4.000 pessoas, montou 200 negócios e arrecadou 180.000 reais de investimento direito pros alunos. A próxima turma será aberta em setembro. "Estamos vendo aqui coisas incríveis que são um mercado futuro mais humano, que fale menos de dinheiro e mais de realização. E a esquerda não está aqui. E deveria estar, cara!", diz ele, que também ajuda sua esposa em A Pequena Cozinha, uma empresa de gastronomia.

Dinho se considera de esquerda — "ajudei a colocar o Lula no poder e sou fruto do Governo Lula" — mas não economiza críticas a ela. Diz que se tornou "uma bolha acadêmica que fala apenas para o cara da classe média que teve acesso ao privilégio de entender a leitura". Para ele, ela "perdeu o contato e a linguagem do povo" e se transformou "na nova cerveja artesanal, o novo hambúrguer gourmet". A esquerda brasileira, acredita, "só conversava com o trabalhador de chão de fábrica, mas não conversa com os de hoje" porque, entre outros motivos, "é contraditório falar de empreendedorismo e ser de esquerda".

A realidade da periferia empreendedora foi o foco de uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, vinculada ao PT, divulgada em abril deste ano. Muitos comemoraram a suposta guinada da classe trabalhadora em direção para o liberalismo. Mas para Dinho, o estudo não só refletiu a ascensão de uma população que hoje consome mais e demanda mais serviços, como também constatou algo que também sempre existiu. "Muitos romantizam dizendo que a periferia é de direita. Mas quem empreende é porque está desempregado. É por necessidade, não por vontade. Ou empreendem ou são despejados. Sempre foi assim. Muitos dos que passam pela UC preferiam estar com carteira assinada. A direita romantiza o empreendedor da mesma forma que a esquerda romantiza o trabalhador", explica. Diz ainda haver uma forma para que a esquerda se reconecte com a população da periferia: "Acho que ela gostaria de receber o tratamento que recebe na Igreja. De ser identificada como ator importante".

P. O que é crise para a periferia?

R. Desde que a periferia é periferia, a polícia sempre considerou que o pobre morador de morro e subúrbio é vagabundo. A periferia sempre teve que lidar com um processo contínuo de exclusão, preconceito e racismo. Quem vive há 100 anos nisso não saberia identificar crise, porque pra eles é a rotina. Eles já estão num degrau abaixo. Quem tá dizendo que tá em crise é porque tá num degrau acima. A perda de emprego na periferia sempre foi continua, porque eles sempre são contratados para subempregos. Nunca houve grandes conquistas em massa, mesmo depois dos últimos 13 anos.

Anderson França, durante a entrevista. PEDRO CURI

Axact

Ronaldo

Blogueiro e livreiro, reproduzo as notícias que considero interessante para os amigos e disponíbilizo meu acervo de livros para possíveis clientes. Boa leitura e boas compras.

Poste aqui o seu comentário: