“Li e indago aqui: por que calar nossos amores,/ temer o público, não confessar que os dolos/ de Tiro conhecemos e a fugaz blandícia/ de Tiro e furtos que só trazem novas chamas?”, canta Plínio, o jovem, acerca do amor entre dois romanos. De seus versos vem o título Por que calar nossos amores? (2017), antologia de poesia homoerótica latina recentemente publicada pela Autêntica.

O volume traz vinte poetas que escreveram com a temática homoerótica na Roma Antiga entre os séculos 1 a.C. e 4 d.C. Entre pesquisas e traduções, os organizadores Raimundo Carvalho, Guilherme Gontijo Flores, Márcio Meirelles Gouvêa Júnior e João Angelo Oliva Neto levaram dez anos para concluir o trabalho.

“Há uma documentação histórica, mas a partir de uma vivência poética do texto. É para ser um livro de poesia que tenha um engajamento nessas vivências poéticas das experiências afetivas, nesse lugar sutil que é a celebração do amor”, comenta Gontijo Flores.

A demora na publicação do volume, segundo ele, veio da dificuldade em reunir toda a poesia homoerótica latina, uma vez que o gênero foi muito mais presente na literatura grega: na Grécia Antiga era comum que um jovem se relacionasse com seus mestre e preceptor, por exemplo; na Roma Antiga, entretanto, o corpo da criança era considerado sagrado, sendo um crime violá-lo.

“A imagem da sexualidade homoerótica que aparece na literatura romana tem uma abordagem a partir da literatura grega, que estava dirigindo diretamente as práticas aceitas. E muitas práticas em Roma aconteciam e ganharam voz a partir desse uso da literatura grega. Era um modo enviesado de poder falar de determinados desejos e realizações sem criar um problema da ordem do tabu social romano”, explica o organizador.

Cantando e celebrando os amores

Um dos poetas da coletânea, Aulo Gélio, por exemplo, é apresentado como um tradutor de Platão, no que se percebe sua influência grega. Assim, canta a paixão por um jovem: “Quando num beijo semiaberto/ eu beijo meu garotinho/ e a doce flor dos alentos/ carrego no atalho aberto,/ minha alma fraca e ferida/ vem correndo junto aos lábios”.

Esse tom de celebração da paixão, do sentimento lírico amoroso, mantém-se ao longo de toda antologia. Seja cantando os amores de dois guerreiros, entre deuses e mortais ou enaltecendo o amor homossexual.

Perceber como os latinos celebravam esses amores é, para Gontijo Flores, um dos méritos do livro, que “desnaturaliza o sexo”. “Ele faz pensar sobre nossas próprias relações, pois mostra como as práticas sexuais estão imbuídas de um código social complexo”, explica. Flores acrescenta que essa poesia reforça certo estranhamento ao mostrar como a homossexualidade na Antiguidade era regida por outros códigos, outras normas que não a fazem ser equiparável à homossexualidade de hoje.

O organizador cita, como um desses códigos sociais estrangeiros ao nosso tempo, a irrelevância do gênero como fator identitário em Roma. O sexo ocupava, naquele contexto, a função social de reforçar o controle e a dominação do homem: ser penetrado, explica Flores, era algo problemático, não pelo ato em si, mas porque indicava uma submissão do homem (que por princípio deveria ser o dominador).

“O romano não entendia gênero como um lugar fundamental para estabelecer sua subjetividade, um lugar de identidade social, como fazemos. Para eles, havia um leque de possibilidades, sendo mais importante cumprir determinadas expectativas do código social”, afirma o organizador.

Poético e político

É esse estranhamento e desnaturalização que revestem os poemas de atualidade, na opinião do poeta e artista plástico Ricardo Domeneck, que assina a contracapa do livro. “Ao mesmo tempo que aprendemos sobre como os antigos viviam, o que pensavam e as diferenças gigantescas entre eles e nós, percebemos também quais problemas persistem. Construir novas perspectivas sobre o passado é construir novas perspectivas sobre o presente e o futuro.”

Nesse duplo, de entender melhor a vida dos antigos e pensar, à sua guisa, os problemas atuais, revela-se a carga política desse recorte antológico, até então inédito. O livro, assim, “afronta os discursos conservadores sobre o que seria ‘natural’, como se a homofobia fosse algo que nos acompanha desde que surgiu a espécie, quando a relação de ódio da sociedade com o homoerotismo é resultado em grande medida das religiões abraâmicas e suas noções de pecado”, explica Domeneck.

O próprio título da obra já indica essa posição política, na opinião de Oséias Ferraz, coordenador da coleção Clássica da Autêntica. “Por que calar nossos amores? Por que as pessoas têm que esconder seus afetos? Por que os afetos são condenados, diferente do ódio e da agressão, tão aceitos? Por isso escolher esse título foi um gesto político”, questiona.

Como Gontijo Flores, o coordenador nota que há inclusive uma tendência ao apagamento nos estudos clássicos do homoerotismo. Ele cita Ovídio e Virgílio que, apesar do amplo reconhecimento, têm poucos estudos e atenção dedicada às passagens homoeróticas de suas obras. Em Por que calar nossos amores? há trechos dos dois poetas especificamente com a temática homoerótica.


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Ronaldo

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