RICARDO NOBLAT, colunista do jornal O Globo, é conhecido por aderir fielmente às posturas de seu chefes, os bilionários irmãos Marinho – a exemplo de suas enfáticas e frequentes declarações a favor do impeachment de Dilma Rousseff (com piadinhas desprezíveis inclusive). Não se acanha em ostentar aquilo que acha ser uma relação próxima com Michel Temer — o presidente até esteve na festa de 50º aniversário de carreira do jornalista e tem chamado a atenção por uma admiração que beira uma obsessão por Marcela Temer. Dias atrás, ele deu a maior barriga na semana mais tumultuada dos últimos tempos, quando anunciou, na quinta-feira (18) que Temer estava pronto para renunciar à Presidência da República.



Noblat errou, e Temer, como vimos, não renunciou. Essa está longe ser da primeira barriga dele, mas muita gente levou a sério a nota do jornalista exatamente porque ele ostenta a relação com o presidente que é mais impopular até mesmo do que a ideia de aumentar impostos.





Trabalhar junto à classe política e econômica é uma coisa. Se inebriar com o poder que estes podem exalar, é outra. E aqui está o X da questão. O colunista parece mais afeito ao poder que destilam homens como Michel Temer e João Roberto Marinho do que à função jornalística de fiscalizar esse poder. Noblat circula num mundo hiperelite, cheio de empresários e políticos que têm valores diferentes da “ralé brasileira“, algo que fica mais claro a cada grampo e delação.

É um mundo dominado por um ponto de vista em que ricos e poderosos podem tomar decisões em benefício próprio e se justificar dizendo que o fizeram por amor à pátria. E até crer nisso. Eles crêem que são mais sábios que o povo, predestinados a guiar e salvar o país, mesmo que isso exija ir contra a maioria dos eleitores. Assim, julgam legítimo fazer coisas como apoiar um golpe civil-militar, editar um debate presidencial para favorecer um candidato e apoiar o impeachment de uma presidente porque discorda da sua plataforma. Esse conceito elitista é repugnante para quem acredita que “todo poder emana do povo”, mas é comum entre a elite mundial. Após cinco décadas neste mundo, parece que Noblat perdeu a noção do papel de um jornalista e da bolha em que vive. Ou não. Acha que faz parte dele.

Na noite deste domingo (22), Noblat soltou pérolas em seu perfil pessoal no Twitter, mas parece não ter percebido as implicações:



Primeiramente, é interessante ver a dicotomia que ele apresenta: “O Globo” x “a esquerda”. De acordo com seu chefe João Roberto Marinho, o Grupo Globo não apoia lados — nem apoiava o impeachment da Dilma — e assume “a responsabilidade de reportar os fatos. É nosso dever…como teria sido o caso em qualquer outra democracia no mundo”. (Análises feitas pela mídia internacional contam uma outra história.) Em uma propaganda, o apresentador do Jornal Nacional até usa a palavra “imparcialidade” para descrever o jornalismo da TV Globo. Se analisarmos atentamente, veremos que, nesta questão, Noblat está mais correto* do que Marinho ou o âncora William Bonner, mas também está desmentindo (sem querer?) a linha editorial isentona do Grupo. Então, vamos ser benevolentes e classificar este momento de sinceridade como um ato falho de Noblat.

Segundo, ele pinta o embate erradamente. De acordo com uma pesquisa Datafolha feita em abril, 85% da população apoia eleições diretas caso Temer caia, mesmo levando em consideração que seria necessária a aprovação de uma emenda constitucional. Lembrando que isso foi antes das delações da JBS, que provocaram gritos de #DiretasJá nas ruas e nas redes.





Isso é o primeiro equívoco. Não é “a esquerda” tentando “salvar Lula, e salvar-se”. São 85% da população de um país que é bastante conservador. Outra pesquisa Datafolha, de dezembro do ano passado, mostra que apenas 26% das pessoas se identificam como de esquerda ou centro-esquerda (24% centro, 31% centro-direita ou direita). Há ainda outra pesquisa Datafolha, de abril deste ano, que demonstra que 45% da população rejeita Lula no primeiro turno, um resultado consistente com pesquisas anteriores (apenas Temer foi mais rejeitado, com 64%). Ou seja, como é que é possível afirmar que #DiretasJá é apenas coisa de esquerdista tentando salvar Lula enquanto 85% da população apoia o conceito, só um quarto da população se declara de esquerda e 45% rejeita Lula? Pesquisas 2×0 Noblat.

Agora, Noblat diz que negar o desejo político de 85% da população é fazer “o que manda a lei”. Deixemos Laura Carvalho, economista e colunista da Folha, responder:


3×0. Valeu, Laura.

Noblat: “Haverá diretas, já, daqui a 17 meses.” Enquanto isso, botar um pseudo-Temer na Presidência com o voto do Congresso — onde um em cada três deputados é investigado pelo Supremo Tribunal Federal – que está junto com Temer. Quer dizer: seriam 29 meses com um governo com aprovação de 9%, que está implementando reformas estruturais que nunca foram aprovadas pelas ruas, nem debatidas com a sociedade e que são extremamente danosas para os direitos fundamentais da maioria da população, enquanto os Três Poderes passam por graves crises de legitimidade (é sério isso, Gilmar?). Esse é o estado democrático apoiado por Noblat e o Grupo Globo dos Marinho.

Questionado por Cecília Olliveira, do The Intercept Brasil, Noblat respondeu:




E é verdade. Tem o direito, sim. (Gol Noblat! 3×1) Só que tem um problema aí. Os Marinho são donos de quatro jornais, 16 revistas, 61 canais de TV à cabo e satélite, uma gravadora, uma editora de livros, um provedor de internet, têm influência sobre uma rede de concessões locais de rádio e TV e posse de 34% da audiência da principal fonte de notícia nacional (a televisão). Assim, acaba que a opinião de uma família de herdeiros bilionários consegue soar mais alto do que 176 milhões de brasileiros que discordam. Isso não é democrático, mas democracia nunca foi a marca que eles endossavam mesmo, sempre foi e sempre será um tipo de ditadura benevolente controlada pelos ricos e poderosos. (4×1 para Noblat, 7×1 para Brasil.) Quem paga mais leva. Joesley Batista que o diga.

Vale a pena notar que Noblat já até escreveu que “impedir a realização de um desejo da esmagadora maioria dos brasileiros” é “um golpe” — mas isso só valia porque o desejo era alinhado com o dele: tirar Dilma.

O primeiro passo para acabar com o cartel que estrangula Brasília é uma reforma da mídia que quebre o cartel midiático que estrangula o fluxo de informação no Brasil. Isso foi uma proposta “prioritária” do governo PT e largá-la foi um dos seus piores erros. O PT trocou o debate sobre a democratização da mídia por bilhões em publicidade investidos na mídia que hoje critica. Engordou a cobra que o picou. A reforma é mais urgente que qualquer PEC que o governo Temer ou o governo Maia ou o governo Meirelles promoveria. Esperamos que o Noblat consiga vê-la acontecer antes de dar sua última barriga.



* O Grupo Globo é tão isentão que as “gerências de Marketing e de Comunicação da Rede Globo” criaram uma campanha em apoio ao agronegócio (“Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é tudo”) e promovem este fato em matéria em seu site de notícia, G1, como se não fosse um escandaloso conflito de interesse. Para jornalistas comprometidos com a democracia e com o papel principal do jornalismo — fiscalizar poderes —, o setor é responsável por ou acusado de desmatamento da Amazônia, assassinar ativistas, utilizar trabalho escravo, corrupção ativa de políticos e…ser estrela em propagandas na TV Globo por dois anos seguidos. Para o diretor-geral da TV Globo, o foco é “a eficiência e a competência do agronegócio brasileiro e sua posição de vanguarda no cenário mundial”.


The Intercept Brasil



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Ronaldo

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