"O que se considera violência? Uma ruptura democrática, tirando uma presidente sem que tenha havido crime de responsabilidade não é violência? Um governo ilegítimo aprovando medidas que prejudicam um povo que não elegeu esse governo não é uma violência? O povo nas ruas, protestando e se excedendo, é só mais uma violência – uma contra-violência, na verdade."




Por Wagner Francesco.

Brasília pegou fogo – literalmente. Ministérios foram incendiados e houve “quebra-quebra”. Aqueles memes que vemos na internet, com Brasília sendo atacada por ETs ou por loucos como o presidente da Coreia do Norte enfim se materializaram. Junto com a materialização da revolta do povo cansado de um governo ilegítimo aparece o discurso romântico da burguesia – propondo uma “revolução pacífica”, “um embate nas urnas”. Em resumo: são adeptos do sexo virtual e do café descafeinado – ou das coisas sem as suas substâncias.



No prefácio do livro Violência: seis reflexões laterais, escrito pelo filósofo Slavoj Žižek, Jorge Luiz Souto Maior anotou:


“Acusam as manifestações populares de violentas, mas, em geral, elas são apenas reações a violências constantemente sofridas que não são chamadas por esse nome. O problema é que a revolta, materializada em ato coletivo, é muito mais facilmente visualizada. Essa violência concreta acaba sendo o argumento para a repressão institucionalizada, fazendo com que as vítimas reais sejam novamente violentadas.”

Eis então: as violências nas manifestações populares não são as causas, mas os efeitos. A causa é outra: o desmando e o ataque aos direitos do povo pobre do país. E, a propósito, não podemos falar sobre a dormência das esquerdas, sobretudo as que estiveram abraçadas com o Partido dos Trabalhadores e que mantiverem, diante do capital, sempre uma posição defensiva. Inclusive, as alianças que o PT fez foram parte dessa “atitude defensiva” frente ao capital, passando a ser um interlocutor dele.

Assim, escreveu o filósofo István Mészáros, em sua obra Para além do capital: rumo a uma teoria da transição:


“Desta nova posição defensiva foi possível ao movimento operário, em condições favoráveis (ao Capital), obter algumas vantagens para certos setores do movimento.” (p. 23)

E conclui o mesmo autor que:


“O papel defensivo adotado pelo movimento operário conferiu uma estranha forma de legitimidade ao modo de controle sociometabólico do capital, pois, por omissão, a postura defensiva representou, ostensivamente ou tacitamente, a aceitação da ordem política e econômica estabelecida como a estrutura necessária e pré-requisito das reivindicações que poderiam ser consideradas “realisticamente viáveis” entre as apresentadas.” (Para além do capital, p.24)

Adormecemos. E, quando acordamos, a burguesia tomou um susto. Querem que façamos barulho sem incomodar os vizinhos. Querem que reivindiquemos num sambódromo. Não se dão conta de que a violência é às vezes necessária. Aliás, o que se considera violência? Uma ruptura democrática, tirando uma presidente sem que tenha havido crime de responsabilidade não é violência? Um governo ilegítimo aprovando medidas que prejudicam um povo que não elegeu esse governo não é uma violência? O povo nas ruas, protestando e se excedendo, é só mais uma violência – uma contra-violência, na verdade. E lembremo-nos do que disse Tito Lívio: “é justa a guerra que é necessária e sagrada são as armas quando não há esperanças senão nelas”.

Lenin chamava de ilusão as pacíficas esperanças pequeno-burguesas em uma “coalizão” com a burguesia, na conciliação com ela, na possibilidade de esperar “tranquilamente” pelo dia de ir à urna votar. (“As tarefas da revolução”, Às portas da revolução, p. 131)

Esse movimento silencioso que setores conservadores da sociedade propõem é o silêncio de quem quer que alguma coisa mude, sem mudar nada de fato. Querem uma revolução sem revolução. Como pontuou Lenin: é ilusão. Nas palavras de Mészáros:


“Como detém o controle efetivo de todos os aspectos vitais do sociometabolismo, o capital tem condições de definir a esfera da legitimação política […] excluindo, assim, a priori, a possibilidade de ser legitimamente contestado em sua esfera substantiva de operação reprodutiva, socioeconômica.” (Para além do capital, p.29)

Não temos tempo para perder com romantismos. Não podemos permitir que nos acomodemos e retiremos da pauta uma ofensiva socialista que nos condenaria a impotência permanente. Dizia Lenin que “se esperarmos […] e deixarmos passar agora o momento, arruinaremos a revolução” (Às portas da revolução, p. 146). E complementa Mészáros:


“Vivemos hoje em um mundo firmemente mantido sob as rédeas do capital, numa era de promessas não-cumpridas e esperanças amargamente frustradas que, até o momento, só se sustentam por uma teimosa esperança. Portanto é compreensível que somente uma alternativa socialista radical ao modo de controle metabólico social tenha condições de oferecer uma solução viável para as contradições que surgem à nossa frente.” (Para além do capital, p.37)

Não há tempo para romantismo. Não se faz revolução com luva de seda. Que a Bastilha seja tomada. Fogo na Babilônia! Fora, Temer!

Referências

MÉSZÁROS, István. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boitempo, 2002

Slavoj Žižek & Vladimir Lenin. Às portas da Revolução: escritos de Lenin de 1917. São Paulo: Boitempo, 2005

Slavoj Žižek. Violência: seis reflexões lateriais. São Paulo: Boitempo, 2014

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