Empate técnico entre quatro candidatos a representar desde a extrema-direita até a esquerda radical inquieta observadores



Da esquerda para a direita, François Fillon, Emmanuel Macron, Jean Luc Mélenchon, Marine Le Pen e Benoît Haman

A menos de cinco dias do pleito presidencial, quatro candidatos estavam emparelhados. De acordo com a última enquete de intenção de votos publicada na sexta-feira 14, todos beiravam os 20%. O primeiro turno acontece domingo, 23 de abril. Caso nenhum dos 11 candidatos obtenha 50% dos votos, o segundo será em 7 de maio. Reinava a incerteza.

A inesperada ascensão do candidato esquerdista Jéan-Luc Mélenchon, da França Insubmissa e aliado do Partido Comunista, foi o primeiro fator a alterar o esperado duelo no segundo turno entre a extremista Marine Le Pen, Frente Nacional (FN), e do centrista Emmanuel Macron, ex-banqueiro, ex-ministro de Economia sob o presidente François Hollande e líder do movimento Em Marcha!. Exímio tribuno, Mélenchon, 65 anos, também atuou com maestria nas redes sociais. Em seus discursos, propôs renegociar a relação com a “neoliberal” União Europeia (UE). No entanto, mesmo antes da ascensão de Mélenchon, a corrida presidencial já havia desviado das pistas tradicionais.

Os debates haviam sido ofuscados pelos affaires de corrupção do conservador François Fillon, ex-premiê e líder de Os Republicanos (LR). Fillon, de 63 anos, era até então o favorito à presidência. Fazia uma campanha apoiada na sua honestidade. No entanto, eis que afloraram certas derrapadas do ex-premiê: contratou sua mulher, a britânica Penelope Clarke, o filho e a filha como assistentes sociais. Arrecadaram 900 mil euros. No “Penelopegate”, ainda apareceu uma soma elevadíssima por dois artigos para um jornal de um amigo que madame, parece, nem sequer escreveu. Fillon mostrou-se um homem ligado à família. E ao dinheiro. Foi a Moscou apresentar seu amigo empresário libanês, o bilionário Fouad Makhzoumi, a Vladimir Putin. Preço pago por Fouad a Fillon: 45 mil euros. Fillon fez mais: aceitou dois ternos de seu amigo advogado Robert Bourgi. Preço de cada terno: 6.500 euros. Como os afiliados do Partido Socialista, vários dos LR votarão em Macron. Repórteres se aproximam de direitistas dos LR e indagam: “Quanto custou teu terno?”

Mesmo assim, Fillon, assim como Le Pen, Macron e Mélenchon continuam no páreo à presidência. Na verdade, a incerteza em relação ao resultado, não parece pior do que o quadro eleitoral anterior à ascensão de Mélenchon e a queda nas sondagens de Fillon. Uma vitória de Le Pen seria uma catástrofe que, para muitos observadores, faria parte de um efeito dominó. Após a saída do Reino Unido da UE e as eleições norte-americanas, em que a vitória de Donald Trump deixou o mundo boquiaberto, agora seria a vez da França. No entanto, no pleito presidencial neste país, fundamental na liderança da UE ao lado da Alemanha, ainda restam esperanças no resultado final. A vitória da extremista Le Pen significaria um veloz Frexit, a saída da França da UE.

Além de organizar um referendo para o êxito da Zona do Euro, Le Pen quer tirar a França do espaço de Schengen, o acordo que promove a livre circulação de pessoas entre os países signatários. Mais: ela quer reduzir a imigração legal em 80%, acrescentar cinco mil policiais nas fronteiras do país e mais 15 mil policiais país afora. A líder da FN praticaria um “protecionismo inteligente”. Esse cenário se desenrolaria sob os aplausos, por semelhantes e diferentes motivos, dos líderes dos EUA, Reino Unido e Rússia, ou seja, Donald Trump, Theresa May e Vladimir Putin.

Um segundo cenário parecia, porém, mais plausível, pelo menos até o final de março. O centrista Emmanuel Macron, encabeçava, até então, todas as pesquisas de intenção de votos. Macron, 39 anos, se desvinculou do Partido Socialista (PS) para não participar das primárias socialistas e assim disputar a corrida presidencial com seu movimento Em Marcha!. “Macron é jovem, bonito e defende o projeto europeu”, disse, entre goles de café, a escritora Marie-Line Belzamont, de 55 anos. Embora estivesse em dúvida em quem votar no primeiro turno, como, aliás um terço dos franceses, entre os prováveis finalistas – Le Pen e Macron – ela escolheria Macron.

De qualquer forma, o fato de Em Marcha! e uma sigla de extrema-direita serem apontados como finalistas no segundo turno indicava que a França entraria em uma nova era. O Partido Socialista (PS) e Os Republicanos, liderados por Benoît Hamon e François Fillon, foram siglas que se alternaram no poder desde 1958. “Os outsiders”, argumenta o cientista político anglo-americano Michael Strauss, do Centre d’Études Diplomatiques et Stratégiques (CEDS) e da Sorbonne, “são a novidade”. Por sua vez, o filósofo Robert Redeker diz: “Para a França, esse pleito representa o final do século XX”.

O quinto dos 11 candidatos ao primeiro turno era, até o princípio de março, o esquerdista Mélenchon, do movimento França Insubmissa. Observadores de esquerda reprovavam o inflexível Mélenchon de se recusar a fazer uma aliança com Hamon, de 49 anos. Após várias tentativas do líder do PS, a esquerda teria chances de chegar ao segundo turno.

Por sua vez, Macron, candidato abaixo das expectativas no início da campanha, teve mais sorte. François Bayrou, popular líder centrista do MoDem (Mouvement Démocrate), de 65 anos, foi pragmático: aderiu ao movimento de Macron. Segundo Redeker, “Bayrou, um homem com qualidades, vê Macron como seu herdeiro”. O filósofo acrescenta: “O objetivo de Bayrou é explodir o sistema de partidos para o centro governar”.

Após o casamento entre Em Marcha! e o MoDem, Macron, hábil no debate como aquele do dia 20 de março entre os cinco presidenciáveis favoritos, subiu nas pesquisas. Édouard Bailby, ex-correspondente internacional do semanário L’Express, disse: “Voto em Mélenchon, mas o segundo turno não será, acredito tão fácil como na eleição de 2002, quando votei no conservador Jacques Chirac para evitar a vitória de Jean-Marie Le Pen, o pai de Marine”. Chirac obteve uma esmagadora vitória com quase 85% dos votos.

De fato, a diferença entre Le Pen e Macron nas sondagens era de dois, três pontos porcentuais a escassas semanas do primeiro turno, dia 23 de abril. “O eleitorado de Le Pen é sólido”, avaliou Strauss, do CEDS e da Sorbonne. São os excluídos da globalização, favoráveis ao protecionismo, à morte da UE. São nacionalistas, ex-comunistas, extremistas de todas as tendências. E também pessoas moderadas de classe média, cujo poder aquisitivo decresce com a globalização. Falava-se em uma disputa entre o nacionalismo de Le Pen e o neoliberalismo de Macron.

Menos antissemita que o pai Jean-Marie, segundo o qual o Holocausto “foi um mero detalhe na história”, Marine dissemina a islamofobia. A líder da FN fala na perda de identidade dos franceses. Segundo Strauss, “mesmo que Le Pen, a filha, tenha mudado um pouco a imagem da sigla extremista, e agora ela seja mais aceita, visto que concede uma quantidade de entrevistas e comparece a todos os debates, ainda há muita gente que prefere não ser associada à FN, e por isso vota em silêncio na agremiação”. Ou seja, as sondagens não revelam todos os eleitores de Le Pen. “E não se esqueça: um terço dos franceses ainda não tem candidato ou candidata no primeiro turno.”

Por sua vez, Macron se diz apartidário, mas “progressista e liberal (no sentido econômico)”. “Agora se diz apartidário porque quer angariar votos entre os socialistas do PS e os republicanos do LR, siglas à beira do abismo”, argumenta Nadège Harembourg, artista de 40 anos. E no caso do duelo Macron contra Le Pen? “Não sei nem se vou votar.” Nadège emenda: “Sabe, muitos amigos não queremmais saber de votar contra Le Pen. Fazemos isso desde 2002. Basta. Temos de votar por convicção, e não aderir ao voto útil. Democracia é votar em quem você acredita e não se basear em pesquisas”.

Vários protagonistas do PS, como o próprio ex-premiê Manuel Valls, vencido na final das primárias socialistas por Hamon, anunciaram apoio a Macron, já no primeiro turno. “Não é uma questão de coração, mas sim de razão”, explicou Valls ao canal de notícias BFM-TV. Valls adere ao voto útil para derrotar Le Pen. Outro ministro do atual governo fez o mesmo, e mais uma miríade de socialistas. Ainda segundo Valls, “a estratégia de Hamon leva à marginalização”. Hamon parece razoável. Quer dar 600 euros por mês aos desempregados e àqueles com salários inferiores a 200 euros em um país onde o mínimo é de 1.480 euros brutos ao mês. Entre outras medidas, é favorável à legalização da maconha e quer acabar com a energia nuclear até 2050. Mas Hamon está fora da corrida.

O expert em América Latina Gaspard Estrada, do Institut d’Études Politiques de Paris, tem razão ao dizer que as primárias, introduzidas pelos socialistas no pleito presidencial de 2012, e pela direita neste ano, não deram certo. Segundo as regras do PS, o candidato que vence as primárias deve ser apoiado pela agremiação. “Desleal”, lê-se na capa do diário Libération sobre o rosto sombrio de Valls.

A campanha, diga-se, teve excelentes debates nas primárias e entre os cinco candidatos na corrida ao primeiro turno, constata Estrada. Os variados temas giravam em torno do nível de desemprego acima dos 10%, com um em cada quatro jovens desempregado, da lenta retomada financeira desde 2008, da imigração, dos refugiados, da segurança. Isso em um país traumatizado por uma série de atentados terroristas, onde, mesmo assim, recentemente um jovem foi violado pelo cano da arma de um policial nos esquálidos subúrbios.

Axact

Ronaldo

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