Helena Borges, Tomás Chiaverini


UM DESAVISADO QUE chegasse à Avenida Paulista, na capital de São Paulo, por volta das 19h de quarta-feira (15), poderia facilmente supor ter topado com um comício do PT. A avenida estava completamente tomada por bandeiras vermelhas enquanto, em cima do carro de som, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva escutava o povo ao redor entoar o olê-olá clássico de suas campanhas eleitorais. Quem segue minimamente o noticiário, contudo, sabe que não se tratava disso. Ou não apenas disso.


Luiz Inacio Lula da Silva fala durante o protesto que fez parte da Greve Geral, em São Paulo, no dia 15 de março. Foto: Victor Moriyama/Getty Images



O objetivo dos atos, que se espalharam por 19 capitais, era gritar contra a proposta de reforma de previdência do governo Temer que, como haviam previsto diversos líderes e analistas, trouxe a esquerda de volta às ruas, após um longo período em que os protestos não passavam de fagulhas isoladas. Na principal avenida de São Paulo, a maior das manifestações do dia 15 reuniu cerca de 200 mil pessoas, segundo organizadores. Curiosamente, nem a Polícia Militar, nem os institutos de pesquisa tradicionais deram-se ao trabalho de calcular o número de presentes.
“pode ser o início da retomada da nossa luta”

“Das tragédias do governo Temer, a coisa boa foi a oportunidade, através dessa reforma maluca, de voltarmos a dialogar com os trabalhadores do campo e da cidade”, disse o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, que concluiu: “acho que isso pode ser o início da retomada da nossa luta.”

Rodrigues se diz satisfeito com o retorno a um modo clássico de a esquerda se manifestar, que vai além da tomada do espaço público:


“Precisamos agradecer muito ao retorno do método tradicional da esquerda de fazer manifestação. A manifestação da esquerda é aquela em que o trabalhador vai com as suas bandeiras, faz greve e faz paralisação. Isso que é uma manifestação clássica. Só se altera a conjuntura se parar a produção e a circulação da mercadoria”.




Manifestação que fez parte da Greve Geral, em Cruzeiro do Sul (AC), no dia 15 de março. Foto: Panthio

A volta às ruas de uma parcela do povo que havia se postado passivamente diante do processo de impeachment de Dilma Rousseff — e que desde então permanecia em casa — foi comemorada por outras lideranças. “Hoje foi um marco importante no processo de mobilização porque, pela primeira vez no último período, vieram em peso trabalhadores, para além dos movimentos sociais organizados”, disse o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos. “Veio o povo das periferias, o povo pobre, que hoje fez greve, fez ocupações de prédios públicos… Acho que foi um salto qualitativo”.

Mas e 2018? E Lula?


Estaria a esquerda armando um enorme palanque para o retorno triunfal do presidente operário? A resposta oficial das lideranças é um sonoro não. Para Boulos, qualquer tentativa de antecipar as próximas eleições presidenciais traz consigo o risco de enfraquecer o movimento:


“Há uma ampla unidade na esquerda, no sentido de enfrentar os ataques do governo Temer. Mas não há uma unidade igual do ponto de vista de pensar as perspectivas. Sejam as perspectivas eleitorais para 2018, seja um projeto estratégico de país.”

O coordenador do MST foi na mesma linha. Afirmou que o momento atual é de luta e que o PT não deve tentar misturá-lo com objetivos eleitorais. Apesar disso, a presença de Lula como o astro da noite não chegava a incomodar. “O Lula é uma figura pública extremamente importante da esquerda. É o maior patrimônio, a maior liderança dos últimos 30 anos. Então é natural que em toda e qualquer manifestação do nosso campo político, ele acabe capitaneando”, afirmou, sem levar em conta a ausência de Lula em boa parte das manifestações esporádicas da esquerda nos últimos meses.


Manifestação em Curitiba (PR), no dia 15 de março, como parte da Greve Geral. Foto: Francisco Proner

Por volta das 17h de quarta-feira (15), o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, desceu do carro de som para atender ao telefonema de The Intercept Brasil. Quando perguntado sobre as chances de Lula aproveitar a retomada das ruas para se lançar numa precoce pré-campanha, ofereceu uma resposta quase dialética:


“Sou partidário de uma candidatura do Lula a presidente. Trabalho para convencê-lo a ser candidato e trabalharei muito para que golpistas não impeçam que ele seja candidato. Mas hoje estamos discutindo a reforma da previdência”.

O momento escolhido para a aparição pública do ex-presidente tem posicionamento estratégico no calendário. Um dia antes, ele estava em Brasília depondo na 10ª Vara Federal como réu por obstrução de justiça. Lula é acusado de tentar impedir o acordo delação premiada de Nestor Cerveró, ex-diretor da área internacional da Petrobras. Três dias depois da greve, no dia 19, ele visita a cidade de Monteiro (PB) para conferir a conclusão da transposição do rio São Francisco e iniciar oficialmente o “volta, Lula”.




Garis declaram seu apoio à Greve Geral, no dia 15 de março, no Rio de Janeiro. Foto: Carolina Cacau
“Seis meses atrás essa ovação não teria acontecido”


Manifestação em Juiz de Fora (MG) no dia da Greve Geral contra a reforma da previdência, 15 de março. Foto: Otavio Martins

Para a cientista política e historiadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Dulce Pandolfi, o país vive uma junção de movimentos sociais que viram o momento propício para retomar as ruas sob a causa justa e clara da reforma da previdência. “Se fosse uma greve geral contra o governo Temer, talvez não tivesse tanto sucesso. Mas somou-se uma bandeira que sensibiliza a população com a insatisfação com o governo”, explicou.

Para Pandolfi, que também é pesquisadora do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), nesse novo cenário o ex-presidente e as forças políticas ligadas a ele percebem que é um momento de tudo ou nada:

“Lula está no alvo. Já desconstruíram a imagem dele. Agora ele se fortalece e torna-se mais difícil prendê-lo ou acusá-lo. Então a visão é de que é preciso fortalecê-lo para torná-lo um pouco intocável.”

Ainda segundo a cientista, a morte recente da ex-primeira-dama Marisa Letícia é outro fator que ajuda nisso: “a política é pautada por acontecimentos icônicos”. Sem contar que, diante do luto, os ataques se tornaram mais evidentes e a teoria de que há um processo de perseguiçãoganhou corpo. “Recentemente, a coisa ficou tão parcial que, com isso, o Lula consegue recobrar sua força. Seis meses atrás essa ovação não teria acontecido. Agora se retomou a narrativa em cima da perseguição a ele”, ponderou.



Manifestação em Paranaguá (PR), como parte da Greve Geral do dia 15 de março.


“Até a vitória!”



No carro de som, com voz mais rouca do que de costume, Lula mostrou toda a sua argúcia política ao fazer exatamente o que se esperava dele. Falou sobre a reforma da previdência e atacou o governo Temer. “Está ficando cada vez mais claro que o golpe dado nesse país não foi apenas contra a Dilma, não foi apenas contra os partidos de esquerda. O golpe dado nesse país foi para colocar um cidadão sem nenhuma legitimidade para acabar com as conquistas da classe trabalhadora”, exclamou em meio a aplausos e rojões.



A transformação da manifestação em comício começou tímida, com um aceno sutil ao Nordeste, eterno reduto eleitoral do PT:


“A reforma da aposentadoria vai praticamente proibir que milhões e milhões de brasileiros consigam se aposentar. Vai fazer com que os trabalhadores mais pobres desse país, sobretudo os trabalhadores rurais desse nordeste, passem a receber metade de um salário mínimo.”

Em seguida, sem deixar de lado o tema da noite, Lula lembrou da época de economia pujante em que, é claro, ele ocupava o Planalto: “Eu gostaria que o [ministro da fazenda Henrique] Meirelles estivesse ouvindo. Gostaria que o Temer estivesse ouvindo. Pra eles perceberem que um dia, nesse país, nós resolvemos o problema da previdência”. Em resposta, o ministro — que foi presidente do Banco Central durante todo o mandato de Lula, entre 2003 e 2010 — afirmou na manhã seguinte (16) que uma vitória de Lula nas eleições de 2018 não impactaria a reforma da previdência porque, segundo a análise de Meirelles, o ex-presidente possui um histórico de moderação.






Manifestação em Recife (PE) no dia da Greve Geral, 15 de maio.

Segundo Lula, a receita para sanar o problema é simples: colocar a economia nos trilhos, gerar empregos e estimular empresas a se formalizarem. Os exemplos concretos vieram de sua atuação na presidência: “Quando nós geramos 22 milhões de empregos, quando todas as categorias organizadas tinham aumento acima da inflação, quando o salário mínimo era reajustado todo ano, quando a gente tinha as pequenas e médias empresas formalizadas e legalizadas, a previdência crescia a sua arrecadação”. Depois leu os dados em um calhamaço de papel: “Apenas entre 2008 e 2014 houve um aumento de 54,6% na receita da seguridade social. Com a queda continuada do desemprego e da informalidade, pela primeira vez na história do Brasil teve superávit”.

O saudosismo foi a ponte que ligou a reforma da previdência à esperança de um Brasil grande: “Esse país era admirado nos Estados Unidos, era admirado na Rússia, era admirado na China, era admirado na Índia, era respeitado na América Latina”, disse o homem que, nos idos de 2009, foi chamado de “o cara” pelo então presidente norte-americano Barak Obama.

Daí para se comparar com o impopular Michel Temer, foi um pulo: “Hoje nós temos esse presidente que não tem nem coragem de ir na Bolívia, não tem nem coragem de ir no Uruguai, porque nenhum presidente quer recebê-lo”, atacou Lula do alto do carro de som. Depois partiu para o final catártico, indispensável a todo bom discurso. “Esse povo só vai parar quando elegerem um governo democraticamente. Um abraço, companheiros, e até a vitória!”

Lá embaixo, na Paulista tomada, o povo respondeu entonando um “Olê-olê-olê-olá, Lulá, Lulá”.

The Intercept Brasil



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Ronaldo

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