Nascido e criado nas Mercês, nosso grande ícone musical é negro e proletário


Ricardo Prestes Pazello
Brasil de Fato, Curitiba (PR)


Seu enredo foi curto, mas intenso: Lápis viveu até aos 36 anos / Blog Memória, Saudade, Música e Lápis


“Se a avenida tem fim, não faz mal, tem fim a vida e o carnaval” – este é um dos refrões do maior compositor popular de Curitiba. Nascido e criado nas Mercês, nosso grande ícone musical é negro e proletário.

Com pai operário e mãe de família tradicional, é filho de um casamento que começa na carnavalesca Antonina. Seu Abelardo e Dona Mariquinha tiveram 21 filhos e Lápis – ou Palminor Rodrigues Ferreira – foi o último a desfilar na avenida do casal.

Seu enredo foi curto, mas intenso. Antes de partir, em fevereiro de 1978 aos 36 anos de idade, Lápis desenhou na conservadora Curitiba todo o seu som, apesar de longa permanência no Rio de Janeiro, onde tentou deslanchar sua carreira. Instrumentista de mão cheia, integrou vários grupos musicais, dos quais o “Bitten IV” foi o mais famoso, tocando pandeiro, violão, cavaquinho e sobretudo cantando.

Apesar de suas composições, não chegou a ser conhecido do grande público. Talvez por ter sido muito rebelde. Como trabalhador dos Correios, foi tão indócil a ponto de ser mandado embora por abandono de emprego. Como músico, preferiu a boemia e odiou “qualquer tipo de esquema comercial”, como disse Oraci Gemba, dramaturgo que o dirigiu no musical “Funeral para um rei negro”. Como atleticano, chegou a compor o hino do Coxa (prevendo o que aconteceria em 2017, quando a dupla atletiba se junta contra o monopólio corporativo da mídia em transmissões esportivas).

No ritmo intenso de sua vida, chegou a ter êxito em um festival de música de carnaval. “Dia de arlequim”, parceria com Paulo Vítola, foi o carro-chefe, ainda que melancólico, do sambista rebelde: “a noite inteira eu quero esquecer, por um momento eu quero sorrir”. Em tempos de desmonte cultural em Curitiba (vide cortes orçamentários na oficina de música e no carnaval), lembrar de Lápis é lembrar seu verso e rebeldia, as grandes lições de quem foi chamado de “o último rei da noite”.

Para ficar por dentro:

Boletim e áudio Lápis, um compositor paranaense (1982), de Aramis Millarch

CD À Lápis (2006), dirigido por Jazomar Vieira da Rocha

Blog Memória, Saudade, Música e Lápis (2008), organizado por Bia Lanza

Filme Feito a Lápis, documentário para um rei negro (2014), de Vinicius Camilo e Gabriel Eloi



*Ricardo Prestes Pazello é professor do curso de direito da UFPR, secretário-geral do IPDMS e militante da Consulta Popular do Paraná.

Edição: Ednubia Ghisi


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