Admirado por Maquiavel, Giuliano Della Rovere teve filhos, comandou guerras, empregou Michelângelo e Rafael (e também chefiou a Igreja)



Nascido Giuliano Della Rovere, morre em 21 de fevereiro de 1513 o papa Júlio II, pouco após a abertura do Concílio de Latrão V, convocado por ele. Durante seu período como chefe da Igreja Católica, o papa apelidado de "O Terrível" empenhou-se em anexar territórios pontificais, contratou artistas de renome, como Michelângelo e Rafael, e até criou sua própria moeda.

Graças ao apoio de seu tio Francesco della Rovere, papa em 1471 sob o nome de Sisto IV e quem confiou a Michelangelo a incumbência de decorar a magnífica capela que levou seu nome — Capela Sistina — , Giuliano Della Rovere começou sua marcha para a trono de São Pedro: foi nomeado cardeal-padre em 15 de dezembro de 1471 aos 28 anos e bispo de Avignos em 1474. Tendo constituído um imenso patrimônio, usa-o para criar uma influente rede. Diplomata hábil, estabelece vínculos com o rei da França Luis XI assim como com o imperador Maximilien I, tendo em vista alcançar a tiara pontifical.

Não rejeita os prazeres profanos como o atesta o nascimento de diversos bastardos. Todavia, muito pouco atraído pelo luxo, denuncia o nepotismo de Alexandre IV Borgia, o que o obrigou a esperar a morte dele para voltar a Roma e preparar sua eleição. E ela ocorre em 1º de novembro de 1503, após o breve pontificado de Pio III, papa por apenas 25 dias.

[Retrato do papa Júlio II, pintado pelo gênio das artes plásticas, Rafael Sanzio]

O novo papa já tinha, à época, 60 anos. Notadamente mais apaixonado pelos combates do que pelas belas palavras; mais à vontade numa armadura do que sob a mitra; homem de ação, combatente até a alma, Giuliano iria se comportar como soberano temporal. A escolha do nome Júlio, que remete a Júlio César, era em si todo um programa.

Preocupado em consolidar os Estados Pontifícios, reanexa, à frente de seu exército, a partir de 1504, a Romagna e outras possessões de César Bórgia. Suas excursões lhe valem a admiração de Maquiavel e o apelido de "O Terrível".

Não tardou, porém, a se ferir em Veneza. A ‘Sereníssima República’ pretendia estender suas possessões de Terra Firma e conquistar a Romagna. Em 10 de dezembro de 1508, o papa Júlio II constitui contra ela a Liga de Cambrai, com o rei da França Luis XII, o imperador da Alemanha Maximilian I, Fernando o Católico da Espanha e a Savoia.

Num dado momento, o papa se volta contra seus aliados e faz a paz em separado com a ‘Sereníssima’, tentando expulsar da Itália os "Bárbaros do Norte" — os franceses. Num ato de protesto, resolve deixar a barba crescer, jurando jamais cortá-la até que a Itália seja libertada.

Júlio II, muito pouco interessado nos dogmas e na reforma da Igreja, vale-se das riquezas da Santa Sé em benefício dos humanistas e dos artistas, pondo em prática os conselhos de seu contemporâneo Maquiavel: "Todo bom príncipe deve tanto se mostrar amante das virtudes, oferecendo hospitalidade aos homens virtuosos e homenageando aqueles que se excedem numa determinada arte".

Faz importantes encomendas aos principais gênios de seu tempo: Michelangelo, Rafael ou ainda Bramante. Abre novas artérias em Roma, entre as quais a Via Giulia. Empreende também em 1506 a econstrução da Basílica de São Pedro, um canteiro de obras de mais de 20 anos, sob a condução de Bramante.

A Michelangelo confia, além da decoração da Capela Sistina, a realização de sua própria tumba na igreja de São Pedro em Vincolo. Esse túmulo permaneceria inacabado, reduzido a uma escultura monumental de Moisés. A Rafael confia a decoração de seus apartamentos e, certamente, o célebre retrato dele mesmo.

Essas obras, bem como o mecenato, além das despesas militares, acabaram por engolir as receitas da Santa Sé. Para remediar a situação, Júlio II multiplica a venda de benefícios eclesiásticos, as isenções e as indulgências — uma redução do tempo no purgatório prometido aos generosos fieis após sua morte.

Quanto às empresas financeiras, ele se vale dos prudentes conselhos de seu fiel banqueiro Agostino Chigi, que o leva até a criar sua própria moeda, o giulio.

Essas medidas, continuadas por seu sucessor Leão X (João de Medicis) iriam escandalizar os fiéis, notadamente na Alemanha, e contribuir para a reforma luterana.

O papa sempre evitou aparecer com seus filhos para escapar às maledicências que acompanharam seu predecessor Alexandre VI. No entanto, preocupado em consolidar suas ligações, casa sua filha Felice Della Rovere, nascida em 1483 de sua relação com uma jovem aristocrata romana, com o filho de uma grande família romana, Giordano Orsini.



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